Israel Pinheiro

Publicado na edição nº 780, de 16/04/2014.

Filho de João Pinheiro, um dos maiores governadores da história de Minas, Israel Pinheiro da Silva nasceu em Caeté, no dia 04 de janeiro de 1896. Cresceu influenciado pelas idéias progressistas do pai. Dos 10 aos 12 anos, enquanto João Pinheiro governou Minas Gerais, viu pela primeira vez, por dentro, como funcionava a máquina administrativa. Terminou os estudos interno em um colégio de padres jesuítas, em Nova Friburgo (RJ). Voltou a Minas para se formar engenheiro na Escola de Minas de Ouro Preto. Na condição de aluno mais brilhante da turma, ganhou o prêmio de uma viagem à Europa.

Formado, passou a dirigir a cerâmica da família, em Caeté, onde ajudou a instalar também a Usina de Ferro Genspacher, a Usina Gorceix e a Usina de Tubos Barbará. Ao mesmo tempo, atuava na política local, eleito vereador, indicado para a presidência da Câmara e nomeado agente executivo (equivalente a prefeito).

Com Olegário Maciel, em 1931, voltou a circular pelas entranhas da máquina governamental, escolhido para membro do Conselho Consultivo do estado, órgão de assessoria do Executivo. Presidia o Conselho, em 1933, quando o interventor Benedito Valadares o nomeou secretário da Agricultura, Comércio e Trabalho.

Na Secretaria, Israel Pinheiro pôde concretizar alguns projetos sonhados por seu pai. A implantação da Cidade Industrial, por exemplo, com o duplo objetivo de acelerar o desenvolvimento do Estado e evitar o êxodo de trabalhadores mineiros. Coube a Israel, ainda, realizar sonho paterno de instalar em Belo Horizonte uma Feira Permanente de Amostras, onde se tivesse uma idéia panorâmica de tudo que Minas produzia. Por mais de quarenta anos, essa feira funcionou num prédio que existia onde hoje funciona o terminal rodoviário de Belo Horizonte.

A operosidade de Israel Pinheiro impressionou o ditador Getúlio Vargas, que o convidou, em 1941, para integrar a comissão encarregada de discutir uma série de acordos econômicos com o governo norte-americano. Um dos resultados desses acordos foi a criação da Companhia Vale do Rio Doce, que Israel Pinheiro montou e presidiu até se eleger deputado federal, em 1946, pelo PSD de Benedito Valadares.

Na Câmara, chamou a atenção pela infinidade de projetos e emendas que apresentou, sempre voltados para as questões econômicas. Uma de suas maiores preocupações, já então, era a necessidade de interiorizar o desenvolvimento do Brasil. Para isso, considerava fundamental cumprir o preceito constitucional de transferir a capital brasileira para o Planalto Central. Chegou mesmo a apresentar emenda propondo a localização da nova capital, exatamente onde depois se ergueu Brasília.

Na surpreende, assim, que Juscelino Kubitschek o indicasse para presidir a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, Novacap, poucos meses depois de assumir a presidência da República, em 1956. Israel Pinheiro renunciou então ao seu segundo mandato de deputado federal e se entregou à tarefa com extraordinário vigor. Todos os que acompanharam as obras da Novacap testemunharam que, sem a ação de Israel Pinheiro, dificilmente Brasília teria ficado pronta tão depressa. Foi também o primeiro prfefeito de Brasília.

Deixou a nova Capital em 1061, desgostoso com as acusações de corrupção durante a construção de Brasília, Jânio Quadros era então o presidente da República, recém-eleito pela UDN numa campanha que cerrou artilharia contra a administração JK. Muitas das denúncias se concentravam nas obras de Brasília, prevendo-se que uma comissão de inquérito comprovaria graves casos de malversação. Empossado Jânio Quadros, instaurada a comissão de inquérito, feitas as investigações, nada se encontrou contra Israel Pinheiro.

Desagravado pelos resultados da comissão de inquérito, mas desgostoso, Israel Pinheiro deixou a política e foi tocar sua indústria, em Caeté. Já era um homem de 66 anos e teria terminado a vida como empresário, se o PSD não o convocasse para uma derradeira missão, em 1965. O candidato do partido ao governo estadual, Sebastião Paes de Almeida, fora vetado pelos militares então no poder. A eleição se aproximava, outros líderes pessedistas haviam sido cassados ou também descontentavam os militares, a última esperança era Israel Pinheiro.

Aceitou o desafio, apesar de já quase septuagenário. Venceu as eleições. Os militares, insatisfeitos também com a vitória pessedista de Negrão de Lima para o governo do Rio, responderam com o Ato Institucional n° 2, que extinguiu os antigos partidos e impôs o bipartidarismo. Mas Israel continuou um governador do PSD e pôde realizar um governo eficiente, apesar da adversidade das circunstâncias políticas.

Algumas de suas realizações como governador:

. criou o Centro de Processamento de Dados da Secretaria da Fazenda, tornando mais eficaz o cadastramento dos contribuintes e o controle das despesas;

. implantou uma política de incentivos fiscais para aumentar om parque industrial mineiro;

. implantou várias medidas para expansão da agricultura;

. fundiu os bancos Hipotecário e Mineiro, da fusão surgindo o Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge) como um dos mais poderosos do Brasil;

. expandiu a rede elétrica do estado;

. expandiu a rede rodoviária do Estado.

Por sua orientação, um grupo de economistas produziu em 1968 o Diagnóstico da Economia Mineira, que teve o duplo mérito de revelar a gravidade da situação em que Minas Gerais se encontrava e, ao mesmo tempo, estabeleceu prioridades para a busca de soluções. As informações do diagnóstico viriam a balizar as decisões dos governos seguintes.

Terminado o seu período de governo, Israel Pinheiro voltou à vida de empresário. Faleceu aos 77 anos, no dia 06 de julho de 1973, em Belo Horizonte.

CAUSOS

Logo após o Golpe Militar de 1964, José Maria de Alkmim telefonou fazendo comentários políticos. Benedito Valadares interrompeu:

– Fala baixo Alkmim, cuidado.

Alkmim respondeu irritado:

– Que você tenha medo de falar eu admito. Mas medo de ouvir…

Os militares no poder, pós-64, um repórter telefonou para Benedito Valadares. Queria que o senador se definisse sobre a nova direção da Arena, o partido do governo.

_ Meu filho, tenho muito prazer em lhe ouvir e nenhum em lhe falar.

No auge da crise dos sargentos, em setembro de 1963, o deputado Renato Azeredo telefonou para Benedito Valadares, então líder do governo no Senado, dizendo que havia vários mortos e que era preciso tomar alguma posição. Benedito esquivou-se:

– Mas Renato, eu não posso fazer nada agora, ainda estou dormindo. Telefona mais tarde, quando eu acordar.

Ensinamento de Benedito Valadares, como método infalível para nunca ser oposição, arte em que foi mestre:

– Nas horas graves, a gente tem de fingir de morto e ir ressuscitando devagarinho, sem ninguém notar.

No Senado, uma discussão braba entre o alagoano Silvestre Péricles e o presidente da Casa, o paulista Auro Moura Andrade. Perguntaram a Benedito Valadares o que ele faria, se Silvestre realmente voltasse ao Senado com um revólver .38, como prometia. Daria apoio a Auro?

– Minha solidariedade só vai até o ferimento leve.