Saudade possível ou impossível, eis a questão

No banquinho de pedra construído no meu jardim, ao lado de uma frondosa Bougainvillea, sempre viçosa e florida, quase que diariamente ali tomo assento, passando horas a meditar sobre o meu passado e todos os acontecimentos que rolaram na minha trajetória de vida e que me nortearam no sentido de uma conduta de trabalho e honestidade.

Confesso que no aconchego daquele banquinho passou pela minha idéia o seguinte ponto de interrogação: “Será que sentirei saudade daquilo que deixarei quando daqui da terra partir para o outro lado da vida?” Será isso possível?

Dizem que a gente não deve de apegar a coisas materiais. Concordo plenamente com essa opinião. Mas será que essa saudade a que estou me referindo é um sinal de apego a tudo de bom desta vida, inclusive a de cunho material?

Afirmo com toda sinceridade que o que sinto não deixa de ser um apego, mas esse se refere somente à beleza das flores que adornam e perfumam o meu jardim. São flores em profusão – rosas, beijos, begônias, lírios, hibiscos, ixoras e outras, que associadas à algazarra dos pássaros, deliciam os meus olhos e suavizam o meu coração, propiciando-me a sensação de muita paz e de uma alegria incontida, abrandando, inclusive, os meus temores quanto ao futuro, não só o meu, mas também o da minha família e do mundo em seu todo, principalmente no que se refere aos jovens de hoje e as crianças que continuarão nascendo daqui pra frente.

Se for possível sentir saudade já na outra dimensão da vida, não sei. Trata-se de uma questão que religiões e doutrinas explicam, mas que nem todos compreendem e aceitam.

Talvez nem haja razão para saudade, pois lá se presume a existência de jardins belíssimos que ornamentam aquele ambiente de paz amainando o desejo de recordar coisas do passado que podem ter sido muito boas, mas que já se foram.

Por isso, o melhor é ficar de bem com Deus e com a gente mesmo, procurando ser virtuoso e amigo daqueles que necessitam de apoio moral, espiritual e também material.

Que a beleza e o perfume das flores inspirem a todos no sentido de fazer o bem, pois as ações praticadas, com certeza serão avaliadas aqui na terra e no mundo espiritual e dependendo do que se praticou, as notas poderão ser boas ou más.

Enquanto isso, continuarei a usufruir o meu banquinho que parece construído de propósito para que, nesta fase da minha vida, eu pudesse daquele local contemplar a beleza exuberante e amiga da natureza.

Por tudo isso é que me considero um homem relativamente feliz, e só não o sou totalmente em razão de não ver todo mundo feliz.

(Publicado na edição nº 366, de 08/03/2006)