SINTOMAS MONITORADOS

Oxímetro em casa: especialistas explicam quando usar e o que deve chamar atenção

Pessoas com Covid-19 devem ficar mais atentas aos sintomas, mas quem desejar aumentar o monitoramento pode fazer uso do oxímetro| Foto: Bigstock

Quando o novo coronavírus invade os pulmões, ele gera uma reação inflamatória que pode comprometer as trocas gasosas nas estruturas que ficam na ponta do órgão, os alvéolos pulmonares. Como consequência, a pessoa passa a sentir falta de ar ou dificuldade para respirar — que é um sinal de maior gravidade da Covid-19.

Não à toa, portanto, que o aparelho que calcula quanto de oxigênio o sangue está conseguindo enviar para o corpo [ou o nível de saturação de oxigênio] ganhou popularidade durante a pandemia. Trata-se do oxímetro de pulso.

Pequeno, indolor e fácil de usar no dedo ou no lóbulo da orelha, o oxímetro lança feixes de luz que passam pelo sangue e avaliam qual é a porcentagem de oxigênio que a corrente sanguínea está carregando. O valor ideal varia de acordo com a idade do paciente e com as doenças crônicas prévias.

Um idoso saudável, por exemplo, pode ter um nível de saturação de oxigênio de 95%. No caso de uma pessoa com uma doença respiratória crônica, como uma Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), pode chegar a 70% e estar normal, segundo estima Ilma Aparecida Paschoal, professora titular aposentada da disciplina de Pneumologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

“As pessoas que vão envelhecendo e vão ficando limitadas por outras doenças, elas podem ter uma discreta queda da saturação, abaixo do valor de 95%. Mas, se não tiverem grandes doenças pulmonares ou cardíacas crônicas, dificilmente cai de 93%”, detalha a pesquisadora.

Quando usar na Covid-19

No caso de uma doença respiratória aguda, como a Covid-19, valores de saturação que se mantenham abaixo dos 95% — e de forma consistente — merecem mais atenção.

“A nossa saturação de oxigênio varia ao longo do tempo. Enquanto eu converso, tenho um período de expiração mais prolongado que reduz um pouco a minha saturação. Se eu medir a oximetria agora, pode estar baixa e isso não significa algum problema”, explica Rafael Mendonça Rey dos Santos, médico de Família e Comunidade, mestre em Ciências da Saúde e professor da PUCPR.

De forma geral, segundo Santos, os valores são mais preocupantes quando, em diferentes momentos, apontarem uma redução sustentada. “Não tem um número certo de medições. O que pode ser feito é deixar o aparelho por cinco minutos para monitorar e repetir dali uma hora. Essa seria uma boa forma de identificar uma possível gravidade”, sugere.

A pesquisadora Ilma Paschoal lembra ainda que, justamente porque o valor do oxímetro oscila, é importante que o paciente aguarde por 20 segundos a cada medição e verifique no visor do equipamento qual número aparece mais vezes. “A saturação deve ser o número que aparecer mais vezes. Mas, antes de contar os 20 segundos, confirme se o batimento cardíaco está sendo percebido pelo oxímetro. Normalmente ele tem uma luz que começa vermelha e depois fica verde. A partir de então dá para observar os 20 segundos”, destaca.

Oxímetro na Covid-19 não é para todo mundo

Logo no início da pandemia, em abril de 2020, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia divulgou uma nota destacando que não indicava o uso domiciliar do oxímetro de pulso para todo mundo, apenas em casos que houver uma recomendação médica.

Essa orientação se baseava na falta de estudos científicos sobre esse monitoramento em pacientes com suspeita ou com diagnóstico confirmado para a Covid-19, e é uma indicação que se mantém, segundo explica o professor, Rafael dos Santos.

“A recomendação principal é que os sintomas do paciente sejam o norte principal [de atenção da pessoa com Covid-19]. Um dos motivos é a qualidade dos aparelhos, cuja acurácia nem sempre é boa. Outro motivo é que pode ser um gerador de ansiedade”, diz o especialista, citando a variação normal que temos na saturação de oxigênio ao longo do dia.

No dia 19 de fevereiro, a agência regulatória dos Estados Unidos, FDA, sigla em inglês, divulgou um alerta sobre a precisão dos oxímetros para a Covid-19. Segundo o órgão, alguns fatores prejudicavam a acurácia dos dados, como:

·         Temperatura da pele no momento da medição;

·         Pessoas com problemas de circulação;

·         Pigmentação da pele;

·         Grossura da pele;

·         Pessoas fumantes;

·         Uso de esmalte colorido.

“Se as extremidades [dedos] estão frias, isso pode prejudicar a avaliação da saturação. A recomendação é que se aqueça a mão. Existem outras condições, como uma pressão muito baixa, pessoa com anemia falciforme ou com um esmalte vermelho, marrom ou preto, isso absolutamente ‘bagunça’ tudo para ter uma medida confiável. Indivíduos com icterícia, que ficam com a pele amarelada pelo transbordamento da bile, também. É um método de triagem e, em boas mãos, com pessoas que sabem usar, é maravilhoso. Mas é preciso conhecer as limitações”, destaca a pesquisadora, Ilma Paschoal.

Oxímetro não é teste de diagnóstico

Avaliar a oxigenação do sangue e usar o resultado como diagnóstico para a Covid-19 não está correto, de acordo com Rafael dos Santos, médico de Família e Comunidade. “O oxímetro pode ter alguma validade para indicar a gravidade da Covid, mas não como rastreamento.”

No caso de sintomas respiratórios, o especialista relembra que deve-se manter todos os cuidados para evitar que a doença se espalhe, então manter o isolamento, a higienização adequada das mãos, ventilação dos ambientes e o uso da máscara.

Ainda que haja relatos de pessoas que tenham uma redução na saturação do oxigênio, mas que não percebem a perda, Santos indica que são casos mais pontuais, e não uma regra. “Alguns médicos recomendam o monitoramento da oxigenação em casa por esse motivo. Mas isso é exceção. O mais importante são os próprios sintomas que as pessoas apresentam, porque há quem tenha uma saturação normal e ainda assim fique mal pela doença. A saturação é importante, mas não é um fim em si mesma. Não é a única coisa que vamos levar em consideração para a gravidade da Covid-19”, explica.

Fonte: Gazeta do Povo – Por Amanda Milléo