OPINIÃO: O que está à venda no Cruzeiro: a sala de troféus ou o futuro?

Em tempo, não se está sugerindo que os valores ofertados são “justos”, apenas alertando sobre o fato de que as glórias acumuladas pelo clube no passado não garantem o seu futuro.

Por Eduardo Senra Coutinho (*)

As condições finais para a aquisição da SAF do Cruzeiro foram apresentadas formalmente e aprovadas pela assembleia geral do clube. Isso aplacou, em parte, o incêndio provocado pela divulgação do que seria uma proposta preliminar. Porém, alguns questionamentos seguem em pauta.

Há bastante alvoroço nas rodas de conversa, nas redes sociais e na imprensa especializada em relação ao fato. O valor de R$ 50 milhões como aporte inicial, entre outras coisas, tem sido bastante contestado. Porém, é possível notar os contornos emotivos da discussão. Isso não é exatamente surpresa quando se trata de futebol, mas é preciso afastar as paixões para que seja possível analisar a situação adequadamente.

A compreensão do problema envolve aspectos que são comuns a qualquer processo de avaliação de empresas, mesmo quando se trata de futebol. Um bom investimento é aquele pelo qual não se paga mais do que de fato vale. Tecnicamente falando, há duas abordagens para se chegar ao que seria esse valor: intrínseca e relativa. O valor intrínseco depende da capacidade da empresa de gerar fluxos de caixa no futuro, enquanto a avaliação relativa parte da comparação com outros empreendimentos similares colocados à venda.

No caso em questão podemos descartar a segunda abordagem por se tratar de algo recente no mercado brasileiro. Não há muitos negócios em curso que viabilizem a comparação. E mesmo se houvesse, a comparação seria bastantecomplicada tendo em vista a quantidade de variáveis envolvidas.

Sendo assim, resta apenas refletir em termos dos fluxos de caixa esperados. De acordo com as demonstrações financeiras disponíveis no site do clube, entre os anos de 2016 e 2020, a receita média com a atividade esportiva foi de aproximadamente R$ 290 milhões, corrigidos pelo IPCA até fevereiro de 2022. Apesar de serem valores significativos, o resultado das atividades esportivas no mesmo período, também corrigido pelo IPCA, mostrou um prejuízo médio de cerca R$ 50 milhões, considerando apenas os custos diretos da atividade esportiva. Somente o ano de 2019 registrou um prejuízo próximo de R$ 200 milhões.

Esse desequilíbrio financeiro gerou uma dívida de cerca de R$ 900 milhões, e, a reboque, o time ainda foi rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro. O resultado foi uma substancial queda nas receitas esperadas. Longe da principal competição disputada no Brasil e das competições internacionais, o futuro próximo não é muito alentador. As cotas de transmissão são modestas, e a atratividade para os patrocinadores é reduzida substancialmente sem a exposição gerada pelas grandes competições.

Segundo foi divulgado na imprensa, a projeção de receitas para 2022 é de cerca de R$ 60 milhões. Parte desse valor (20%) deve ser direcionada para o pagamento das dívidas da associação, restando pouco para investir na formação de um elenco robusto. Os outros clubes grandes apresentaram valores até três vezes superiores. Isso levanta dúvidas quanto à capacidade de o clube retornar à disputa da Série A já em 2023, o que é um requisito importante na sua recuperação, em função do impulso nas receitas que isso proporciona.

Assim, a resposta à pergunta do título fica relativamente fácil. A sala de troféus é um excelente chamariz para os compradores. Porém, estes procuraram o clube olhando para a frente. Na situação em que se encontra hoje, o futuro do Cruzeiro envolve um risco muito elevado, e isso tem reflexo na disposição do comprador.

Em tempo, não se está sugerindo que os valores ofertados são “justos”, apenas alertando sobre o fato de que as glórias acumuladas pelo clube no passado não garantem o seu futuro.

(*) Eduardo Senra Coutinho é alemparaibano, graduado em Economia pela UFMG, ex-analista do Banco Central do Brasil, Doutor em Administração pela UFMG e Coordenador do Curso de Administração do IBMEC.

Fonte: Jornal O Tempo