Policial Militar de MG negro que diz ter sido agredido ao passear com filha branca é processado

De acordo com o policial, ele foi alvo de agressões e sofreu abordagem racista de outros policiais enquanto passeava com sua filha de quatro anos nas proximidades de casa.

O policial Anderson César e sua filha. (Foto: Arquivo Pessoal)

O policial militar Anderson César da Silva, 32, afirma ter sido alvo de agressões e de ter sofrido uma abordagem racista de outros policiais em Barbacena (MG). O fato teria ocorrido quando ele, que é negro, passeava com sua filha de quatro anos, que é branca, nas proximidades de sua casa na cidade.

Apesar do relato do policial, a Justiça Militar do estado acolheu uma denúncia do promotor Fabiano Ferreira Furlan contra Anderson pelos crimes de desobediência, desacato a superior, ameaça, resistência mediante ameaça ou violência e lesão corporal de natureza leve.

O Ministério Público e a Polícia Militar afirmaram que estão investigando os policiais envolvidos na ação contra Anderson.

O caso aconteceu na tarde de 14 de janeiro, quando ele levou sua filha para uma trilha próximo da casa deles. “Eu estava no último dia das minhas férias e fui assar uns marshmallows com a minha filha em uma mata aqui perto. Um cidadão ligou para a polícia falando que tinha um homem negro entrando com uma criança na mata e essa guarnição chegou”, conta Anderson.

Segundo ele, três policiais militares chegaram ao local apontando armas para os dois. Mesmo após ele explicar que a menina era sua filha, que estavam fazendo um piquenique e mostrar seu registro de militar, a abordagem agressiva continuou.

“Eles não baixaram as armas, eu falei que era pai da menina e ela estava chorando muito. Eles continuaram com a arma apontada, a gente saiu da mata e eles sempre atrás de mim, parecia que eu tinha sequestrado a minha filha.”

Anderson diz que, ao saírem da trilha, teve sua paternidade questionada com um argumento racista.

Ele disse que tentou pegar seu celular para filmar a ação, mas foi impedido pelos policiais. “Eu tentei segurar meu celular, um outro policial me deu um mata-leão, me jogou no chão e nisso eu não vi mais nada. Parecia que tinha muito peso em cima de mim, eu só tentava respirar”, diz ele.

Ainda de acordo com Anderson, os militares dispararam 11 vezes contra o seu cachorro, que tinha atacado os policiais para defender o dono.

Segundo ele, o animal foi atingido por quatro tiros, mas conseguiu fugir.

Anderson teve ferimentos nos joelhos, nos braços, na cabeça e na boca, chegando a perder um dente.

Após a ação, o policial ficou preso por três semanas no 9° Batalhão de Polícia Militar em Barbacena. Sua filha realizou exames que atestaram que não houve abuso sexual – na época, circularam boatos nas redes sociais e na imprensa local com acusações contra Anderson, mas nenhuma prova foi apresentada.

Dias após o ocorrido, a filha do policial passou a fazer acompanhamento psicológico. De acordo com o laudo da profissional responsável, a criança ficou mais sensível e agressiva, passou a chorar muito e a urinar na cama. A psicóloga também constatou um bom relacionamento entre pai e filha.

Segundo a versão dos militares Leonardo Carmo, Adriel Dantas e Daniel Queiroz, que consta na denúncia oferecida pelo Ministério Público, Anderson teria desobedecido a ordem da autoridade legal, desacatado superiores e os ameaçado com palavras.

Além disso, os PMs afirmam que Anderson teria resistido à ordem de prisão com violência e instigado seu cão contra os militares, o que causou lesões corporais leves. O animal só se afastou do local após ser atingido por um dos disparos dos policiais.

O Ministério Público informou que a 9ª Promotoria de Justiça de Barbacena solicitou, no dia 1º de outubro, a instauração de relatório de investigação preliminar ao 9º Batalhão de Polícia Militar de Barbacena.

Por meio de nota, o comando do 9º Batalhão de Polícia Militar confirmou que, após receber a solicitação do Ministério Público, instaurou um processo administrativo para apurar os fatos sobre a atuação dos militares. A investigação iniciou no dia 27 de outubro e tem um prazo de 30 dias para ser concluída.

“Se forem obtidos indícios de crime ou transgressão disciplinar por parte dos policiais militares investigados, as providências cabíveis serão adotadas, resguardando aos policiais militares o direito à ampla defesa e ao contraditório, tudo em conformidade com as normas da Polícia Militar”, diz a nota.

Fonte: O Tempo