Caipirinha de chuchu

OPINIÃO

Por Luís Ernesto Lacombe

Alckmin e Lula devem ser companheiros de chapa nas eleições de 2022. (Foto: Paula Zwicker – AI)

“A primeira impressão é a que fica”. A frase é antiga e foi parte do conteúdo da cadeira de psicologia social, no único ano que dediquei à faculdade de psicologia. Tive um professor maravilhoso nessa matéria. Chamava-se Bernardo Jablonski. Além de psicólogo social, era também ator ligado à comédia e escrevia textos para teatro e televisão. Suas aulas eram concorridíssimas, atraíam alunos de vários cursos, não apenas os estudantes de psicologia.

Lembro-me bem de quando Jablonski falou sobre como tendemos a lutar para manter a primeira impressão que temos de uma pessoa. O exemplo era hilário… Se você visse alguém de quem, de cara, não gostou ajudando uma velhinha a atravessar a rua, provavelmente pensaria o seguinte: “Esse malandro está aprontando alguma, vai dar um golpe na senhora, vai tentar extorquir dinheiro dela”… Da mesma forma, se você observasse alguém de quem gostou de imediato, no primeiro encontro, espancando uma velhinha, haveria grande chance de pensar o seguinte: “Essa senhora não presta, aprontou alguma, com certeza merece a surra”.

Esse conceito da psicologia social, acho, não vale quando se trata de política. Não há primeira impressão que resista a uma proposta de aliança, a um acordo, mesmo que mal enjambrado. Claro, política tem disso. As alianças fazem parte da busca pelo poder. Inimigos num dia, companheiros inseparáveis no outro. Às favas com os princípios, com os fatos.

Geraldo Alckmin e Lula estão nessa. O ex-governador de São Paulo, de repente, viu no “criminoso querendo voltar à cena do crime” uma transformação inconcebível… Lula virou “o maior líder popular do país”. Em retribuição, o descondenado pelo STF passou a achar Alckmin um exemplo de civilidade. Se alguém no PT já chamou o ex-tucano de fascista, foi só uma primeira impressão equivocada. Se Alckmin já considerou os governos de Lula e Dilma um desastre total, isso passou.

Cheguei a trabalhar seis meses com o médico Geraldo Alckmin, que foi colunista de saúde de um programa que eu apresentava. Pessoa afável, tranquila, humilde… Eu já imaginava que não fosse verdadeiramente um político liberal, conservador, mas não podia prever uma transformação tão drástica. Não o reconheço. Ele próprio não tem como se reconhecer, tornou-se outra pessoa. Agora, é um orador exaltado, que berra, a voz rouca…

Seu discurso é patético, mentiroso, dissimulado, hipócrita, artificial, cínico, de alguém que se juntou a bandidos, sabendo exatamente quem eles são. Não terá escapatória, virou cúmplice. Defenderá também o aborto, a censura, a perseguição a parlamentares e suas famílias, a revogação da reforma trabalhista, do teto de gastos?

Lula e Alckmin estão juntos, viraram companheiros um do outro, companheiros do diabo, a quem vendem a alma sem titubear. De que importa mesmo a primeira impressão? Se um dos dois for visto por aí espancando uma velhinha, não tenho dúvida, terá a defesa incondicional do outro… E farão um brinde de cachaça com chuchu.

Fonte: Gazeta do Povo.