SALVADOR VIEIRA DE MENESES

A história da Educação de Além Paraíba não seria a mesma se não tivesse existido Salvador Vieira de Menezes. Nascido em Varre-Sai (RJ), no dia 02 de novembro de 1914, era filho do lavrador Gerônimo Vicente Vieira de Menezes e de dona Donária Machado Vieira. Cresceu respirando o ar puro do campo e, na sua Varre-Sai, cursou o Primário, tendo como primeira professora dona Vivina de Aquino, tia do famoso violonista brasileiro Baden Powel.

De origem familiar muito religiosa e católica, Salvador desde criança teve uma certa vocação para o clero, daí ter estudado em seminários, concluindo o Curso Secundário no Seminário Sagrado Coração de Jesus, na cidade de Campos dos Goitacazes (RJ), e o Curso Superior, em 1938, no Seminário de Mariana (MG), onde se formou com distinção e louvor em Filosofia.

Sua intenção era ser padre. Porém, quis o destino que, após de formado, desistisse da idéia e abraçado a carreira do magistério, indo lecionar latim, geografia e história, em 1939, no Ginásio Diocesano de Lins (SP), hoje Universidade Diocesana de Lins. Em 1940, mudou-se das terras paulistas indo para Três Rios (RJ), onde lecionou no Colégio Plínio Leite, tendo sido seu diretor até o ano de 1948.

Em 1943, recebeu um convite para ensinar em Além Paraíba, onde viveu o resto de sua vida, no considerado o mais importante educandário de toda a região na época – o Colégio Além Paraíba. O convite, disse certa vez, era uma imposição que muito o orgulhava por ter sido feito pelo então diretor e proprietário do educandário, o emérito Dr. Theóphilo dos Reis Junqueira. Naquele mesmo ano, em 1943, casou-se com dona Ináh, com quem teve três filhos: Sônia Maria (professora), Henrique (médico) e Regina Lúcia (professora). Com Ináh dividiu alegrias e tristezas, amando-a e respeitando-a até a sua morte, em 15 de julho de 2000.

No CAP, onde também foi diretor, Salvador Vieira de Menezes teve como colegas outros eméritos professores que, como ele, acabaram entrando para a história da Educação de Além Paraíba. Sylvio Rodrigues Maia, Aristóteles Lobo, João Batista Alvim, Álvaro Costa, Anna Mattos, Else de Deus Pimenta Brandão Ferreira, Francisco Figueira, Dona Pituta e outros.

No seu segundo ano de magistério em Além Paraíba, Salvador Vieira de Menezes notou que muitos alunos, ao se matricularem, solicitavam do diretor e proprietário do CAP a isenção das taxas de matrícula e redução nas mensalidades que eram obrigados a pagar para conseguirem estudar. Eram, na sua maioria, filhos de operários, comerciários e lavradores que não tinham recursos suficientes para darem uma educação digna aos seus filhos. Dr. Theóphilo, segundo o próprio professor Salvador, sempre buscava atender aos pedidos.

Esta observação fez com que ele desse início, em fins do ano de 1943, a uma campanha junto ao governo estadual, no sentido de que a Além Paraíba fosse brindada com um educandário que subsidiasse os estudos aos mais carentes. Durantes anos a fio, sem esmorecer um só instante, utilizando a imprensa alemparaibana, clamou dos poderes constituídos e dos políticos uma chance para os mais necessitados e uma saída para um problema que sempre existiu. Esta sua postura, de estender o ensino secundário gratuito aos menos favorecidos, lhe custaram muitos dissabores e perseguições de políticos, até os dias de hoje não bem entendidos. Entretanto, como toda boa causa sempre conquista um final feliz, após quase vinte anos de luta incessante, uma luz no túnel se fez surgir, uma porta aberta apareceu, isto em 1964, quando o então governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, atendeu ao apelo e, através da Lei Estadual nº 3.288, de 14 de dezembro daquele ano, criou o Ginásio Estadual São José. O mesmo governador nomeou Salvador Vieira de Menezes como diretor do educandário.

