ELEIÇÕES 2022

Baixa adesão a atos contra Bolsonaro é “balde de água fria” para 3.ª via, dizem analistas

Por Isabella Mayer de Moura

As manifestações de 12 de setembro tiveram um público abaixo das realizadas no dia 07 de setembro.

A baixa adesão popular aos protestos contra o presidente Jair Bolsonaro no domingo (12) demonstrou que, neste momento, a chamada terceira via não está sendo capaz de mobilizar parte expressiva do eleitorado, segundo consultores políticos ouvidos pela Gazeta do Povo.

Organizados pelo Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua e Livres, os atos pelo impeachment do Bolsonaro ficaram aquém da expectativa de público, mesmo com a participação de políticos de direita, centro e esquerda, inclusive dos presidenciáveis Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB), Eduardo Leite (PSDB) Luiz Henrique Mandetta (DEM), Simone Tebet (MDB) e Alessandro Vieira (Cidadania).

Vários motivos foram citados para explicar a baixa adesão: a divisão da oposição ao governo, explicitada pela ausência do PT nos protestos; a resistência entre eleitores da esquerda em participar de um ato convocado pelo MBL (que organizou manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff); a resistência de eleitores da direita de ir a um ato em que expoentes da esquerda, como Ciro Gomes, iriam participar; o recuo do presidente Jair Bolsonaro na crise entre Executivo e Supremo Tribunal Federal (STF); e a perda do poder de mobilização do MBL. Também influenciou o curto prazo em que a pauta dos protestos mudou de “Nem Bolsonaro, Nem Lula” para “Fora Bolsonaro”.

“Falta nome que personifique a 3.ª via”

Mesmo o mote dos protestos sendo o impeachment de Bolsonaro, os especialistas também expuseram as dificuldades de articulação para uma candidatura alternativa a Bolsonaro e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais do próximo ano.

“[A baixa adesão aos protestos do dia 12] foi um balde de água fria para a terceira via”, diz Lucas Fernandes, analista da consultoria política BMJ. “A chance de viabilizá-la parece ser muito diminuta, se esse cenário de hegemonia entre Lula e Bolsonaro se mantiver.”

O principal fator apontado pelos analistas é de que falta um nome que centralize e personifique a terceira via. “As pessoas não vão se sentir motivadas a sair para protestar se não identificarem a que ou a quem estão se juntando”, avalia Jorge Ramos Mizael, CEO da consultoria Metapolítica, explicando que paixões personalistas costumam motivar as pessoas a saírem às ruas para protestar e que também são importantes na hora do voto.

O vice-presidente da Arko Advice, Cristiano Noronha, concorda com esse ponto de vista.  “Grande parte dessa baixa aderência é o fato de não haver uma liderança capaz de unificar o sentimento antigoverno”, diz.

Tanto Noronha como Mizael argumentam que os políticos que não querem ver nem Lula e nem Bolsonaro chegarem ao segundo turno da eleição presidencial de 2022 precisam se articular rapidamente. “Quanto mais tempo sem conversar, mais a polarização vai ganhar força. Eles precisam sentar e rapidamente direcionar todas as forças para um rosto que possa unificar”, afirma Mizael.

Contudo, as chances de que isso realmente venha a acontecer são, por ora, remotas. Conforme lembrou Noronha, os presidenciáveis da terceira via, neste momento, estão trabalhando individualmente. O PSDB, por exemplo, está olhando internamente, para as prévias que vai escolher o seu candidato a presidente (estão na disputa João Doria e Eduardo Leite). Ciro Gomes, por sua vez, está trabalhando para construir sua imagem como candidato. E, neste momento, é difícil imaginar que eles estejam do mesmo lado em uma disputa para o primeiro turno.

“Não vamos ter uma candidatura única da terceira via”, conclui Fernandes. “Alguns nomes vão se colocar na disputa e isso dificulta muito a sua viabilidade. Estamos caminhando para um cenário muito parecido com o de 2018”.

Atos são linha de partida e não de chegada, diz Livres

Os organizadores dos atos, porém, entendem que uma avaliação sobre a viabilidade da terceira via ainda é precipitada. “Não vemos as manifestações de ontem como um fim, como uma linha de chegada, e sim como uma linha de largada”, disse Magno Karl, diretor-executivo do Livres.

Salientando que os protestos de ontem tinham como objetivo reunir pessoas contra “políticas, declarações e atitudes” do presidente Jair Boslonaro, Karl acrescentou que os atos do dia 12 “deram a partida” para “uma construção política que poderá vir a ser uma alternativa” à polarização entre Lula e Bolsonaro. “Até 2022 ainda temos muito tempo para construir alternativas”.

Fonte: Gazeta do Povo