José Faria de Cesário Alvim

 (Por Carmo Chagas – publicado na edição nº 759, de 13/11/2013)

Nasceu no arraial de Pinheiro, em 07 de junho de 1839, e morreu em Belo Horizonte, em 04 de dezembro de 1903. Governou Minas Gerais entre 25 de novembro de 1889 e 10 de fevereiro de 1890.

Órfão de pai desde criança, arrimo de família desde a adolescência, Cesário Alvim teve um início de vida muito semelhante ao de João Pinheiro, de quem foi grande amigo. Formou-se em Direito em 1862, em São Paulo. No Império, foi deputado provincial (estadual) e geral (federal), destacando-se em sua experiência parlamentar a interpelação de 1877 ao ministro da Fazenda, o baiano barão de Cotegipe. Trecho do discurso que pronunciou ao passar o governo ao amigo João Pinheiro: “Prometi que, comandante de nossa nau em mares tempestuosos, eu seria o último a abandoná-la, em caso de soçobro. Verificou-se que fui o primeiro a saltar dela, mas tocando o porto do salvamento”. Voltou a governar Minas entre 18 de junho de 1891 e 16 de junho de 1892, eleito pela Assembleia Constituinte. Seu último cargo público, no governo de Campos Sales (1898-1902) foi o de prefeito do Distrito Federal.

Causo

O folclore político das Minas Gerais confere a José Maria de Alkmim a autoria da maioria das frases e tiradas atribuídas à sabedoria política dos mineiros. Em muitos casos, o verdadeiro outro era outro. O que só dá razão ao ex-deputado, ex-ministro e ex-vice-presidente Alkmim, para todos os efeitos o autor da seguinte frase: “Em política o que conta não são os fatos, mas a versão”. Gustavo Capanema, certa vez, reclamou direito autoral sobre a frase. E Alkmim: “Você pode ter dito primeiro, mas lá no interior, para suas professoras. Quem disse primeiro na capital, para a imprensa, fui eu. Fica provado que o que vale é a versão”. Capanema ficou calado…

Alkmim era ministro da Fazenda de Juscelino Kubitschek. Foi procurado por um veterano da II Guerra. O ex-pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB), neurótico de guerra mas muito popular no Rio de Janeiro, apresentou seu pleito.

– Estou pensando em viajar para a Lua, sr. ministro. Mas não tenho dinheiro, nem sei como comprar a passagem. É só o senhor quem pode me ajudar.

Se dissesse não, o homem sairia pelos jornais reclamando da ingratidão. Se dissesse sim, o homem sairia nos jornais alardeando a promessa absurda. Alkmim não se apertou:

– Vamos estudar seu pedido com o carinho e a atenção que merecem os heróis da pátria. Agora, com o Sputinik inventado pelos russos, já existe  a possibilidade de chegar à Lua. Só preciso saber a qual Lua você deseja ir.

Como o pracinha demonstrasse dúvida, Alkmim logo acrescentou:

– Você tem que escolher, porque existem quatro luas, a Nova, a Cheia, a Crescente e a Minguante. A data de partida é diferente, para cada uma. O preço também varia.

– É verdade, eu não havia pensado nisso…

– Não se apresse. Vá para casa, pense direito, converse lá com sua mulher, sua família. Quando vocês chegarem a uma conclusão, volte aqui e na hora o seu problema será resolvido. Pode contar comigo.

Semanas depois, o pracinha voltou:

– É a lua Cheia, doutor. Quero viajar para a lua Cheia.

– Perfeito! É uma ótima escolha! É a mais bonita, a mais romântica, a mais brasileira… Vai ser uma grande honra, para o governo, atender a este pedido de um herói de guerra. Vamos agora definir o itinerário.

– O itinerário, doutor?

– Sim, o itinerário. Há um Sputinik que passa por Vênus, Mercúrio e Marte. Outro começa por Plutão, vai até Saturno e dá a volta em torno do Sol, antes de descer na lua Cheia.

– Prefiro esse, que dá a volta no Sol.

– Mas aí você não conhecerá Marte, o planeta vermelho, nem Vênus. É isso mesmo quer você quer?

Como o pracinha titubeasse, Alkmim aconselhou:

– Faça o seguinte, meu herói. Volte para casa. Converse com sua mulher, com sua família. Quando decidir, volte aqui e resolveremos na hora o seu problema. E não se apresse que temos bastante tempo…

Foi indo assim até que, dois anos depois, compareceu ao gabinete de Alkmim uma senhora. Vestida de negro. Era a viúva do pracinha.

– Mas como! Que notícia mais triste a senhora me traz! Quando foi que aconteceu essa tragédia?

– Hoje de madrugada, doutor. E como sei que para ele o senhor sempre foi um grande amigo, vim até aqui para ver se o senhor pode me ajudar com os funerais.

– Claro, minha senhora. Claro. Faça apenas o seguinte: vá agora para casa, reúna a família e veja lá se vocês querem enterro de primeira classe, de segunda classe ou de terceira classe. Assim que chegarem a uma decisão, volte aqui e resolveremos seu problema na hora…