Por que Bolsonaro não vai “esticar a corda” contra Moraes e o STF no caso Telegram

Bolsonaro afirmou que sofre “perseguição implacável” do ministro Alexandre de Moraes, do STF: ainda assim, tendência é de não “contra-atacar” o magistrado.| Foto: Joédson Alves/EFE

Por Rodolfo Costa – Brasília

Mesmo pressionado pelos eleitores, o presidente Jair Bolsonaro (PL) não vai “esticar a corda” com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que dirá rompê-la. A decisão do magistrado de bloquear o aplicativo Telegram na sexta-feira (18) deixou Bolsonaro inconformado. Apesar de a liminar ter sido revogada no domingo (20), também o irritou o fato de Moraes ter ordenado que uma mensagem fosse apagada no canal do presidente.

Ainda na sexta, Bolsonaro tomou conhecimento por seus assessores e interlocutores mais próximos sobre como a decisão de Moraes irritou eleitores e aliados de sua base conservadora “raiz”. Mesmo contrariado e pressionado por uma parte considerável do eleitorado, o presidente conversou com seus conselheiros e se convenceu de que o melhor a ser feito era adotar uma postura pragmática e contida.

Até o momento, a leitura feita no Palácio do Planalto é de que as respostas dadas por Bolsonaro a Moraes estão alinhadas com a de sua coordenação eleitoral. Na manhã desta segunda-feira (21), por exemplo, o presidente disse “lamentar” pelas “dezenas de milhões de pessoas” que usam o Telegram e seriam impactadas pela decisão. “Você não pode prejudicar essas pessoas que usam isso daí para fazer negócio, usam para tratamento médico, usam para defesa civil. Isso é um crime, um crime fazer isso aí”, declarou a jornalistas.

Quando falou de Moraes nominalmente, Bolsonaro evitou subir o tom e disse em entrevista à TV Jovem Pan que sofre uma “perseguição implacável” do ministro do STF. As falas também foram consideradas amenas no Planalto, onde interlocutores reconhecem que existe uma pressão de parte do eleitorado para que ele retome uma postura de confronto — como às vésperas da manifestação de 7 de setembro no ano passado. Contudo, assessores afirmam que a tendência é ele não partir para o “contra-ataque” pensando justamente nas eleições.

Aliados da base “raiz” do presidente no Congresso endossam a leitura e atestam que a atual postura adotada pelo presidente tende a permanecer, mesmo se outras decisões de Moraes ou do STF forem contrárias a nomes ligados ao eleitorado da direita conservadora. “Não vai ter ruptura [institucional com o Supremo], esquece. Isso eu posso afirmar categoricamente”, afirma um deputado da base.

“Agora é pragmatismo na veia, não vai ter esse confronto. A militância mais radical vai ‘pilhar’, mas ele [Bolsonaro] não vai enfrentar o Supremo assim. Ele está muito contido pelo Valdemar [Costa Neto, presidente do PL] e pelo Ciro [Nogueira, ministro-chefe da Casa Civil e presidente licenciado do PP]”, afirma um segundo deputado aliado. “Jair hoje pensa em ganhar a eleição, está pragmático pra caramba, ele e o estafe dele mudaram muito”, complementa.

Como o pragmatismo em relação a Moraes e ao STF pode ajudar Bolsonaro

Nas manifestações de 7 de setembro, Bolsonaro chegou a dar sinais de que convocaria o Conselho da República em resposta aos “excessos” do STF à época. Nos dias seguintes, ele contou com o apoio do ex-presidente Michel Temer (MDB) para colocar panos quentes na relação com Alexandre de Moraes e o ministro Luís Roberto Barroso. Desde então, nenhuma outra medida contra o Supremo foi aventada e assim seguirá.

Sobretudo em um ano eleitoral, Bolsonaro quer evitar uma postura que sugira uma cisão institucional com o STF. Embora parte de seus eleitores demande ações e não apenas palavras e posicionamentos, o presidente sabe que uma postura mais radical contra ministros da Suprema Corte poderia repercutir negativamente junto a parte do eleitor médio — que é mais pragmático e menos afeito a ideologias —, inclusive para a construção de alianças político-partidárias.

