Montes Claros pode ter trocado doses de vacina contra a Covid

Profissionais da saúde que foram receber segunda dose no drive-thru teriam recebido imunizante da AstraZeneca no lugar da CoronaVac. (Foto: Fábio Marçal / Divulgação)

Trabalhadores da saúde em Montes Claros podem ter recebido a segunda dose de proteção contra a Covid-19 de um laboratório diferente da primeira imunização. A suspeita veio a público na semana passada (10) e gera revolta entre os profissionais, que acusam o município de falta de cuidado e atenção ao aplicar os imunizantes.

A possível troca de doses da CoronaVac por da AstraZeneca foi identificada depois que uma profissional de saúde verificou o cartão de vacinação e o registro apresentava marcas diferentes. Ela recebeu a primeira dose, ainda em janeiro, da CoronaVac, mas o registro da segunda dose foi feito como AstraZeneca.

“É muito grave o que está ocorrendo. Estão nos aplicando duas vacinas completamente diferentes uma da outra. Corre-se o risco de elas se interagirem ou se anularem e até causar um problema desconhecido, ou não causar nenhuma imunidade. Estou perplexa”, diz a servidora que teria constatado o erro.

O fato foi levado ao Sindicato dos Trabalhadores em Saúde de Montes Claros (Sind-Saúde), que busca esclarecer o que aconteceu. Para Michele Celeste, diretora da entidade representativa, a mudança do local de vacinação pode ter causado o equívoco. Inicialmente, esses profissionais estavam sendo vacinados nas unidades de saúde onde trabalham. Mas, para receber a segunda dose de proteção, foram convocados pelo município a comparecer ao drive-thru instalado no estacionamento do Montes Claros Shopping.

“Está uma desorganização. O fato de ter encaminhado os trabalhadores a outro local deu bagunça. Deveriam vacinar as pessoas no local de trabalho. Este trabalhador está preocupado e pode não estar imunizado, porque as vacinas têm eficácia diferente e os organismos de saúde são claros na indicação de que a pessoa tem que tomar as duas doses da mesma vacina. É uma situação preocupante e irreversível, inclusive porque pode haver efeito colateral. Quando a gente vai receber a vacina, confia na responsabilidade de quem está aplicando”, diz Michele.

A diretora do sindicato informa que o próximo passo é reunir os trabalhadores e avaliar o que pode ser feito na esfera judicial. A diretora do Sind-Saúde ressaltou que, depois de manifestação de funcionários descontentes com a mudança de local, a secretaria justificou que o drive-thru poderia ser “mais uma opção para aqueles que não quiserem esperar a vacina no hospital. Mas não marcaram a data para esta vacinação. Ou seja, estão forçando os trabalhadores a buscarem o drive”, complementa.

Riscos desconhecidos

O infectologista Estevão Urbano, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, afirma que o fato denunciado em Montes Claros, se realmente for confirmado, é muito grave e não poderia ter acontecido, porque ninguém sabe o que isso pode acarretar. “É totalmente desconhecido, então, qualquer hipótese é desprovida de evidência científica”, ressalta.

De acordo com o médico, que integra o Comitê de Enfrentamento à Covid em Belo Horizonte, há dúvidas sobre a perda da eficácia do esquema vacinal. Será necessário avaliar se haverá necessidade de aplicar outra dose da CoronaVac e em quanto tempo.

“Isso terá que ser definido pelas autoridades locais de forma meio empírica, talvez com ajuda de órgãos estaduais e até do Ministério da Sáude para tomar essa decisão”, ressalta o especialista, que diz não haver informações científicas sobre aumento de efeitos colaterais, no caso de aplicação de doses de imunizantes de fabricantes diferentes.

“É uma situaçao tão inustiada que agora tem que ser pensado com calma quais as estratégias a serem feitas. Belo Horizonte está à disposição para ajudar. E essa situação vai ter que ser levada muito a sério para que nao seja repetida”, avalia o infectologista.

No setor de epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde as ligações não foram atendidas, mas há informação de que as denúncias sobre a troca de vacina foram recebidas e a situação seria apurada. A secretária de Saúde, Dulce Pimenta, não foi encontrada para falar sobre o assunto.

Fonte: Jornal Hoje em Dia / Por Márcia Vieira, de O Norte