João Pinheiro

(Por Carmo Chagas – publicado na edição nº 769, de 29/01/2014)

Filho do imigrante italiano Giuseppe Pignataro, caldeireiro que, em Minas, abrasileirou o nome para José Pinheiro, e de Carolina Augusta, João Pinheiro da Silva nasceu no Serro, no dia 16 de dezembro de 1860. O pai morreu cedo, e a mãe, para educar os filhos José e João, recorreu à ajuda do padre João de Santo Antônio que internou as crianças no Seminário de Mariana. José se tornou padre e morreu moço, aos 30 anos, como vigário de Jequeri. João se tornou um dos mais importantes políticos que Minas Gerais já conheceu, criador do estilo administrativo dinâmico e revolucionário que, meio século depois, inspirou Juscelino Kubitschek.

Do seminário, João Pinheiro viajou poucos quilômetros até Ouro Preto, onde se matriculou na escola de Minas. Ao final do segundo ano do curso, descobriu que não tinha vocação para engenheiro. Mudou-se então para São Paulo, matriculou-se na Faculdade de Direito e, para se manter, trabalhou como zelador e reparador do laboratório de Física e Química da Escola Normal Paulista. Mais tarde, foi contratado como professor da escola.

Entre os professores da Escola Normal e os colegas de Faculdade de Direito, João Pinheiro adquiriu sobretudo novas ideias. Tornou-se positivista, abolicionista, republicano. De volta a Minas, pôs banca de advocacia em Ouro Preto, em 1888, mas já dedicava grande parte de seu tempo à propaganda republicana, em parceria com José Faria de Cesário Alvim.

Os dois estariam juntos no início republicano em Minas, logo depois de proclamada a República, Cesário Alvim chefiando o governo provisório e João Pinheiro como secretário de Estado e vice-governador. Em fevereiro de 1890, tornou-se o chefe do governo provisório, com a ida de Cesário Alvim para o Ministério do Interior. No governo, formou uma equipe jovem que mais tarde, ao atuar no plano federal, no governo de Afonso Pena, seria chamada de jardim-de-infância.

Eleito deputado constituinte, deixou o governo para representar Minas na Comissão dos 21, composta de um representante de cada Estado e encarregada de encaminhar o projeto da primeira Constituição do Brasil. No ano seguinte, com a deposição do presidente Deodoro da Fonseca, Cesário Alvim caiu do ministério e João Pinheiro renunciou ao mandato de deputado.

Voltou para Minas, passando vários anos como professor na faculdade de Direito de Ouro Preto e dono de uma próspera cerâmica em Caeté. Em 1899, estava de volta à política, como vereador, presidente da Câmara e prefeito de Caeté. Em, 1904, no governo Francisco Sales, presidiu o I Congresso Agrícola, Industrial e Comercial de Minas Gerais. Esse encontro representava a resposta mineira à política recessionista praticada então pelo governo federal.

Conduzindo os debates, João Pinheiro confirmou-se como líder de idéias progressistas e não teve dificuldades de se eleger senador, no mesmo ano. Ficou no Senado pouco mais de um ano. Na sucessão de Francisco Sales, em 1906, as principais forças políticas se dividiram entre as candidaturas de Venceslau Brás e Crispim Jacques Bias Fortes. O nome de João Pinheiro surgiu como candidato de conciliação, aceito por todas as correntes.  

Rico, respeitado, progressista, João Pinheiro assumiu o governo de Minas aos 46 anos e reuniu gente nova para compor sua equipe. Em ritmo acelerado a administração João Pinheiro em pouco tempo redefiniu o perfil sócio-econômico de Minas Gerais. Entre as inovações administrativas de mais impacto, introduziu na vida política mineira o Governo Itinerante, que consistia no deslocamento do governador e do secretariado para diferentes pontos do estado, permitindo-lhe conhecimento próximo e abrangente de todo o território mineiro. Outra novidade lançada por João Pinheiro no início do século e copiada por futuros governantes em Minas e fora de Minas: a política de incentivos fiscais para atrair investimentos para regiões promissoras.

João Pinheiro era um entusiasta da agricultura. Acreditava que a grande chance do Brasil estava na modernização da produção agrícola, o que significava abrir o país – e não fechar, como tantos defendiam – para as descobertas e evoluções praticadas no resto do mundo. Coerente, em 1907 cedeu terras do governo mineiro à empresa americana Empire Fibre Company, que traria para Minas as mais modernas técnicas e máquinas para a produção do arroz em escala industrial. Entre as condições impostas aos americanos, estava a de treinar aprendizes indicados pelo governo.

Defendeu com ardor a policultura, em lugar da monocultura tradicionalmente praticada pelos agricultores brasileiros. Acelerou a importação de reprodutores, para aprimorar o rebanho mineiro. Insistiu na ampliação do ensino técnico voltado para o meio rural.

O pensamento de João Pinheiro empolgava Minas Gerais. Seu estilo de governar despertava a consciência mineira. Dia ele: “A política das fórmulas vazias, dos desejos vãos e das puras vaidades pessoais já fez o seu tempo. Os hábitos da antiga centralização administrativa e política estão se extinguindo, para darem lugar às únicas aspirações dignas – as do bem do maior número de interesse coletivo das massas, na exclusiva preocupação das vantagens reais do povo, ensinando-o a ler, ensinando-o a trabalhar, para que, instruído e forte, possa ser independente e para que, independente, possa ser livre”.

A grande esperança muito rapidamente se desfez, porém, com a morte súbita de João Pinheiro, em 1908, dois anos antes de completar o mandato de governador, dois meses antes de completar 48 anos.

Em 1960, registrando no Senado o centenário de nascimento de João Pinheiro, Milton Campos arriscou-se a imaginar o que teria acontecido se ele não tivesse morrido tão cedo: “Seria ele o presidente da República. Para o governo levaria, com a sua mocidade e o seu idealismo republicano temperado pelo senso da realidade, as marcas da verdadeira República. Contribuiria para a luta contra os privilégios que vieram se acentuando e hoje desfiguram o regime, tornando vão e triste o nobre sonho dos fundadores. Teríamos, quem sabe, acelerado nosso progresso material, intelectual e moral, na linha evolutiva natural que outros países conheceram”.

Causo

Newton Cardoso é personagem de muitas histórias que, no passado, foram atribuídas a Benedito Valadares, Eurico Gaspar Dutra, Costa e Silva e outros políticos de físico e modos robustos. Uma delas teria ocorrido ao receber, em Palácio, uma comitiva de vereadores da cidade de Ipanema. Ao entrar no gabinete, um dos vereadores escorregou, caiu. Levantou-se, aprumou-se mas, novamente, a botina o traiu, outro tombo. Newton achou uma solução.

– Não precisa levantar, vereador. Fale deitado mesmo.

Outra do Newton, ao conhecer as instalações do Palácio Mangabeiras, residência oficial do governador, um projeto de Oscar Niemeyer. O chefe do cerimonial mostrava tudo. A piscina, a biblioteca, a adega, a garagem.

– E aqui fica o heliporto.

– Ficava, no tempo do Hélio Garcia. Agora vai ser Newtonporto.