OPINIÃO: Aborto, ideologia de gênero, parcerias com igrejas: o que Moro vai propor aos evangélicos

Por Renan Ramalho

No dia 7, Moro vai apresentar carta de compromissos ao segmento | Foto: Sérgio Lima/Podemos

A pré-campanha do ex-juiz Sergio Moro (Podemos) tem divulgado nas redes sua participação num evento em Fortaleza (CE), na próxima segunda-feira (7), em que firmará uma série de compromissos com evangélicos.

Até o fim desta semana, ele vai finalizar a redação de uma carta externando suas posições sobre diversos assuntos que interessam de perto aos cristãos: da oposição à ampliação das hipóteses permitidas de aborto à defesa da imunidade tributária das igrejas, passando também pela condenação à ideologia de gênero.

O plano inicial é que a carta tivesse 10 pontos. Mas já existe uma versão mais elaborada contendo 14 itens e alguns deles já têm circulado na imprensa. No evento do dia 7, Moro ainda exibirá um vídeo sobre a importância do segmento cristão para o desenvolvimento do Brasil, por meio de projetos sociais, pelos quais ele tem manifestado crescente interesse.

Para entender melhor o que o pré-candidato à Presidência da República quer com as igrejas evangélicas, a Gazeta do Povo conversou com o principal conselheiro de Moro junto ao segmento, o advogado Uziel Santana.

Moro quer democratizar parcerias com evangélicos na área social

Um dos principais pontos da carta será a proposição de uma parceria na área social. Moro quer fortalecer a colaboração do poder público para com organizações religiosas que possuem bons projetos nas áreas de educação, saúde e recuperação de viciados em drogas, por exemplo. Segundo Uziel, a ideia é ampliar essa rede e democratizar essas parcerias.

“Hoje, infelizmente apenas algumas grandes igrejas têm acesso a essa parceria com o poder público, só quando o pastor é amigo do governante”, diz o advogado. Merecerão apoio especial as comunidades terapêuticas, que acolhem pessoas viciadas em drogas em casas de recuperação, para um tratamento com abstinência total aliada à restauração espiritual.

Uziel diz que a colaboração nessa área não se dará necessariamente por aportes de dinheiro público, a não ser em situações excepcionais – no caso de um desastre, por exemplo, em que as organizações religiosas interessadas podem ser chamadas para auxiliar famílias desabrigadas.

“Mas a tônica aqui não é derramar recurso público. As próprias igrejas têm, dentro de sistemas internos, formas de cooperação e ofertas. Mas às vezes não têm autorização ou apoio do Exército para entrar em alguma área ou acessar comunidades ribeirinhas”, exemplifica.

A ideia de evitar a colaboração por meio de recursos públicos decorre da própria imunidade tributária de que já gozam igrejas e outras instituições religiosas. Moro vai se comprometer com esse direito, desde que elas cumpram com a finalidade social – a ressalva é que a imunidade não valerá para entidades que, apesar de promoverem atividades assistenciais no papel, na prática vendem produtos ligados à fé e enriquecem seus patronos. Estas serão tributadas pela Receita.

Moro e evangélicos: candidato vê igrejas como “agências” de cultura anticorrupção

Outro plano de Moro, segundo Uziel, é aproveitar a capilaridade das igrejas, presentes em praticamente qualquer comunidade no país, para que elas promovam uma cultura anticorrupção.

“Elas podem ser uma agência de transformação cultural, para que o combate à corrupção não seja só uma ação governamental, mas social, como parte da cultura, que exalte princípios de integridade, governança e prestação de contas”, diz o advogado.

Essa ideia condiz com a percepção de que o discurso anticorrupção tem o potencial de atrair parte considerável dos fiéis, em razão de uma compreensão mais ampla, que vê a corrupção como pecado que corrói não só a vida social, mas também o coração das pessoas.

“A ideia é que haja um pacto governamental com as organizações religiosas. Dizer assim: ‘Nós sabemos da importância de vocês e queremos ajuda para que a cultura de combate à corrupção seja algo presente na sociedade. Então, nos seus cultos, nas suas missas, nas suas encíclicas, nos seus estudos bíblicos, como sabemos que vocês combatem a corrupção como pecado, que isso seja também do dia a dia das igrejas”, disse Uziel.

Algo assim foi ensaiado no auge da Lava Jato, quando o ex-coordenador da força-tarefa da operação, o procurador Deltan Dallagnol, hoje pré-candidato a deputado federal pelo Podemos, rodou igrejas para pedir apoio às Dez Medidas de Combate à Corrupção, proposta que acabou rejeitada pelo Congresso.

