GIL TEIXEIRA

Aqueles que o conheceram ainda se lembram de suas brincadeiras pelas ruas da cidade, quando passava irradiando alegria e tecendo sábios conselhos aos jovens que o abordavam. Poeta, compositor, músico, trocadilhista, piadista, comediante, comerciante, juiz de paz, ferroviário, exemplar chefe de família e adorável vizinho (uma unanimidade no bairro Porto Velho). Gil Teixeira era, disse certa vez um dileto amigo, um verdadeiro anjo.

Era dono de uma gargalhada incomparável que dizia ser de aço e sempre que solicitado narrava um trocadilho de sua autoria denominado “Trocadilho do Sabão”, que inventara utilizando todas as marcas de saponáceos existentes na época. Dizia o trocadilho: “Cheguei em casa e vi minha mulher lavando MOLAMBO com sabão em pó. Isto MINERVA, me in-FLAMA. Mandei minha mulher arranjar um NOVO OMO, um BRANCO TOTAL. Sabe que a danada ainda me deu um RINSO? As crianças gritavam: VIVA! VIVA! Saí dali e fui até a casa de meu compadre e gritei: ODD! Sua mulher, a GESSY, me disse que ele estava em viagem para o RIO. Eu, que sou um sujeito MAGO, perguntou: Eu PRESTO? Vocês gostaram do trocadilho do sabão? Então LEVER com vocês! Se não gostaram, agüentem com um PALMOLIVE”.

O carnaval era uma de suas grande paixões. Compôs inúmeras marchinhas e sambas, todas com bastante humor, muitas apimentadas. Uma foi plagiada e virou grande sucesso. Dizia assim: “Rússia lançou foguete. Cuba também vai lançar. Cuba lança! Cuba lança! Quero ver Cuba lançar”.

Ao ser abordado pelos jovens por “Seu” Gil, respondia para as moças: “Seu Gil não! Meu Gil!” Para os rapazes: “Seu Gil não! Gil delas!” E dos jovens, a quem dedicava muito carinho e admiração, dizia sempre aos críticos de plantão que atacavam os modismos da juventude: “O futuro do Brasil está nas mãos desta garotada. É preciso dar mais apoio aos jovens”. À época dos vestibulares, corria a cidade toda na busca dos nomes dos aprovados e, ao finalizar a lista, obrigava todos os jornais da cidade e a Rádio Cultura de Porto Novo a divulgar seus nomes.

O bom humor de Gil Teixeira também sempre esteve presente dentro de casa. Esposo amante e amado de Lourdes Gomes Teixeira, nascida em Além Paraíba no dia 23 de setembro de 1922, filha de José Gomes da Silva e Esmeralda Lopes da Silva, com que se casou em 02 de março de 1944, adorava e foi adorado pelos dez filhos aos quais legou uma herança milionária: a honestidade. Hermenegildo, Gilberto, Valda, Gilda, Gilce, José Jacinto, Gil Filho, Gilmara, Gilmar e Gilvânia, os filhos, são unânimes na afirmativa de que Gil Teixeira era o maior e melhor pai do mundo.

Gil Teixeira nasceu em Além Paraíba, no dia 17 de setembro de 1914. Era filho do casal de portugueses José Jacintho Teixeira e Maria da Encarnação Castro Teixeira e teve dois irmãos: José Jacintho Teixeira Júnior e Bráulio Teixeira. De origem humilde, foi ferroviário até o ano de 1946, quando abandonou a Estrada de Ferro Leopoldina para se associar ao irmão José Jacintho e ao cunhado deste, Arlindo Barbosa Teixeira, na Fabrica de Bebidas ‘A Realeza’, uma importante empresa alemparaibana que fabricou por longos anos um delicioso guaraná de nome Aurora. Após aposentar-se como comerciante, dedicou o seu tempo vago como Juiz de Paz, sempre usando a irreverência tão peculiar. Certa vez casou um noivo de nome Adão e uma noiva de nome Eva. Durante a cerimônia, perguntou à noiva o que ela ia dar para o noivo mais tarde, na noite de núpcias. Antes da resposta, tirou uma maçã de dentro do bolso entregando-lhe a fruta e disse: “Eva, não pense em maldade. Aqui está o que você vai dar ao Adão hoje à noite”. A gargalhada foi geral.

A irreverência e o bom humor de Gil Teixeira fez parte de sua vida e de uma geração inteira. Para toda Conceição que conhecia dizia: “Cinco com seis são…”. Dimas Santos, um velho amigo, certo dia lhe disse: “Gil, o tempo está mudando”. A resposta foi rápida: “Para onde Dimas? Para Elisa Aucar, uma querida vizinha, dizia sempre: “Minha pele é áspera, a sua é lisa.

Gil Teixeira era, também, um amante da Sétima Arte, o cinema. Não perdia um filme de bang-bang no Cine Brasil. Com o cinema lotado, repetia todos os barulhos e movimentos cm os braços, imitando um tiro, um soco, etc. Torcendo sempre pelo mocinho e pelo final feliz da mocinha, gritava ao final de cada sessão: “A Débora quer que o Gregory peque”, um trocadilho utilizando os nomes de dois grandes atores norte-americanos – Débora Kerr e Gregory Peck. Valdir Valentim dos Santos, saudoso gerente do Cinema Brasil, vendo aquela criança grande se divertir tanto e fazer tanta propaganda dos filmes ali exibidos, passou a lhe oferecer entrada franca em todos os filmes.

Certo dia a enfermidade bateu à porta de Gil Teixeira e tirou-lhe a alegria. Quando de sua morte, às 21 horas e vinte minutos do dia 22 de fevereiro de 1998, um domingo de carnaval, a cidade inteira chorou e o luto vestiu os foliões que pulavam pra valer pelas ruas da cidade. Gil Teixeira era assim: alegre, brincalhão, criativo, inteligente, amado e amante de sua família, sério com as coisas sérias e, sobretudo, um cidadão honesto. Honestidade sempre foi o seu lema. Sua palavra valia peso. Quando sócio da Realeza, ajudou muitos pequenos comerciantes a prosperarem na vida com seus botecos, fiando-lhes a perder de vista as mercadorias para ajudá-los. Era uma figura tradicional e obrigatória em todos os grandes momentos da Além Paraíba que viveu, deixando infinitas lembranças e uma legião de amigos e admiradores.

Publicado na edição nº 350.

Texto de Flávio Senra. Dados e foto cedidos pela família.