“Por que, em 1957, quando 116 mil americanos morreram numa pandemia, nada fechou?

Por Jeffrey Tucker *

O presidente americano Dwight D. Eisenhower, de pé em uma mesa, durante entrevista coletiva na Casa Branca, Washington, DC, 9 de outubro de 1957 (Foto: Biblioteca do Congresso Americano).

O novo filme de Elvis, “Prisioneiro do Rock”, estava lotando os cinemas. O último episódio da série “I Love Lucy” foi ao ar. O musical “West Side Story” (“Amor, Sublime Amor” no Brasil) foi montado em Washington, D.C., antes de estrear na Broadway em setembro. O novo carro da Ford, o Edsel, era produzido nas linhas de montagem. A Guerra Fria com a Rússia estava a toda e a frase “In God We Trust” [Em Deus confiamos] apareceu nas cédulas de dólar. A primeira loja da rede de brinquedos Toys R Us foi inaugurada.

Também naquele ano, a chamada Gripe Asiática matou 116 mil norte-americanos. Eis aqui um resumo do Center for Disease Control:

“Em fevereiro de 1957, um novo vírus da gripe A (H2N2) surgiu na Ásia Oriental, dando origem a uma pandemia. Esse vírus H2N2 era composto por três diferentes genes de um vírus H2N2 de origem aviária, incluindo os genes Hemaglutinina H2 e Neuraminidase N2. Ele foi notificado pela primeira vez em Singapura em fevereiro, em Hong Kong em abril e nas cidades litorâneas dos Estados Unidos no verão (junho a setembro) de 1957. Estima-se que a gripe tenha matado 1,1 milhão de pessoas no mundo todo e 116 mil nos Estados Unidos”.

Assim como a pandemia atual, havia um padrão demográfico nas mortes. Ela atingia sobretudo a população mais velha com doenças pulmonares e cardíacas. O vírus também era fatal para mulheres grávidas. A taxa de infecção foi provavelmente maior do que a da Gripe Espanhola de 1918 (na qual 675 mil norte-americanos morreram), o que diminuiu a taxa de letalidade da doença para 0,67%. Uma vacina surgiu no fim de 1957, mas enfrentou problemas de distribuição.

A população dos Estados Unidos na época era de 172 milhões de pessoas, pouco mais da metade da população atual. A expectativa de vida era de 69 anos, enquanto hoje é de 78. Mesmo com uma expectativa de vida menor, a população era mais saudável, com taxas menores de obesidade. Diante desses dados, podemos concluir que aquele vírus era pior do que o da Covid-19 até aqui.

O incrível é que, quando voltamos para aquele ano, nada foi fechado. Restaurantes, escolas, teatros, eventos esportivos, viagens – nada foi interrompido. Sem um noticiário de 24 horas e sem bilhões de sites loucos por tráfego, a maioria das pessoas não prestava atenção ao assunto e se restringia a manter a higiene. Na imprensa a gripe foi tratada como um caso de saúde. A ideia de que havia uma solução política para ela não passou pela cabeça de ninguém.

Mais uma vez, era uma gripe séria que persistiu durante 10 aos, até sofrer uma mutação e se transformar na Gripe de Hong Kong de 1968.

O jornal New York Times cobriu o assunto, mas sem grandes detalhes. Em 18 de setembro de 1957, um editorial aconselhava aos leitores: “Temos de manter a tranquilidade quanto à gripe asiática, já que as estatísticas quanto ao contágio da doença estão sendo obtidas. Resultados preliminares mostram que o vírus da gripe A de 1957 é inócuo e que antibióticos são realmente capazes de controlar as complicações que possam aparecer”.

Vamos levar anos, senão décadas, para desvendar por que tantos governos ao redor do mundo (mas nem todos) paralisaram a economia, prenderam as pessoas dentro de casa, destruíram empresas, disseminaram o desespero e ignoraram liberdades e direitos básicos. Seria o noticiário o que está gerando a histeria em massa? A ambição política e a arrogância? Uma diminuição da importância dada à liberdade como o melhor sistema para se lidar com crises? Provavelmente a resposta será parecida com a que os historiadores dão para a Primeira Guerra Mundial: foi uma tempestade perfeita que gerou uma calamidade que ninguém previa.

Por ficarem calmos e tratarem a terrível gripe asiática de 1957 como um problema de saúde a ser resolvido com inteligência médica, e não como uma desculpa para despertar a brutalidade ao estilo medieval, a primeira geração do pós-guerra merece nosso respeito e admiração.

(*) Jeffrey A. Tucker é diretor editorial do American Institute for Economic Research.

Fonte: Copyright © 2020, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados. Original em inglês