Artistas cubanos alçam a voz contra a ditadura em seu país pela primeira vez

Grafitti em prédio de Havana, capital de Cuba, 20 de julho. Manifestantes cubanos estão sendo julgados sem direito ao devido processo, denuncia ONG| Foto: EFE/ Ernesto Mastrascusa/ Gazeta do Povo

Jovens e artistas cubanos estão à frente das mobilizações contra a ditadura castrista que irromperam em protestos por toda a ilha no dia 11 de julho. Eles fazem parte de uma geração que não se identifica com a revolução de seis décadas atrás e que cresceu em um período em que a miséria é ainda maior no país, que desde o fim da União Soviética não recebe mais o apoio do bloco que permitia manter níveis sociais mínimos na ilha. Ainda, essa é a primeira geração conectada à internet, instalada em Cuba apenas no final de 2018, e que permite agora que os cubanos conheçam a realidade de seu país para além da censura do Partido Comunista.

Um dos símbolos das marchas é a canção Patria y Vida, lançada em fevereiro por um grupo de artistas cubanos de reggaeton e hip hop, alguns deles exilados nos EUA e outros que continuam no país caribenho. O hit viralizou rapidamente pelas redes sociais em Cuba e inspirou os manifestantes, que entoaram trechos da canção durante os protestos.

“Chega de mentiras. Meu povo pede liberdade, chega de doutrinas”, dizem os versos da música, que incomodou a ditadura. Após o seu lançamento, a imprensa estatal cubana dedicou páginas de críticas contra o hit e autoridades descreveram os autores como “ratos” e “mercenários”. Em tentativa de reverter os efeitos da popularidade da música, o ditador Miguel Díaz-Canel convocou a população a manifestar-se em favor da revolução cubana.

Os compositores de Patria y Vida são ligados ao Movimento San Isidro, um movimento que reúne artistas independentes em Cuba que protestam contra uma lei da ditadura assinada em 2018 que proíbe qualquer manifestação artística, pública ou privada, sem aprovação prévia do Ministério da Cultura. A perseguição aos artistas desse grupo serviu como catalisador para as atuais mobilizações.

O artista visual Luis Manuel Otero Alcántara passou um mês internado em um hospital contra a sua vontade após uma greve de fome feita em protesto contra a perseguição e a destruição de suas obras pela ditadura. Ele está atualmente preso, acusado de supostos atos de atentado, resistência e desordem pública, e teria sido transferido para uma prisão de segurança máxima há uma semana, de acordo com denúncia da Anistia Internacional.

As demonstrações contrárias à ditadura por parte de artistas cubanos que vivem na ilha são raras, já que eles correm o risco de serem repreendidos pelo regime. Mas a escala dos protestos de 11 de julho fez com que vários deles se expressassem publicamente em apoio aos cidadãos que tomaram as ruas pedindo por liberdade.

O grupo musical Los Van Van, um dos mais populares da ilha caribenha, afirmou em seu Facebook: “Apoiamos os milhares de cubanos que reivindicam seus direitos, eles precisam ser ouvidos”.

A banda de salsa Elito Revé y su Charangón também prestou apoio aos manifestantes. “Que dor, que tristeza ver o abuso de poder das forças de ordem cubanas, ver como atacam pessoas comuns e pacíficas”, disseram os músicos em redes sociais.

Yomil, cantor integrante da dupla Yomil y El Dany, participou dos protestos de rua e chegou a ser detido por várias horas. “Os cubanos precisam ter um governo mais humilde e menos egoísta”, afirmou o músico pelo Twitter. Ele transmitiu ao vivo pelo Facebook o momento em que foi detido pela polícia em 11 de julho.

O cantor cubano Silvio Rodríguez, um conhecido defensor dos ideais de Fidel Castro e aliado do regime, surpreendeu ao defender publicamente que os manifestantes presos que não cometeram atos de violência sejam libertados.

“Não sei quantos presos existem agora, eles dizem que são centenas. Peço [a liberdade] para os que não foram violentos”, disse o cantor, que recebeu críticas de outros artistas por sua defesa apenas de uma anistia “parcial”.

Rodríguez, de 74 anos, fez as declarações em seu blog após um encontro com dois artistas, um dos quais havia sido detido nas manifestações. O cantor disse que foi “doloroso” ouvir que os mais jovens não se sentem parte do processo revolucionário, mas sim “de outra coisa”.

Um exemplo desse conflito de gerações está na própria família do cantor; o seu filho Silvito Liam Rodríguez Varona, um rapper de 39 anos conhecido como Silvito El Libre, lançou uma música chamada “Pesadilla” (Pesadelo) em que defende o fim do regime comunista.

O rapper, que vive na Flórida desde 2018, desafia a ditadura em sua canção: “Eles são a gangue que está controlando a maior das Antilhas, não vão afrouxar nem largar a cadeira, impõem muito medo, muitas intimações, muito presidente, poucas eleições, muitos assassinos sem justificativa e muitos inocentes em casas de papelão”.

Artistas cubanos que vivem fora da ilha têm mais liberdade para criticar o regime abertamente e muitos deles têm denunciado a repressão na ilha. É o caso da cantora de origem cubana Camila Cabello, que vive nos EUA, que também se expressou a favor dos manifestantes cubanos, dizendo que o levantamento popular foi “o maior protesto desde o início da ditadura”.

Filha de mãe cubana e pai mexicano, a cantora falou em entrevista pela primeira vez sobre a crise enfrentada pelos cubanos. “Minha mãe chora todos os dias vendo o que está acontecendo. Os ativistas e os que estão protestando foram desaparecidos, colocados na prisão e abusados fisicamente depois de protestar”, contou a estrela pop.

Camila Cabello mandou uma mensagem aos cubanos e às pessoas que podem usar a sua voz em apoio às manifestações: “O mais importante que podemos fazer agora é falar sobre #SOSCuba, chamar atenção, criar consciência para que as pessoas jovens que estão protestando em Cuba, arriscando sua vida, saibam que não estão sozinhas, e que o resto do mundo está vendo como este governo está tratando o seu povo”.

Libertad

Nesta semana, estreou a canção “Libertad”, interpretada pelos jovens artistas cubanos Yailenys Pérez e Joncien. O tema é de autoria do produtor cubano-americano Emilio Estefan, em parceria com a Fundação para os Direitos Humanos em Cuba (FHRC), que tem sede nos EUA.

A organização disse que a canção surgiu “como resultado da comoção internacional gerada pela greve realizada por membros do Movimento San Isidro e ativistas de direitos humanos na ilha, em dezembro de 2020; um elemento fundamental do catalisador que gerou a histórica erupção social de 11 de julho em grande parte de Cuba”.

Os compositores esperam que a canção se torne um hino para a luta dos cubanos e um chamado à comunidade internacional contra a repressão da ditadura.

Fonte: Gazeta do Povo