A Copa que se aproxima

Quatro anos se passaram num piscar de olhos. Mais uma vez teremos a oportunidade de acompanhar o desenrolar de outra Copa do mundo, a segunda do século, certame futebolístico paixão da maioria dos brasileiros, quiçá de muitas gente do outro lado do mundo.

Numa outra oportunidade escrevi um artigo intitulado “O dia em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo” (1950), publicada nas páginas do jornal Tribuna do Interior. Foi um episódio muito triste, provocando choro, desespero e até suicídio em face da derrota para o Uruguai.

Mas, aquela derrota teve o seu ponto positivo. Serviu de exemplo para que os nossos técnicos e jogadores empenhassem mais no cumprimento das tarefas do nosso futebol, a fim de evitar novos desastres, empanando o brilho desse mesmo futebol, reconhecido com justiça como o melhor do mundo.

E o empenho veio com bastante força, consertando o que de errado havia, tanto é que o Brasil, mostrando a qualidade incontestável dos seus craques, tornou-se campeão legítimo de outras Copas, sem que lhe fosse imputada qualquer crítica quanto aos resultados das partidas das quais participou.

Desacreditada na Copa de 2002, a nossa seleção partiu rumo ao Japão e a Coréia. O mesmo descrédito foi debitado à seleção da Alemanha. As torcidas não acreditavam que as duas seleções pudessem chegar a uma final. Mas o conjeturado não aconteceu, pois foram justamente as duas seleções alvo de críticas que chegaram, merecidamente, aos títulos de campeã e vice-campeã, respectivamente.

São coisas do futebol, esse esporte que arrebata multidões em todo o mundo, envolvendo até mesmo os menos aficionados quando se trata de Copa do Mundo, e que às vezes faz o torcedor sofrer e até morrer ante os resultados, positivos ou negativos.

Em futebol, especialmente tratando-se de Copa do Mundo, ninguém pode cristalizar a idéia de que a seleção tal Serpa a campeã, pois o favoritismo sem sempre prevalece. E a prova disso foi a amarga derrota da França, no seu primeiro jogo da Copa de 2002, para a desconhecida seleção do Senegal. Para complementar essa afirmativa basta citar o caso da Hungria na Copa de 1954, favorita absoluta do certame, com goleadas espetaculares, cujo ídolo, Puskas, era de fato e de direito considerado o melhor da equipe, perder a sua última partida. Nesse jogo, justamente contra a seleção da Alemanha, com o campo pesado pelas chuvas que caíram naquela oportunidade, depois de estar ganhando de dois a zero, a seleção húngara veio de ser batida inapelavelmente por três a dois pela rival Alemanha que se sagrou campeã. A mesma decepção sofremos nós brasileiros diante da seleção do Uruguai, na inauguração do Maracanã, em 1950, no jogo final depois de estarmos ganhando de um a zero, veio a decepção com a terrível derrota por dois a um, entregando o título para a seleção azul-celeste uruguaia, quando na verdade o empate no daria o título.

E foi talvez pensando nessas surpresas desagradáveis que o consagrado Felipão armou uma seleção para ser campeã. Com a sua personalidade forte, não se deixou influenciar por imposições contrárias ao seu modo de trabalhar e sentir as coisas. Inteligentemente, com o seu carisma, seu cavalheirismo e determinação, cognominou o seu plantel de “Família Scolari”, tratando a todos como seus filhos, transmitindo simpatia, humildade e amizade aos seus comandados, fazendo observações mais severas quando se fizeram necessárias, porém sem ferir o brio e a honra de qualquer dos jogadores. O resultado desse trabalho, como todos sabem, foi surpreendente e vitorioso.

Todos os brasileiros esperam que nessa Copa que se aproxima, o técnico encarregado dos trabalhos da equipe siga o exemplo de Scolari, que como treinador experiente que é, continua brilhando além-fronteira, ao classificar com méritos a seleção de Portugal.

(Publicado na edição 368, de 16/03/2006)