As elites da política mineira

Por José Geraldo Bandeira de Melo (publicado na edição 756, de 23/10/2013)

As elites políticas mineiras sempre existiram, eram de carne e osso, de pensar e de agir. O estilo da elite é aquela coisa sábia. Mineiro nasce nas montanhas, sua terra não tem mar, só paredões. A terra é rica por baixo, mais do que por cima. No meio do Brasil, passagem de todos, Minas costuma pegar as idéias dos brasileiros que passam (e eles vêm de todas as direções) para espiar e conferir se têm algum valor. Igualzinho ao que faz com as pedras coradas e os minérios. Se vale, mineiro guarda a pedra para fazer bons negócios. Se não vale nada, joga fora, de modo que sobrevive em Minas apenas o que tem valor, pelo menos algum valor.

Quem nasce entre montanhas, sentindo as nuvens roçar a cabeça, é de pisar com cuidado, não pode dar passada em falso. Tem de olhar para baixo, firme, porque é de baixo que vem o fim e o começo da estrada, o fim de todos os recomeços.

O líder, o da elite, é o que vai sempre na frente, o que sabe pisar melhor e enxerga mais longe. Quem não vê direito, quem sente tontura, a perna bambear, quem é distraído ou apressado, fique atrás, o líder sabe para onde está indo e levará o grupo com calma e segurança.

A elite política mineira, sabendo pisar os caminhos, tanto governa com segurança os apetrechos do Estado, a máquina do Estado, como também sabe conduzir a sociedade.

Estadista é para isto mesmo, governar o Estado e guiar a sociedade, coisa que a elite política de Minas sempre soube fazer. Se era para apertar o passo, João Pinheiro não teve medo. Mudou rotinas, acelerou o andor e descortinou novas realidades sem deixar a gente mineira sentir medo nem tontura. Melo Viana, na sua mulatice assumida, também quis sacudir a poeira, sacudiu e não fez ninguém amedrontar-se.

Outros não foram tão longe, só marcaram passo por sentir ou pressentir que a caravana também não tinha pressa.

Muito bem, mas houve uma vez diferente. Um mineiro doidão, cismado em andar com botas de sete léguas, Juscelino Kubitschek, inventou o 50 em 5, inventou o desenvolvimento industrial a galope. Assustou as elites, mas entusiasmou o povão, tanto que, no seu tempo, mais importante do que conferir estatísticas econômicas, era soltar a cabeça e sonhar, sonhar alto e sentir-se livre, com vontade de mudar e de começar tudo outra vez.

Ele tanto agitou, quanto valseou. E até hoje, passado mais de meio século que JK despilotou o Alvorada, seu nome é lembrado como um dos maiores estadistas desse mundão chamado Brasil.

O Brasil antes de JK era igual, embora igual na apatia, na frouxidão e na mansidão. O Brasil de hoje é aflito em exigir mais e mais, e as elites de Minas, aquelas elites que sabem mais que as outras, sabem construir projetos políticos à base da indignação. Essas elites usaram da indignação para construir o sonho de Vila Rica, o sonho dos inconfidentes; liberais mineiros em 1842 administraram a indignação com paciência revolucionária para tentar mudar o que estava injusto; em 1943, outros mineiros souberam escrever um manifesto aparentemente doce, mas efetivamente indignado para exigir um novo começo que veio dois anos depois, com a derrubada da ditadura de Vargas.

Minas sempre apareceu na hora certa; até quando não apareceu era para não aparecer. Se a nação brasileira chamar um  mineiro, ele não assumirá compromissos com o erro, nunca tentará legitimar o poder com a ilusão dos miseráveis. Afinal de contas, a questão nacional não é tão aterradora assim, tudo consiste em surgir um líder que transforme problemas em oportunidades. Quem sabe um mineiro (ou uma mineira) outra vez.

Fonte: Política: Arte de Minas

Causo

O deputado mineiro, pessedista, chega da Europa com cinco garrafas embrulhadas. A alfândega quis saber o que era:

– Água milagrosa de Fátima.

– Mas tudo isso?

– Lá em Minas, o pessoal acredita muito nos milagres da água de Fátima.

– O senhor faz o favor de desembrulhar as garrafas?

– Pois não, naturalmente.

– Mas deputado, isso é uísque!

– Ué, não é que já deu o milagre?

(Quando Newton Cardoso governou Minas, circulou uma adaptação dessa história, colocando-o como o viajante flagrado na alfândega)