Antônio Carlos Ribeiro de Andrade

(Por Carmo Chagas – publicado na edição nº 772, de 19/02/2014)

Antônio Carlos Ribeiro de Andrade foi o mais aristocrático dos governadores mineiros, chamado pela imprensa de seu tempo de estadista de raça e político de sangue. Nasceu em Barbacena, no dia 05 de setembro de 1870, e tinha o mesmo nome de seu pai, um paulista descendente do patriarca da independência, José Bonifácio de Andrade e Silva, e fundador do ramo mineiro da família. A mãe, Adelaide Feliciano, era bisneta do inconfidente José Aires Gomes e irmã do ministro e senador José Rodrigues Lima Duarte. Antônio Carlos se casou com Julieta Guimarães, filha do barão de Rio Preto e bisneta do marquês de Olinda.

Antônio Carlos viveu e estudou em Barbacena até a adolescência, quando se mudou para São Paulo, onde se formou advogado em 1891. Retornou para Minas depois de formado, como promotor de Ubá, onde também atuou como juiz. Foi juiz em Palma, antes de se fixar em Juiz de Fora, como advogado, professor de História e Economia, jornalista e político, vereador e presidente da Câmara.

No Jornal do Comércio, onde trabalhou, e no Diário Mercantil, que fundou, discutia com veemência e conhecimento os assuntos financeiros de Minas. Era esse, também, o teor de seus discursos em apoio à candidatura de Francisco Sales ao governo estadual. Com a vitória de Francisco Sales, foi nomeado secretário das Finanças.

Na secretaria, teve oportunidade de pôr em prática o que teorizava pelos jornais. Substituiu o imposto interestadual pelo de indústrias e profissões. Incentivou a política de valorização do café. Ouviu fazendeiros, industriais e comerciantes para reorientar a política econômica. Deixou a secretaria no último ano do governo Francisco Sales, para assumir a prefeitura de Belo Horizonte.

Em seguida, elegeu-se senador estadual para a legislatura 1907-1910, e em 1911 já era deputado federal, e na Câmara passou o maior tempo de sua carreira – até 1925, numa primeira temporada, e de 1933 até 1937, quando a preparação do golpe do estado Novo incluiu seu afastamento da presidência da Câmara. Em 1917, licenciou-se da Câmara e, então, assumiu o Ministério da Fazenda, no final do governo de Venceslau Brás. Por um ano, em 1925 e começo de 1926, passou pelo Senado. Renunciou ao mandato para se eleger presidente de Minas Gerais.

Tomou posse no governo de Minas em 7 de setembro de 1926, como resultado de sua influente presença na política mineira e nacional da época e também porque, ao seu tempo, as vitórias eleitorais não dependiam tanto da real participação do eleitorado. Se tivesse de fazer uma carreira política com base no voto popular, dificilmente Antônio Carlos iria muito longe. Não existia maior identificação entre ele, homem de elite, e o povo. Mas seu governo foi, sem dúvida, voltado para o bem comum. Algumas das realizações de Antônio Carlos como governador de Minas foram: fundação da Universidade de Minas Gerais, hoje UFMG; expansão do ensino primário e médio; remodelação dos serviços de saúde pública; expansão das estradas de rodagem; extensão das comunicações telefônicas; incentivo à agricultura e à indústria.

Embora não se misturasse com as massas, Antônio Carlos foi um político sinceramente preocupado com os destinos de Minas e do Brasil. Foi por uma lei sua, de 1927, que se instituiu no país o voto secreto, destinado a terminar com as vitórias eleitorais simuladas em gabinetes, que ele conhecia tão bem. Logo depois de aprovada a lei, realizou-se uma eleição para preencher a vaga de vereador em Belo Horizonte, o que deu a Minas a oportunidade de ser o primeiro Estado brasileiro a praticar o voto secreto.

Ao encaminhar seu projeto ao Congresso, Antônio Carlos pronunciou a frase que se tornaria célebre: “Façamos serenamente a revolução, antes que o povo a faça pela violência”. Subiam alto, nesse tempo, as chamas dos ideais renovadores e rebeldes do tenentismo, prenunciando a Revolução de 30 que sepultou a República Velha e seu monolítico Partido Republicano Conservador.

No governo de Minas, Antônio Carlos desempenhou papel fundamental na armação da Aliança Liberal. Num primeiro momento, a Aliança uniu Minas, Rio Grande do Sul e Paraíba em torno da candidatura do gaúcho Getúlio Vargas, desafiando o governo central, onde o presidente Washington Luís queria impor o também político paulista Júlio Prestes como seu sucessor.

Num segundo momento, quando os resultados anunciados davam vitória a Júlio Prestes, a Aliança Liberal se transformou em bandeira de luta desfraldada contra o governo central, primeiro na forma de  denúncias da fraude havida, mais tarde na forma da revolução que veio a depor o presidente Washington Luís e empossar Getúlio Vargas. Nesse segundo momento, Antônio Carlos já havia passado o governo de Minas a Olegário Maciel. Mesmo fora do Palácio da Liberdade, no entanto, ele continuou em ação política e revolucionária.

Quem mais arriscou e mais influiu na vitória da revolução de 30, foi Minas Gerais. Minas era o mais importante dos três estados envolvidos. Territorialmente, economicamente e politicamente. As lideranças mineiras esperavam, em conseqüência, ocupar grandes espaços no governo, ainda que o comando ficasse com o gaúcho Getúlio Vargas. Mas a divisão do poder desagradou os mineiros. Por isso, quando São Paulo se rebelou contra Vargas, na Revolução Constitucionalista de 1932, importantes lideranças mineras deram apoio apenas discreto ao governo central. Antônio Carlos foi um desses quase ausentes no apoio a Vargas, apesar de ocupar a presidência da Câmara dos Deputados, um posto de evidente importância estratégica.

O descontentamento em relação a Vargas foi se tornando divergência, com o passar do tempo, na medida em que Antônio Carlos percebia que o governo resvalava mais a mais para o autoritarismo. Vargas também tinha consciência de que o político mineiro, um fervoroso adepto do liberalismo clássico, faria tudo para barrar o projeto de endurecimento do regime, então em curso. Meses antes do golpe do estado Novo, Vargas manobrou para forçar o afastamento de Antônio Carlos da presidência da Câmara, contando com a ajuda do governador mineiro Benedito Valadares.

Antônio Carlos estava com 67 anos. Achou que havia chegado a sua hora de parar. Até morrer, ao 75 anos, em 1° de janeiro de 1946, nunca mais se envolveu com a política.

Causo

Em 1937, quando perdeu a presidência da Câmara, Pedro Aleixo ficou muito irritado com Benedito Valadares, governador de Minas, que dava todo apoio ao golpe de Getúlio Vargas. Assim que chegou a belo Horizonte, Pedro Aleixo mandou entregar a Benedito uma carta desaforada.

O governador chamou o presidente do Tribunal de Justiça.

– Recebi esta carta do Dr. Pedro Aleixo. É um desacato ao governador de Minas. Tenho que tomar uma providência. O que o senhor me sugere?

– Nada. O senhor não deve fazer nada. Ninguém vai ficar sabendo. Se o senhor tomar alguma providência, todo mundo fica sabendo. Será pior.

– Mas o governador não pode sofrer um desacato desses e ficar quieto!

– Ainda acho que o senhor não deve fazer nada. Mas se decidir prender o Dr. Pedro, evite mandá-lo para a cadeia. Ofereço minha casa.

– O senhor acha, então, que é caso de prisão?

– Não foi isso o que eu disse.

– Foi, sim. Obrigado pelo conselho jurídico.