TRAGÉDIA DE PETRÓPOLIS – ÚLTIMAS INFORMAÇÕES (9h30min)

Número de corpos resgatados na tragédia de Petrópolis subiu para 104, segundo informações do início da manhã de hoje, quinta-feira (17)

Dezenas de casas foram arrastadas em deslizamento e não há informações sobre número de desaparecidos.

Incansáveis e buscando entender o tamanho da tragédia, voluntários trabalham arduamente na busca por sobreviventes – Foto G1.

Subiu para 104 o número de pessoas mortas por conta das chuvas em Petrópolis, segundo informações dadas no início da manhã desta quinta-feira (17) pela prefeitura local e pelo governo do Rio de Janeiro. A cidade, que fica na região serrana do estado, foi atingida por uma tempestade a tarde da última terça-feira (15).

Ainda não há informações sobre o número de pessoas desaparecidas. Até o início desta manhã, equipes de bombeiros e da Defesa Civil deslocados de vários municípios para Petrópolis resgataram 24 pessoas com vida.

A Prefeitura de Petrópolis decretou estado de calamidade pública e informou que as equipes dos hospitais foram reforçadas para o atendimento de vítimas. A Defesa Civil informou que ainda há previsão de chuva moderada a qualquer momento no município ao longo do dia.

A Prefeitura do Rio de Janeiro abriu dez pontos de coleta em Coordenadorias de Assistência Social (CAS) para receber doações da sociedade civil para as famílias atingidas pelas chuvas. No momento, os itens de maior necessidade são água, material de limpeza e de higiene pessoal.

Os dez pontos vão funcionar de segunda a sexta, das 8h às 17h. A lista completa com o endereço dos locais de doações pode ser acessada no link: https://assistenciasocial.prefeitura.rio/cas/.

Doações

Campanhas estão sendo organizadas para arrecadar doações para famílias desabrigadas. Uma delas, estruturada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e pela Caixa de Assistência da Advocacia (Caarj) está reunindo alimentos não-perecíveis, água mineral, roupas, colchonetes, produtos de higiene pessoal, máscaras, álcool em gel e produtos de limpeza.

As doações devem ser entregues na sede da Caarj, no Centro do Rio (avenida Marechal Câmara, 210) ou em qualquer das 63 subseções da OAB em todo o estado.

Outra mobilização está sendo organizada pelo Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis (CDDH). A campanha está recebendo doações de alimentos, cobertores, água potável, itens de higiene pessoal, itens de limpeza e roupas.

As doações podem ser feitas na sede do centro em Petrópolis (rua Monsenhor Bacelar, 400), ou através de transferência bancária (Banco do Brasil – Agência: 2885-1/ Conta: 127599-2/ CNPJ: 27.219.757/0001-27).

Outros locais espalhados pela cidade se tornaram pontos organizados pela prefeitura para receber doações e abrigar desalojados. São eles:

Centro de Educação Infantil Chiquinha Rolla;

Escola Estadual Augusto Meschick;

Escola Municipal Alto Independência;

Escola Municipal Ana Mohammad;

Escola Municipal Doutor Paula Buarque;

Escola Municipal Doutor Rubens de Castro Bomtempo;

Escola Municipal Duque de Caxias;

Escola Municipal Governador Marcello Alencar;

Escola Municipal Odette Fonseca;

Escola Municipal Papa João Paulo II;

Escola Municipal Rosalina Nicolay;

Escola Municipal Stefan Zweig;

Escola Paroquial da Igreja Bom Jesus;

Quadra do Boa Esperança Futebol Clube;

Salão Paroquial da Igreja São Paulo Apóstolo.

Calamidade

Dezenas de ruas e avenidas estão cobertas por água e lama. Em uma imagem da GloboNews é possível ver que a lama tomou conta de toda a parte térrea de uma casa e os socorristas caminhavam pela marquise do primeiro andar da residência. Uma imagem chocante.

Ao longo do temporal, pedras do tamanho de carros rolaram ladeira abaixo. Veículos, árvores e outros grandes objetos também foram arrastados pela força da água. Em entrevista ao Bom Dia Rio, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, disse que choveu em 6 horas o esperado para todo o mês de fevereiro. A prefeitura da cidade estima que 80 casas tenham sido atingidas.

“A situação é quase que de guerra. Vimos carros pendurado em poste. Carro virado de cabeça para baixo. Muita lama e muita água ainda”, descreveu o governador Cláudio Castro. Também em entrevista, o prefeito Rubens Bomtempo relatou – “Estamos passando por uma situação de extrema gravidade, e direcionamos todos os esforços para garantir o socorro da população”.

Uma tragédia anunciada

O Morro da Oficina literalmente desabou trazendo morte e destruição. Foto: Rede Social

A dimensão da catástrofe poderia ter sido evitada caso tivessem melhores condições de moradia e planejamento anterior ao desastre.

A defesa civil do estava decretando estado de atenção para a região todos os dias desde 07 de fevereiro e no dia 14 de fevereiro alertou para a possibilidade de deslizamento na região serrana e áreas densamente urbanizadas como os bairros atingidos em Petrópolis. Ou seja, um plano de evacuação, contingência e abrigos em áreas de menor risco poderia evitar que tantas vidas fossem perdidas. O prefeito, Rubens Bomtempo, ainda ontem decretou estado de calamidade pública e luto oficial de três dias no município.

Na última atualização da defesa civil na manhã de hoje (17), 24 pessoas foram resgatadas com vida e confirmadas 104 mortes, o número de desaparecidos ainda não foi mensurado, porém o Ministério Público do Rio de Janeiro lançou o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos para que a população faça o cadastro de pessoas desaparecidas. A previsão do tempo para a região é que as chuvas continuem, porém não no mesmo volume visto ontem.

