Coronavírus em MG: governo admite que não serão testadas todas as notificações

Dos registros da doença no Estado, menos de 12% passaram por exames para confirmar ou não a suspeita; Secretaria de Saúde alega que conta com mecanismos de controle para avaliar o real cenário.

Mesmo com a segunda maior população entre os Estados do país, os dados apontam que Minas Gerais é o 11º entre o número de casos confirmados de coronavírus e, quando são consideradas as mortes, só registra taxa de óbitos por 100 mil habitantes maior que a do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Porém, especialistas alertam que os boletins divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde (SES) podem não refletir a realidade da disseminação do vírus nas cidades mineiras – nesta mesma taxa por 100 mil habitantes, Minas está atrás de outros 21 Estados na testagem do vírus, incluindo Amapá, Espírito Santo, Bahia e Pará.

Com quase 110 mil notificações de supostos casos de Covid-19, menos de 12% passam por testes para detectar ou não a doença. De acordo com o último boletim (12 de maio / 9hs), desse total que teve a realização dos exames, cerca de 9,2 mil foram descartados e outros 3,1 mil confirmados, com 120 óbitos. Com um caso confirmado a cada três suspeitas até o momento, se todos os pacientes passassem pelo diagnóstico, o número de registros positivos poderia chegar a quase 38.000 – seguindo as estatísticas atuais.

A SES admitiu que não realiza exames em 100% dos casos notificados, porém alegou que ” possui mecanismos de controle capazes de avaliar o real cenário da doença”. Conforme a pasta, um dos principais é o acompanhamento diário dos registros. “Cada pessoa notificada por síndrome gripal, mesmo sem diagnóstico laboratorial, permite aos técnicos inferir o que está acontecendo. As notificações são marcadores sensíveis do que acontece”, informa.

Para identificar o vírus, o método mais confiável de exames é o PCR, que é laboratorial e pode levar até três dias para ser concluído. Segundo a secretaria, cinco situações passam pela testagem no Estado: amostras de Síndrome Gripal (SG) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que ainda incluem outras doenças como gripes e pneumonias, além de todos os casos de SRAG hospitalizados, profissionais de saúde sintomáticos, óbitos suspeitos e amostragem de, no mínimo, 10% dos casos nas localidades com surtos de SG.

‘Recomendação básica’

Para o professor do Departamento de Clínica Médica da UFMG, Mateus Westin, a testagem de todos os casos suspeitos é uma recomendação básica da Organização Mundial de Saúde que já deveria ter sido adotada há tempos. “O que acontece é que acaba notificando a Síndrome Respiratória Aguda, sem a realização dos testes. Isso explica o grande acúmulo [de casos não analisados] em Minas Gerais”, enfatiza.

Ainda conforme o especialista, essa situação faz com que as autoridades sanitárias não tenham um real panorama da proliferação do coronavírus e do número de pessoas infectadas. “Só fazemos o mapeamento da pandemia a partir de casos graves, o que é um evidente atraso. Eles começam a aparecer só depois que a circulação do Covid-19 já aumentou substancialmente entre os casos que não são graves”, explica.

Westin cita ainda o exemplo de Pelotas, no Rio Grande do Sul, que fez um inquérito sorológico para descobrir quais pessoas já tiveram contato com o coronavírus. “É importante saber por onde a doença circulou. Outras cidades já estão investindo nesse estudo”, finaliza.

Fonte e foto: O Tempo