Aliados de Bolsonaro e interlocutores do Planalto afirmam que ele está convencido de que precisará do Centrão para construir sua candidatura à reeleição e isso envolve a adoção de um tom mais pragmático em relação a assuntos considerados politicamente sensíveis. A exemplo da postura em relação ao STF e às vacinas, por exemplo.

Existe uma avaliação no Planalto de que Bolsonaro pode ser reeleito ainda no primeiro turno. “Mais perto da eleição, nós vamos fazer as contas [para ver] se ele ganha no primeiro turno. Minha previsão é essa, pelas pesquisas que nós temos em mãos”, afirmou Ciro Nogueira na semana passada em entrevista ao programa “Conversa com Bial”, da TV Globo.

A reeleição em segundo turno ou no primeiro depende, contudo, da construção de uma aliança eleitoral forte. E isso passa pelo próprio Bolsonaro demonstrar desprendimento do perfil que o levou à Presidência da República, em 2018, e adotar um perfil mais político e alinhado ao de caciques políticos, analisam interlocutores do governo.

A aliança construída para Bolsonaro envolve conversas que vão além de PL, PP e Republicanos, partido que dá sinais de desembarque e que o governo tem se esforçado para manter na base. Também há diálogos para composição com PTB, PSC e até com o União Brasil e o MDB, ambas legendas que articulam uma candidatura da terceira via. Outros partidos que flertam com candidaturas de centro também estão sendo contatados.

O prefeito de Duque de Caxias (RJ), Washington Reis (MDB), mantém conversas com aliados do governo e dá sinais de que ele e outros emedebistas apoiarão a candidatura de Bolsonaro. “O Washington está com muita força no partido em nível nacional e está muito bem com Bolsonaro, apesar da oposição do Baleia [Rossi, presidente nacional emedebista]”, afirma um deputado da base.

Quem são os principais conselheiros de Bolsonaro em casos como o do Telegram

A decisão de Alexandre de Moraes contra o Telegram não foi a primeira que irritou Bolsonaro desde que ele se comprometeu a adotar uma postura mais pragmática pós manifestações de 7 de setembro. Desde então, ele se comunica bastante com ministros, assessores do gabinete pessoal e seus filhos políticos em casos como esses para alinhar o tom e as estratégias até na comunicação pessoal.

O ministro da Casa Civil atua como um dos principais articuladores da coordenação eleitoral de Bolsonaro e tem sido um dos mais influentes nos aconselhamentos feitos ao presidente. “O Ciro tem a casca grossa e não cozinha em óleo na primeira fervura. Ele é equilibrado e, naturalmente, está muito próximo do presidente. Criaram uma relação de credibilidade e o presidente o escuta”, diz uma liderança governista de um partido do Centrão ao admitir a influência de Nogueira na postura pragmática do presidente.

Outro que também tem influência junto a Bolsonaro e prega uma postura de mais sensatez em face de excessos do STF é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é o principal articulador eleitoral do presidente. É ele quem representa o pai e alinha as estratégias eleitorais com Ciro Nogueira e Valdemar Costa Neto. Ou seja, as decisões e planejamentos eleitorais são traçados de forma alinhada pelos três.

“O Flávio já pediu ao pai para seguir à risca a orientação de se afastar daquilo que é a ‘kriptonita’ dele, as polêmicas com o STF e temas espinhosos como as vacinas, que era o que as pesquisas apontavam de principal rejeição. E ele realmente parou, não ‘apanha’ mais do eleitor por essas questões”, afirma um deputado governista.

Numa situação como a do Telegram, que repercute negativamente com os eleitores, Bolsonaro costuma ter o apoio dos demais filhos e de assessores de seu gabinete. “Ele não faz isso publicamente, mas ele fala para um assessor da confiança conversar com outras pessoas, nomes influentes da direita, e pede para acalmar o pessoal. Ele faz muito isso, muitas vezes é ele quem manda dar esse tom. Às vezes, o Flávio e o Carlos [Bolsonaro] também interferem e acabam ajudando a colocar pano quente e as pessoas se acalmam”, diz um interlocutor do Planalto.

