OPNIÃO: CPI da gororoba

Por Luís Ernesto Lacombe

Cotado para presidir a CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL) é pai do governador de Alagoas. | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Tenho essas letras aqui. Não é muito, eu sei. Vou encaixando as palavras e as consumindo, como se fossem um antiácido, enquanto a CPI da Covid se aproxima. É uma ilusão passageira essa, de que será possível não ter embrulhos, engulhos, de que haverá como proteger o estômago, o coração. Os ouvidos serão feridos e os nervos serão sacudidos pela voz estridente dos que defendem o que não deu certo em lugar nenhum do mundo, em época nenhuma. Eles falarão, falarão… Já estão falando por aí, já sabem de tudo, já sabem de cor até o relatório final da CPI.

Não importa se o total de inquéritos, investigações e processos envolvendo alguns integrantes da comissão parlamentar seja um número estrondoso, contundente, capaz de provocar enjoos. Os nobres senadores apontam o culpado, com os dedos borrados de tinta. É a democracia, estúpido. E a acidez aumenta, com os papais senadores protegendo os filhinhos governadores…

A CPI é uma gororoba, é inoportuna, feita por e para oportunistas. Seus interesses vêm sempre à frente. E o país vai quebrando, afundado em dívidas, em insolvência, em pobreza

Está na cara que, numa CPI assim, serão raros os olhares para estados e municípios. Mesmo que haja centenas de apurações já em andamento, que haja uma coleção de erros e irregularidades envolvendo governadores e prefeitos. Vem do fígado de alguns senadores da comissão a conclusão antecipada. Genocida! Erro. Omissão. Faltou coordenação nacional no combate à Covid. Faltou união, dizem os que sempre dividiram, os que só pensam em derrubar o presidente da República.

Trabalha também nisso o STF, que afirma que não tirou os poderes do governo federal no combate à pandemia, apenas deu autonomia a governadores e prefeitos… Isso não me desce pela goela. Se descesse, voltaria em refluxos, em caldo azedo, bem diante dos que se deliciam com a desonestidade, com as narrativas. Suas virtudes são todas falsas. Não lhes pertencem a bondade, a fraternidade, a solidariedade. Querem a tragédia! Não salvaram, não salvam e não salvarão ninguém. Muito pelo contrário. Tudo o que importa para eles é a guerra política.

Quem precisa de CPI? Quem precisa de CPI neste momento? Ela é uma gororoba, é inoportuna, feita por e para oportunistas. Eles têm pressa, não podem esperar. Seus interesses vêm sempre à frente. Disfarçados ou escancarados. Mandam parar o rito das reformas, concentração total no combate à Covid… Há quem acredite, quem finja não ver a politicagem. E o país vai quebrando, afundado em dívidas, em insolvência, em pobreza. As falsas dicotomias vão pondo tudo a perder.

Para salvar vidas de verdade, não precisamos atirar ninguém para a pobreza, o pânico, a depressão, um mundo de problemas e doenças. Não podemos parar o país. Há um governo e há uma agenda de reformas que precisa andar. Há uma gangue de sabotagem ao governo que precisa entender o momento delicado, que precisa pensar no Brasil. A agenda de reformas é fundamental para que vidas sejam salvas, agora e futuramente. Ela é muito mais importante do que qualquer CPI. Impedir ou atrasar seu andamento é uma sabotagem ao país. Ela precisa avançar, ou ainda vamos conviver por muito tempo com essa estranha sensação de enjoo e de morte que a fome provoca.

(*) Luiz Ernesto Lacombe é jornalista e colunista na Gazeta do Povo

Fonte: Gazeta do Povo