Muito Doria e STF, pouco Lula e PT: por que o bolsonarismo parou de falar da esquerda?

Por Olavo Soares

Manifestante bolsonarista protesta em Brasília, dia 31 de maio: cartazes e faixas priorizam o STF e o Congresso e deixam a esquerda de lado. (Foto: Evaristo Sá/AFP)

Um “esquecimento” da esquerda como adversária política virou marca das manifestações pró-governo Jair Bolsonaro que ocorrem com frequência em capitais como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Os esquerdistas se transformaram em rivais de segundo plano.

A bronca dos bolsonaristas, que antes era direcionada principalmente à esquerda e a figuras como os ex-presidentes petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, agora deu lugar a figuras de direita tidas como “traidoras”. E também a integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e os presidentes de Câmara e Senado, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP). Cartazes e faixas contra os outros poderes são comuns nos atos de rua dos bolsonaristas.

Uma demonstração disso se verificou na manifestação de 10 de maio, em Brasília. Uma faixa exposta no ato continha os dizeres “tiro ao alvo”, e os participantes eram convidados a atirar balões com água em direção a fotos das pessoas ali retratadas. Os “homenageados” eram o ministro Alexandre de Moraes, do STF; Rodrigo Maia; o ex-ministro Sergio Moro; os governadores João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ); e a ex-líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-SP).

Doria, Witzel e Joice se elegeram em 2018 com discursos próximos ao de Bolsonaro, mas foram aos poucos se afastando do presidente da República. Os dois governadores figuram, hoje, entre as personalidades mais criticadas por Bolsonaro. Já a deputada discute quase que diariamente com os filhos do presidente pelas redes sociais.

Esquecimento da esquerda é “questão de prioridade”, dizem militantes

Os atos pró-Bolsonaro de 31 de maio em Brasília contaram com faixas com os dizeres “Fora Maia” e outros que pediam fechamento de STF e Congresso, e intervenção militar. Em São Paulo, mobilizações dos bolsonaristas em repúdio à gestão Doria já se tornaram rotineiras, especialmente durante a pandemia de coronavírus. E no Rio de Janeiro, o governo Witzel, envolvido em um inquérito que investiga corrupção, é cada vez mais alvo das críticas dos defensores de Bolsonaro.

Na internet, um grande foco do grupo é o Movimento Brasil Livre (MBL), que se identifica como conservador e que apoiou Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018, mas se distanciou do presidente. A hashtag “#derretembl” chegou a ser divulgada por bolsonaristas, para ironizar uma suposta diminuição de importância do movimento.

Apoiadores do presidente da República explicam que deixar a esquerda de lado, no momento, é uma questão de estratégia política. “O pior inimigo é aquele que já desfrutou da nossa intimidade. Muitos dos que nos traíram conviveram conosco, comeram na mesma mesa”, afirmou o militante Evandro Araújo, integrante do Movimento Conservador Brasília, em referência aos alvos atuais dos bolsonaristas. “Lula é uma figura importante da esquerda. Mas se apagou, por conta dos vários processos a que responde. Então falar dos outros nomes é uma questão de prioridade de momento”, acrescentou.

Também militante em Brasília, mas do grupo Frente Cidadã, Maciel Joaquim define Doria, Witzel e os outros citados nos protestos não como “adversários da direita, mas sim como pessoas que trabalham contra a nação”.

Já o STF é, para Maciel, “há muitos anos um problema para o país”. “Eles acham uma vírgula e um parágrafo e usam isso para impedir o presidente de governar. E agora, nos últimos casos, inventaram essas prisões arbitrárias”, afirmou, em referência ao inquérito das fake news, que visa apoiadores de Bolsonaro.

Mas o “já ganhou” contra a esquerda está descartado

O fato de o foco atual estar direcionado a outras figuras não torna a esquerda um adversário já superado, na opinião dos bolsonaristas. “O jogo contra a esquerda não está vencido. A esquerda montou sustentáculos em toda a sociedade que não tem como deixarmos de atacar”, afirmou Araújo.

Na mesma linha, Maciel acredita que as correntes políticas de esquerda perderam força popular, mas detêm condições de mostrar presença em outras esferas. “A esquerda hoje não tem mais força para uma mobilização de rua. Quando eles querem falar, colocam um artista, a mídia, um advogado para falar em nome deles. Mas o que nós fizemos não tem mais volta. Eles só voltam ao poder por meio de um golpe”, diz.

Não foi o que se viu na última semana. Protestos de grupos de oposição ao governo Bolsonaro, formados em sua maioria por ativistas de esquerda, se manifestaram em grande número em São Paulo, Curitiba e Manaus. Nas capitais paulista e paranaense, os atos descambaram para a violência e o vandalismo.

Direita quer coibir sangria e marcar posição “anti-establishment”

O cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, avalia que a movimentação atual dos bolsonaristas tem como objetivo desqualificar outras forças do campo da direita. “A principal tarefa é deslegitimar esses nomes que romperam com o bolsonarismo para evitar uma perda mais significativa dentro do mesmo campo. Ou seja, a primeira etapa do jogo político-eleitoral é vencer e conseguir um monopólio dentro do seu campo de atuação”, declarou.

Cortez também aponta que as ações de crítica ao STF e ao Congresso se encaixam em um discurso que Bolsonaro adotou durante sua trajetória política e que fez parte de sua plataforma de campanha em 2018, o de ser um representante da “anti-política”.

“O ataque ao baixo clero, e ao Maia e ao Alcolumbre, e de um certo sentido ao próprio STF, é uma contraposição que é da própria natureza do bolsonarismo. Que se reforçou à medida em que ele foi perdendo setores. Que é um posicionamento de ruptura com o status quo”, afirmou.

Em relação ao “esquecimento” da esquerda, Cortez avalia que os bolsonaristas fazem um cálculo de identificação de onde estariam os menores riscos. “Os poderes relevantes estão nas mãos de nomes da centro-direita, a esquerda não ocupa a presidência das casas [do Congresso], a esquerda não tem o poder de mobilizar a maioria necessária para fazer a interrupção do mandato [de Bolsonaro], enfim. Os riscos mais relevantes do curto prazo decorrem do comportamento de alguns atores da centro-direita que ou romperam com o bolsonarismo ou não se associaram lá atrás”, acrescentou.

“Acho bom que eles se engalfinhem”, diz deputada do PCdoB

Representantes da esquerda veem o “esquecimento” que o bolsonarismo deu a eles com indiferença. “Não estou preocupado com a maneira como eles nos veem. Estou preocupado com as milhares de mortes por coronavírus, com o desemprego em massa, com a miséria. E não com polarizar ou não”, afirmou o senador Paulo Paim (PT-RS).

A deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) também elencou que a prioridade da esquerda é “mostrar solidariedade com o povo durante a pandemia”, mas afirmou: “eu acho bom que eles se engalfinhem, enquanto a esquerda se organiza para obter o impeachment de Bolsonaro pelas vias democráticas”.

A parlamentar disse acreditar que parte dos ex-bolsonaristas tendem a se juntar às forças de esquerda nas mobilizações pelo afastamento do presidente da República.

Fonte: Gazeta do Povo