“Chora Neném”: o drama de um trabalhador que estava sendo impedido de trabalhar por fiscais da municipalidade alemparaibana

Oberdan Garcia, diretor do MINI-CA$H, se solidariza com o ambulante impedido de trabalhar e adquire 210 picolés que foram distribuídos entre os funcionários da empresa.

Dalmo Duarte da Silva, o “Chora Neném”, com sua esposa Norma Sueli Goulart de Almeida, em sua residência, no bairro Jardim Paraíso.

Dalmo Duarte da Silva, 56 anos, nascido e criado no bairro Jardim Paraíso, casado com Norma Sueli Goulart de Almeida, tira sua sobrevivência vendendo picolés de casa em casa, percorrendo as ruas da Cidade Alta, apelido que a população dá ao conglomerado de bairros formado por Jardim Paraíso, Vila Caxias, Esplanada, Vila Santa Rita e Cantão. É um trabalho árduo, enfrentando sol e chuva, de segunda-feira a sábado, empurrando uma carrocinha repleta de picolés de vários sabores que lhe rendem R$ 0,80 cada um. Sua venda, nem sempre, atinge uma média entre 120/150 picolés diariamente.

Quando percorre as ruas, seu chamado é reconhecido por todos, principalmente pela criançada, até mesmo aquelas que estão com idade entre três e cinco anos. “Chora neném pra mamãe comprar!”, grita Dalmo com a força total de seus pulmões, que acabou lhe rendendo o apelido de “Chora Neném”.

Com a venda dos picolés Dalmo sustenta sua casa, adquire o pão de cada dia, paga os remédios que compra na farmácia, o alimento que adquire no supermercado, as contas de luz e água, enfim, as despesas de cada mês. Às vezes sobra um pouco, diz com orgulho do seu trabalho.

Semana passada, quando seguia por uma das ruas que formam o seu itinerário diário, “Chora Neném” foi abordado por dois fiscais da municipalidade alemparaibana que o advertiram e ameaçaram de tomar a carrocinha com tudo que estava no seu interior, alegando que ele não podia comercializar os picolés porque a cidade estava em lockdown. O único serviço autorizado era dellivery, teria dito um dos fiscais, ou seja, um trabalhador honesto estava sendo impedido de seu direito constitucional de ir e vir e também trabalhar, valendo ressaltar que a Constituição, também apelidada de Carta Magna, a lei maior que existe no país, garante esses direitos de todo cidadão.

Dalmo tentou argumentar de todas as formas sobre o seu direito de trabalhar, e os fiscais continuavam irredutíveis na missão que lhes teria sido ordenada. Ou parava de trabalhar, ou sua carrocinha e seus picolés seriam confiscados! Daí, nada mais restou para Dalmo fazer: parou a venda dos picolés e postou uma mensagem no WhatsApp que acabou viralizando por toda cidade, com o povo tecendo críticas e mais críticas ao prefeito e os membros da administração municipal.

A partir daí, Dalmo começou a receber várias mensagens de solidariedade, com pessoas oferecendo dinheiro, alimentos, etc., que ele agradecia e respondia que a sua necessidade era trabalhar, e que era do seu trabalho que tirava o seu sustento e o da sua família.

Em dado momento, Dalmo recebeu uma ligação, supostamente de um empresário alemparaibano que queria comprar picolés, o que coubesse dentro de seu carrinho. Informando que cabiam até 210 picolés no carrinho, Dalmo foi informado que levasse imediatamente os 210 picolés até o MINI-CA$H, e que procurasse Oberdan Garcia, diretor daquela empresa localizada na Ilha do Lazareto. Dalmo, que até aquele momento não sabia que estava conversando com o jovem empresário, ficou boquiaberto e quase sem palavras ao saber que, sensibilizado com o que estava acontecendo um trabalhador, o jovem empresário lhe comprava naquele momento picolés que seriam distribuídos entre os funcionários do mais novo empreendimento alemparaibano.

Pouco tempo depois, Dalmo chegava até o MINI-CA$H empurrando seu carrinho, onde Oberdan e funcionários da empresa o aguardavam. Dalmo revelou que, enquanto distribuia os picolés lágrimas escorriam em seu rosto, e ao mesmo tempo com a voz embargada agradecia àqueles que o cercavam, em especial ao jovem empresário que, num gesto único, mostrou que duas coisas são importantes na vida de todo cidadão: a solidariedade e o direiro ao trabalho.

Um click do “Chora Neném” no interior do MINI-CA$H, com os funcionários daquela empresa que lhe comprou 210 picolés.

Não se sabe qual o tempo, se horas depois ou no dia seguinte, a municipalidade alemparaibana informou que o ocorrido havia sido um mal entendido, um engano cometido por parte dos fiscais, e que Dalmo Duarte da Silva, o “Chora Neném”, podia voltar a vender seus picolés como sempre fez.

Abaixo, a mensagem onde Dalmo Duarte da Silva relatava o que estava acontecendo, bem como uma de agradecimento ao empresário Oberdan Garcia, e outras, de clientes, entre estes duas crianças, dirigidas a um homem digno, honrado e trabalhador que apenas queria ter garantido o seu direito constitucional de ir e vir, de trabalhar e ganhar o seu pão de cada dia.