A batalha contra os poderosos, aqueles que somente queriam ganhar dinheiro com a Educação em Além Paraíba, estava finalmente vencida, mas a guerra não terminara. Era necessário dar forma à nova instituição de ensino que surgia. Professores foram arregimentados à causa e, em 16 de novembro de 1965, com a garantia da diretora da E. E. Lafaiete Côrtes, professora Áurea Martins Pinto, de que as dependências daquela escola seriam cedidas para o funcionamento do Ginásio, as matrículas foram abertas às oito horas da manhã, com um detalhe: somente poderiam ser matriculados 300 alunos. Às 10 horas daquela mesma manhã, encerradas as matrículas, 380 alunos ocupavam as vagas existentes do 1º ao 4º ano do Curso Ginasial. O Ginásio Estadual São José tornara-se uma realidade.

O primeiro ano de funcionamento da escola que era o sonho de Salvador Vieira de Menezes teve momentos de grandes dificuldades. As maiores eram provocadas por grupos políticos que queriam ver enterrado o sonho do ensino gratuito à nível de curso secundário no município e, também, porque em algumas salas de aula os bancos escolares era divididos por três, até mesmo quatro alunos.

Em 1967, Salvador Vieira de Menezes conseguiu com que outro estabelecimento de ensino abrisse suas portas ao Ginásio Estadual São José, já apelidado pelo professor Élio Torres, um discípulo seu, de “O Caçulinha”. A direção da E. E. Castelo Branco adotou o Ginásio, já com mais de quinhentos alunos e um quadro de professores do mais alto gabarito.

Os anos se seguiram e, em 1968, mais uma conquista: a sede própria do Ginásio, nas dependências da antiga Algodoeira, uma indústria que havia cerrado suas portas fazia vários anos. O prédio foi totalmente adequado para abrigar os já mais de 700 alunos que o educandário possuía.

À frente da direção do Ginásio Estadual São José, ainda dando aulas no CAP, Salvador Vieira de Menezes dava mostras de sua capacidade profissional e de dedicação ao ensino. Incansável, justo, honesto e sempre ponderado nas decisões, era invejado por alguns e admirado por muitos. Infelizmente, Theóphilo Junqueira não mais era dono e diretor do CAP, e lá Salvador Vieira de Menezes acabou sofrendo sua maior perseguição devido o seu ideário, que era o de ajudar os menos favorecidos pela sorte com a fundação do Ginásio Estadual São José.

Passados mais alguns anos, com o Ginásio forte e altivo, Salvador Vieira de Menezes mais uma vez foi apunhalado, sendo compulsoriamente aposentado graças à ação, novamente, de políticos que somente almejavam o poder e queriam auxiliar seus apadrinhados, o que lhe trouxe grande tristeza, amargura e depressão. Este afastamento, criticado por vários amigos e ex-discípulos, também por grande maioria dos alunos e ex-alunos do Ginásio Estadual São José, lhe resultou três enfartes.

Seus últimos anos de vida foram metódicos. Pela manhã saia de casa, em São José, onde encontrava com amigos e alguns poucos ex-alunos que ainda o procuravam para pedir conselhos. Quando com estes encontrava a pedir opiniões ou os sábios conselhos que somente ele sabia dar, chorava a mágoa de não mais poder ir até o educandário que construíra com muita luta e suor. Ficou esquecido, mas sua grandeza de caráter perdoava a ingratidão. Todas as manhãs, à exceção dos dias chuvosos, o Velho Mestre podia ser visto caminhando de sua casa até a praça, e nela relembrando os seus mais de cinquenta anos vividos em Além Paraíba, onde lutou como um leão contra os poderosos para que um sonho se transformasse em realidade.

Salvador Vieira de Menezes faleceu na manhã do dia 09 de dezembro de 2000, em sua residência.

(Texto de Flávio Senra e foto de arquivo do Jornal Além Parahyba – Publicado na edição nº 329, de 22/06/2005)