O que Moro propõe sobre aborto, ideologia de gênero e liberdade religiosa

No evento com os evangélicos, Moro quer se apresentar como um “conservador equilibrado” e deixar claro que é contra a ampliação das hipóteses permitidas de aborto, contra a sexualização precoce de crianças e que defenderá a liberdade religiosa para todos os credos.

Em relação ao aborto, haverá um compromisso de não apoiar qualquer tentativa de descriminalizar ou abrir novas exceções que liberem a prática. Hoje, uma mulher pode abortar legalmente somente quando há risco de vida para ela, quando tenha sido vítima de estupro ou quando o feto tem anencefalia (neste último caso, a permissão foi dada pelo Supremo Tribunal Federal).

Os conselheiros de Moro sabem que, no movimento pró-vida e entre muitos evangélicos, há oposição mesmo essas hipóteses de aborto legalizado. Por isso, o pré-candidato não deve dizer que apoia o aborto nessas situações, mas vai reforçar que o importante é não abrir novas possibilidades.

Em relação às crianças, a posição é de combater qualquer tipo de exposição à sexualidade ou erotização precoce. “A ideia é que não vai haver promoção, por exemplo, de criança LGBT”, diz Uziel. Ainda não está claro como essa posição vai se concretizar nas ações de um eventual governo, mas a ideia é que ela esteja presente em políticas públicas na área de educação e cultura.

Por fim, Moro vem compreendendo a preocupação que fiéis e líderes evangélicos com a liberdade religiosa. É forte dentro das igrejas a percepção de que os valores cristãos vêm sendo paulatinamente desprezados e seus defensores, perseguidos.

Isso é mais evidente em tentativas ou ameaças de processar pastores que, com base na Bíblia, desaprovam a homossexualidade, considerando-a um pecado. Em relação a isso, a posição de Moro é reforçar a ressalva feita pelo STF no julgamento de 2019 que criminalizou a homofobia, equiparando-a ao racismo, mas deixando claro que pregações religiosas não poderão ser punidas nem consideradas discursos de ódio, em respeito à liberdade religiosa.

Mas, além disso, em um eventual governo, Moro quer ampliar a ideia de liberdade religiosa, de modo a tratá-la como um valor válido para todas as crenças. “Infelizmente o tipo de postura do governo Bolsonaro é mais de imposição da cosmovisão evangélica e isso também não é bom. Porque, quando mudar o governo, se for um governo que pense diferente, vai mudar tudo. Nossa ideia é fortalecer um direito constitucional que assiste a todos, para afastar o uso de uma religião para conveniência do governo que está no poder”, diz Uziel.

Apoio a Moro será individual dos pastores, e não das igrejas

Uma diretriz já aprovada pela campanha, e que também estará na carta a ser divulgada no dia 7, é que, até a eleição, Moro não pedirá apoio institucional das igrejas, mas sim o apoio individual de pastores e fiéis. Além disso, não haverá pedidos de votos e propaganda de candidatos aliados durante os cultos.

“Estamos estabelecendo uma espécie de ‘compliance’ eleitoral para os evangélicos. A gente não vai buscar um apoio institucional, porque são esferas independentes. Existem casos em que há indícios de corrupção, o político fecha com a igreja e dá algum tipo de benesse. Então esse toma-lá-dá-cá não faz parte do nosso padrão de integridade da campanha”, diz Uziel.

“Você pode ter liderança que considera o projeto, mas em nenhum momento a gente vai dizer assim: ‘Então pastor, determine que fiéis votem em mim’”, completa o advogado.

Moro terá bate-papos para chegar aos jovens evangélicos

Para ganhar os jovens fiéis, a campanha também vai investir em bate-papos com pastores e personalidades do mundo evangélico que têm força nas redes sociais.

Ontem, dia 3 de fevereiro, por exemplo, Moro participou de uma live com Yago Martins, pastor de Fortaleza famoso pelo canal Dois Dedos de Teologia, com quase 700 mil inscritos no YouTube, em que respondeu dúvidas de crentes sobre a visão protestante em relação a assuntos que causam polêmica: política, sexualidade, cultura, etc.

Depois, aconteceu um bate-papo ao vivo com evangélicos influentes que se decepcionaram com o governo Bolsonaro. Entre eles estavam os pastores Guilherme de Carvalho e Igor Miguel, da Igreja Esperança, de Belo Horizonte; o pastor Zé Bruno, da igreja Casa da Rocha, de São Paulo – ele também é fundador da banda de rock cristão Resgate; o escritor e ativista humanitário Igor Sabino; e também com a influenciadora digital Maria Fernanda.

Fonte: Gazeta do Povo