Foram registrados cerca de 260 deslizamentos, somando 180 áreas de risco, quase 400 pessoas desabrigadas, a chuva somou 260 milímetros concentrada em poucas horas, equivalente a mais do que a média histórica para o mês de fevereiro. Há aproximadamente 400 bombeiros realizando desde ontem trabalho de busca de sobreviventes e corpos em meio a um cenário de destruição desolador.

Uma tragédia similar ocorreu em Petrópolis há 11 anos, em janeiro de 2011, quando mais de 900 pessoas perderam a vida e mais de 90 nunca foram encontradas. A ocasião é considerada pela ONU um entre os 10 piores deslizamentos já registrados mundialmente. Faz-se urgentes estratégias para que essas catástrofes não se repitam.

O número poderia ser bem menor se a municipalidade petropolitana estivesse melhor preparada para lidar com ocorrências como esta, defende Pedro Côrtes, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP).  “Em tese, municípios de médio e grande porte poderiam lidar com essas situações, mas o que temos verificado é que, em geral, isso não acontece”, disse. “Com esse histórico de deslizamentos de terra, “os órgãos de defesa da Região Serrana do Rio já deveriam ter as ferramentas e estratégias necessárias para enfrentar eventos extremos”, defende Côrtes.

“Claro que pode ocorrer uma chuva com intensidade imprevista, mas eu não considero que tenha sido o caso. Nós já vínhamos com ocorrência de chuvas intensas em dezembro na Bahia, em janeiro em Minas, no final de janeiro e início de fevereiro na região metropolitana de São Paulo. Isto é, já sabíamos que as chuvas vinham se manifestando com bastante intensidade”, disse Côrtes.

Alertas de Risco

Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais – Cemaden, os alertas de “Alto Risco” e “Muito Alto Risco” de precipitação intensa e probabilidade de deslizamentos só puderam ser enviados à Defesa Civil de Petrópolis no momento que a chuva já estava caindo, na terça-feira.

“Ao longo do desenvolvimento da chuva, a gente recebeu um alerta do Cemaden. Não posso precisar se foi momentos antes ou se foi ao longo da chuva, porque a gente estava em operação. Também nosso alerta foi enviado, e as sirenes acionadas um pouco antes das ocorrências mais graves. Essa é uma forma preventiva de atuar”, disse o comandante da Defesa Civil de Petrópolis, tenente Coronel Gil Kempers, ao jornal O Globo.

Por volta das 15h30, a Defesa Civil enviou um alerta à comunidade pelo sistema SMS, avisando da “previsão de chuva moderada/forte à tarde e à noite”. Perto das 17h, um novo alerta avisava do risco de “inundações para diversos pontos da cidade”. Foi somente neste horário, por volta das 17h, que as sirenes começaram a ser disparadas no local mais afetado pelo deslizamento, chamado de Alto da Serra.

Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operação e Modelagem do Cemaden, de fato não existe forma de prever com antecedência uma chuva tão intensa e concentrada numa localidade específica.

Ainda assim, o pesquisador ressalta que outros alertas haviam sido enviados à Defesa Civil nacional em dias anteriores. “Enviamos um alerta no dia 14, mas era um alerta de Risco Moderado, porque tínhamos chuvas acumuladas nos dias anteriores, o que nada fazia prever que era uma chuva tão concentrada e intensa. […] Mas esse alerta e a previsão de risco obviamente já faziam pensar que nenhum evento poderia ser descartado. Então a Defesa Civil já estava, de alguma forma, pré-avisada”, disse Seluchi.

Culpados

No final da tarde de ontem, quarta-feira (16), o governador do Estado do Rio de Janeiro, Claudio Castro (PL), atribuiu a tragédia em Petrópolis não só ao caráter excepcional das chuvas, mas a um déficit de obras na região.

“O que a gente tem que entender é que há uma dívida histórica desde outras tragédias que tiveram. Foi sim um caráter excepcional duro. Foi a maior chuva desde 1932. Unir uma tragédia histórica com um déficit que realmente existe causou esse estrago todo. Que sirva de lição para que dessa vez a gente haja diferente”, declarou Castro, em coletiva de imprensa.

Para o pesquisador Pedro Côrtes, da USP, o que faltou a Petrópolis – e o que falta ao Brasil –  é uma política efetiva de prevenção.

“Não temos uma cultura de prevenção. Claro que no Brasil há esse trabalho, a exemplo do que acontece na área da saúde, com o sistema de vacinação. Mas em relação aos desastres naturais, aos eventos climáticos extremos, é muito pouco o que se vê em prevenção. Normalmente o que temos é uma política reativa. Reagimos aos eventos e aí os prejuízos são enormes, não só materiais, mas também humanos”, diz.

Segundo Côrtes, os órgãos de defesa civil deveriam acompanhar com mais seriedade os boletins meteorológicos emitidos pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

A partir desses boletins, o ideal seria realizar análises de riscos de acordo com a realidade de cada município e, então, proceder com ações de prevenção, como reforço nas encostas e evacuação temporária de populações.

“Realmente há um despreparo e uma falta de interesse dos políticos em abraçar essas causas”, diz.

Faltando preparo ou não, os órgãos de defesa civil do Rio de Janeiro, especialmente da região serrana, precisam ficar alertas: a previsão do Cemaden é de possibilidade “Muito Alta” de novas ocorrências de inundações, enxurradas e deslizamentos, com chuvas intensas para os próximos 5 dias.

Fontes: G1, Site Universidade à Esquerda, Agência Brasil e Site (o) eco