Olegário Dias Maciel

(Por Carmo Chagas – publicado na edição nº 772, de 26/02/2014)

Nascido em 06 de outubro de 1855, em Bom Despacho (na época, município de Pitangui), Olegário Dias Maciel era filho de um coronel da Guarda Nacional. Era celibatário, e estudou no Colégio de Caraça, e formou-se engenheiro pela Politécnica do Rio de Janeiro.

Político bissexto, de carreira intermitente, alternava exercícios de mandatos eleitorais com demorados retiros na vida particular, como fazendeiro ou engenheiro. Por isso, certamente, caracterizou-se como reserva moral – e de competência – na vida política mineira.

Logo depois de formado, em 1878, Olegário Maciel foi viver com os pais, que haviam se mudado para Patos de Minas. Lá, foi vereador, agente executivo (equivalente a prefeito) e juiz de paz. Por lá, ainda no Império, se elegeu deputado provincial (estadual) e exerceu o mandato de 1880 a 1883, quando pela primeira vez se afastou da política para se dedicar ao trabalho como engenheiro. Nessa condição, a partir de 1888, dirigiu a Estrada de Ferro Pitangui-Patos.

Voltou à política com a proclamação da República, eleito deputado federal em 1891. Exerceu o mandato até 1911. Pela segunda vez, então retirou-se da política. Nesse período, começou sua vida com fazendeiro, sem deixar de lado a engenharia. Como engenheiro, exerceu vários cargos de consultor do Ministério da Viação e de inspetor dos serviços das Vias Férreas.

Os meios políticos respeitavam Olegário Maciel pela seriedade e pela competência profissional. Por essas virtudes, foi convidado para formar chapa com Raul Soares, que se elegeu presidente de Minas em 1922. Era mais um retorno à política. Quando Raul Soares se licenciou para tratamento de saúde, entre setembro de 1923 e abril de 1924, Olegário Maciel assumiu. Voltaria a assumir em agosto de 1924, quando da morte de Raul Soares. Completou o mandato, até dezembro. Em fevereiro de 1926, eleito deputado federal, presidiu a Assembleia e, pela terceira vez, chefiou o governo interinamente, quando o governador Melo Viana pediu licença para se candidatar a vice-presidente da República.

Nas eleições de 1930, o nome de Olegário Maciel surgiu como candidato de conciliação. Eleito já aos 75 anos, surpreendeu pela energia com que governou e pela firmeza com que tomou decisões políticas.

A primeira decisão política surpreendente: nomeou o secretariado sem consultar a direção do ainda todo-poderoso Partido Republicano Mineiro. Disse, na ocasião, que se iniciava uma nova era na vida nacional e que ele estava em sintonia com os novos tempos.

Surpreenderia ainda mais no ano seguinte, 1931, quando as velhas agremiações políticas não mais existiam oficialmente. Insatisfeito por perder o controle da política mineira, o antigo chefe supremo do PRM, Artur Bernardes, tentou derrubar Olegário Maciel com uma manobra golpista. Três secretários de Estado receberam a missão de levar a Olegário Maciel a proposta de uma renúncia coletiva do secretariado, à qual se seguiria o afastamento do idoso e, supunham eles, vulnerável governador.

A redação de Olegário Maciel foi fulminante. Demitiu os três: Cristiano Machado (Interior), José Carneiro de Rezende (Fazenda) e Alaor Soares (Agricultura). Sempre sem consultar a cúpula perremista, substituiu-os respectivamente por Gustavo Capanema, Amaro Lanari e Cincinato de Noronha Guarani.

Como administrador, Olegário Maciel só foi tradicional ao manter a política bem mineira de busca do equilíbrio orçamentário, dentro da orientação liberal de buscar a parceria com a iniciativa privada. Incluía-se entre os defensores da policultura, ao contrário da idéia dominante da monocultura de exportação. Achava mais importante abrir estradas que escolas ou postos médicos, pois considerava o transporte como condição essencial para a evolução da economia, sem o que não haveria avanços reais na educação ou na saúde.

A mais revolucionária das atitudes do governador Olegário Maciel foi a fabricação e álcool para uso como combustível. Quase meio século antes da crise do petróleo e do Pró-Álcool, Olegário Maciel sustentava que a imensidão territorial brasileira permitia plantar grandes extensões de cana-de-açúcar e mandioca, de onde se extraísse álcool suficiente para tornar o Brasil auto-suficiente no setor de combustíveis.

Mais que defender essa idéia, o governador colocou-o em prática. Em 1931, liberou verbas para a construção de uma usina de álcool de mandioca em Divinópolis. Antes de morrer, aos 75 anos, Olegário Maciel teve o prazer de ver Minas produzindo álcool combustível. E mais: de 1932 a 1935, enquanto funcionou, a usina de Divinópolis produziu 1,6 milhões de litros de álcool e 6 mil litros de óleo, gerando um lucro líquido de 208 contos de réis.

Olegário Maciel faleceu no dia 05 de setembro de 1933, no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte.

Causo

José Maria de Alkmim era célebre por suas respostas às perguntas que deixariam qualquer um embaraçado. Em 1969, como secretário da Educação de Minas, ele foi obrigado a comparecer à Assembleia Legislativa Mineira para explicar o atraso de nove meses no pagamento das professoras. O plenário da Casa estava lotado e Alkmim explicou o que estava acontecendo:

– Não há atraso nenhum, há apenas um retardamento no envio do numerário.

Um dos mais célebres diálogos atribuídos a José Alkmim teria acontecido com a soprano Lia Salgado, casada com o governador Clóvis Salgado, que governou Minas em 1955, completando o mandato de Juscelino Kubitschek.

– Sempre jovem, hem dona Lia?!

– Jovem o quê! Já sou até avó.

– Avó? Só se for por merecimento. Nunca por antiguidade.

Em Minas, morre Olegário Maciel, presidente do Estado. Semanas depois, no Rio, Benedito Valadares chega tarde da noite ao quarto do hotel e acorda a esposa.

– Odete, acorda! Eu sou o novo interventor em Minas!

– Benedito, você andou bebendo outra vez?

– Não. Desta vez acho que foi o Getúlio.

Benedito começou a usar óculos. Alguns dias depois encontrou-se com um de seus assessores, num corredor.

– Bonitos óculos, Excelência. As lentes são divergentes.

– São de ver tudo, meu filho. De ver gente, de ver cachorro, de ver qualquer coisa que passar pela frente.