Outro interlocutor confirma que, uma vez ouvidas as pessoas mais próximas, Bolsonaro orienta assessores e os filhos a acalmar os eleitores por meio dos canais de comunicação da direita. “Ele pede para as pessoas mais próximas a não fazer nada que possa criar qualquer tipo de atrito institucional. Essa questão do Telegram, por exemplo, vai ser resolvida dentro da regra do que o jogo permitir judicialmente falando”, diz um assessor palaciano.

Que impacto o Telegram pode ter nas eleições e o que pensam aliados

O núcleo duro de Bolsonaro entende que a possibilidade de novas ações contra o Telegram por parte de Moraes ou de outros ministros do STF contra a plataforma poderiam impactar a comunicação entre o presidente da República e seu eleitorado, mas não avalia que novos bloqueios sejam uma ameaça aos planos de reeleição.

O Planalto sente que Bolsonaro construiu uma boa base no Telegram, onde ele tem cerca de 1,26 milhão de seguidores em seu canal, e naturalmente analisa que um bloqueio seria prejudicial à comunicação. Porém, a leitura é de que o impacto não seria determinante na corrida eleitoral.

“A direita sabe se recompor na forma de se comunicar, ela sempre se recompôs. É mais um efeito que impacta mais midiaticamente do que na prática”, analisa um interlocutor palaciano. Existe, inclusive, uma análise de o governo e a base explorarem outra plataforma, o Signal. “Essa é a mais segura de todas, é criptografia ponta a ponta, não sabe nem se a pessoa está online”, acrescenta a fonte.

Os interlocutores palacianos e assessores que auxiliam nas redes sociais do governo atestam, inclusive, que o Telegram está “longe” de ser a ferramenta mais utilizada pelo eleitorado da direita. O WhatsApp, o Facebook, o Instagram e o Twitter são outros citados como canais utilizados pela militância do presidente.

O deputado federal Bibo Nunes (PL-RS), vice-líder do partido na Câmara, admite que não conhece o Signal, mas assegura que a base governista vai se inteirar sobre as mais diferentes plataformas digitais de troca de mensagens e utilizá-las. “Vamos continuar usando o Telegram e iremos utilizar outros aplicativos. Quanto mais aplicativos tivermos à disposição, melhor. Vamos explorar o máximo de canais possíveis com o eleitor”, destaca.

O parlamentar, que era da “ala bolsonarista” do PSL e acompanhou o presidente ao PL acredita, inclusive, que o episódio do bloqueio do Telegram coloca Alexandre de Moraes em maus lençóis, não Bolsonaro. “Serviu para mostrar o radicalismo e a falta de bom senso do senhor ministro. As atitudes dele são muito mais políticas do que jurídicas e, geralmente, contrárias ao presidente Bolsonaro. É uma parcialidade impressionante”, critica.

Nunes elogia a postura pragmática de Bolsonaro e acredita que o presidente só tem a ganhar com ela. “É evidente, e o eleitor que queira terrorismo, esculhambação e desrespeito à Constituição não me serve. Tem que estar dentro da norma da lei respeitando tudo. Mas repito: o radical na história toda eu não tenho a menor dúvida que é o Alexandre de Moraes. Demonstra um radicalismo exponencial contra o Bolsonaro, que não vai dar em nada”, analisa.

O deputado federal Capitão Augusto (PL-SP), vice-presidente nacional do partido, concorda que a postura do presidente é correta e que a decisão de Moraes apenas beneficia o governo. “A censura é algo que une todos os políticos, vários da esquerda estão contrários”, diz. “Ninguém concorda com esse tipo de censura, o presidente está certo de evitar o confronto direto com o Alexandre, até porque a própria população se revoltou. Os próprios políticos se revoltaram, então não precisa ele partir para o embate”, acrescenta.

Outro a elogiar a postura de Bolsonaro é o deputado federal Evair de Melo (PP-ES), vice-líder do governo na Câmara. “O Alexandre está usando o cargo e explicitando a mediocridade dele, o mandato dele é um vexame, se dedica ao ‘varejo’ e se esquece do Brasil, tem causas muito mais importantes a serem feitas. E o presidente não tem necessidade de reagir contra o Alexandre porque ele é um ministro tatu, em cada decisão ele se afunda mais, sozinho está cavando a própria cova”, critica.

Fonte: Gazeta do Povo