domingo, junho 23, 2024
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PL ganha filiados em Minas; PT perde, mas ainda é 2º no ranking

Embora ainda liderem lista, partidos tradicionais tiveram redução de filiações desde 2020.

Desde as últimas eleições municipais, em 2020, partidos tradicionais têm perdido espaço em Minas Gerais para legendas que têm como bandeira pautas mais identitárias. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral levantados por O TEMPO, nos últimos quatro anos, apenas o PL e o PSOL registraram crescimento significativo no número de filiados no Estado, enquanto legendas como PT, PSDB e MDB reduziram suas bases, embora ainda liderem o ranking de filiações.

O número de filiados, embora não seja o único critério determinante em um contexto eleitoral, destaca-se como um indicador importante para medir a popularidade e o nível de engajamento de um partido político. De acordo com o cientista político e professor da UFMG Camilo Aggio, a filiação reflete o envolvimento dos eleitores e a participação em debates públicos, dentro e fora das plataformas digitais.

“O número de filiados pode ser um bom indicativo do quão bem-sucedido ou malsucedido um partido está sendo no jogo político eleitoral. A filiação nos permite concluir que as pessoas estão mais engajadas com relação ao que aquele partido representa e certamente mais engajado em candidaturas relacionadas a determinado partido. Isso significa, portanto, não apenas fazer propaganda, mas se envolver em debates públicos, principalmente hoje, nos meios digitais, e assim ajudar a alavancar certas candidaturas”, explica Aggio.

Em um período de quatro anos, o Partido Liberal (PL) viu um aumento significativo em sua base de filiados, somando um total de 95.236 membros e alcançando a posição de oitavo maior partido no Estado. Já o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) ocupa a 22ª posição, contando com 10.922 filiados. Apesar de sua posição no ranking, foi a legenda que mais atraiu novos filiados desde 2020: 2.722.

O MDB lidera o ranking com o maior número de filiados no Estado, mesmo sendo o partido que mais perdeu membros desde as últimas eleições. O partido de centro registrou uma queda de mais de 13 mil filiados desde 2020, totalizando 185.644 até dezembro do ano passado.

Em segundo lugar está o PT, com 164.145 filiados, cerca de 5.500 a menos do que há quatro anos. A recém-criada sigla PRD, resultante da fusão entre o Patriota e o PTB em dezembro de 2023, ocupa a terceira posição no Estado, contando com 149.987 filiados. Logo em seguida, vem o PSDB, que perdeu 8.956 filiados desde 2020, totalizando 137.237 membros em Minas Gerais.

Eleitorado busca maior identificação com legendas

O cientista político Camilo Aggio explica que as mudanças nas filiações partidárias desde 2020 demonstraram que o eleitorado tem se engajado com pautas mais identitárias, abandonado o discurso dos partidos mais tradicionais, que teriam “falhado” em seus governos anteriores.

No caso do PT, Aggio acredita que há um ressentimento no Estado pelo partido, que não teve uma avaliação positiva nas suas últimas administrações. É nesse momento que o PSOL consegue angariar novos filiados na esquerda. “O PSOL se beneficiou de um movimento de mudança muito expressiva na agenda de esquerda atual. São as questões identitárias que têm guiado muito mais os pensamentos, o identitarismo é uma desvinculação grande da agenda tradicional de esquerda, que era muito baseada em questões relativas a classes sociais”, avalia Aggio.

“Há agora uma concentração naquilo que se compreende como injustiças de determinados grupos sociais, como a população negra, LGBTQIA+ e indígena. É um indicativo de uma esquerda já não preocupada com questões de classe, mas sim com questões de identidades, questões relacionadas ao reconhecimento de certos grupos sociais ditos oprimidos, vulneráveis”, completa Aggio.

O presidente do PT em Minas, o deputado estadual Cristiano Silveira, não considera o cenário desfavorável e afirma que a legenda vem reconquistando mais espaços desde a eleição do presidente Lula: “Temos um número bem expressivo de filiados, que desde a soltura de Lula vem aumentando. Creio que deve ampliar com as eleições”, afirmou.

No campo da direita, o PL teria se beneficiado da redução no número de filiados do PSDB e MDB. Adeptos dessas legendas teriam se afastado do centro nos últimos anos e se aproximado de discursos mais conservadores.

“Muitas dessas posições que antes estavam ao centro e centro-direita, que tradicionalmente votaram no PSDB, acabaram se radicalizando e se encontrando no bolsonarismo e na extrema direita. E, aí, nesse sentido, se encontraram no PL. A extrema direita brasileira encontrou no PL um abrigo para construir uma identidade oficialmente partidária”.

O deputado federal Domingos Sávio, presidente do PL estadual, confirma a expectativa de aumentar o número de filiados em Minas Gerais, destacando que o partido busca pessoas alinhadas com pautas conservadoras e que apoiaram as candidaturas recentes da legenda.

Prefeito muda de sigla para manter chapa

 A polarização nacional entre PT e PL pode ter consequências inesperadas em nível municipal. É o caso, por exemplo, de Turmalina (Jequitinhonha), onde os dois partidos venceram juntos a disputa em 2020. Na cabeça de chapa, o prefeito Zilmar Pinheiro Lopes (PL), e, como vice-prefeito, o petista Warlen Francisco da Silva. Para proteger a chapa de um racha provocado pela disputa nacional, o prefeito Zilmar deve buscar uma nova legenda.

“Nós fizemos um bom trabalho juntos, temos um bom diálogo e estamos trabalhando para a reeleição”, destaca Zilmar. Ele diz que ainda está negociando seu futuro, mas que hoje está próximo de um acordo com o PSD, do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. “Temos feito muitas obras e entregas à população, numa parceria com os governos federal e estadual, e pretendemos manter essas parcerias”, diz o prefeito.

Essa situação é explicada pelas características próprias de uma eleição municipal, segundo o professor e cientista político Adriano Cerqueira. “Numa eleição municipal, o eleitor se orienta principalmente pelo conhecimento pessoal que tem do candidato, por uma fidelidade a algum político da região. Tem as relações pessoais e familiares, que são fortes no município”, explica.

Fonte: Jornal O Tempo – Por Mariana Cavalcanti