domingo, maio 10, 2026
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SEXTETO REX: página musical de sucesso na história de Além Paraíba

A música sempre teve seu lugar de destaque em Além Paraíba. Desde o século XIX, quando o município foi criado, os acordes musicais corriam soltos pelos ares. Em Angustura teve a Rapioca, um grupo musical cujos instrumentos eram feitos de bambu. Foi sucesso anos a fio. Na sede do município, quando ainda vigorava a monarquia no Brasil, a Banda do Barão de Guararema, orientada pelos professores Amábile e Francisco Raimundo, levava ao deleite os alemparaibanos. A Banda do Barão passou e, infelizmente, acabou.

Em 15 de agosto de 1896, Francisco Pereira de Araújo fundou a Sociedade Musical Carlos Gomes. Seu primeiro maestro foi Firmino Silva. O bairro de Porto Novo, sede da entidade musical, se viu cheia de acordes e acabou sendo invejado pelos moradores de São José. Esta inveja, vinda em boa hora, fez com que em 23 de agosto de 1897 fosse criado o Grupo Musical São José. Manoel Corrêa Júnior, seu fundador, também era o regente e maestro.

Os anos foram passando e as duas bandas dividiam prazerosamente a preferência do povo – uma espécie de Fla x Flu. Em 23 de junho de 1907, o Grupo Musical São José transformou-se na Sociedade Musical Sete de Setembro, tendo como regente e maestro Antônio Eusébio dos Santos, seguido de Acir Figueiredo, Levi Rodrigues e outros, até 1926, quando Euclides Vasconcelos Barbosa, o Mestre Tida, elegeu-se para o cargo, permanecendo até 1980. Até os dias de hoje, já no primeiro quarto do século XXI, as duas entidades musicais brilham e levam o nome de Além Paraíba além fronteiras.

Mas a música alemparaibana não se resume apenas nas suas bandas de música. Excelentes grupos musicais aqui existiram e foram sucesso de público em toda região. Uma grande orquestra surgiu na década de 1930, a Orquestra Rex Jazz, tendo por primeiro maestro Orlandim Cerqueira. Na orquestra grandes nomes da nossa música fizeram história e ela foi regida por dois notáveis nos acordes musicais: maestro Otávio e o inesquecível Artulírio de Souza, o maestro Tuil.

A Rex Jazz reinou absoluta por longos anos, até os dia 28 de setembro de 1950. Neste dia, aniversário da cidade, a grande orquestra tocou seu último baile na inauguração da atual sede do Rex Clube. Acabado o baile, três músicos componentes da orquestra, Darcy (contrabaixo), Gerardo (piano) e Juju (bateria e vocal), deram início ao nascimento do maior de todos os grupos musicais da história de Além Paraíba – o Sexteto Rex.

Trio formado, um convite foi feito a Adilson Agrícola, um dos magos do saxofone da região, e Dircílio Neiva (ritmista). Foi formado um quinteto que fez sua primeira tocada em Mar de Espanha. Ainda em 1950, Adilson Agrícola resolveu sair do grupo, cedendo seu lugar para César Mattos. A seguir, compondo a primeira formação do Sexteto Rex, um exímio violonista foi convidado para se juntar ao grupo: Moacir Pedro Ferreira.

Era a época de ouro da música brasileira. Eram os Anos Dourados! As irmãs Linda e Dircinha Batista, Emilinha Borba, Marlene, Carlos Galhardo, Anísio Silva e outros grande nomes faziam sucesso Brasil afora e, em Além Paraíba, já existia a Rádio Porto Novo que ajudava a divulgar este sucesso. No Brasil, grandes orquestras surgiram. E nelas se espelhavam o rapazes do Sexteto Rex.

Waldir Calmon, Severino Araújo, Borba, Bené Nunes e outros grandes maestros arrancavam aplausos e disputavam a preferência daqueles que gostavam de dançar. O carinho e o aperfeiçoamento com que os rapazes alemparaibanos tinham pela música fez com que o Sexteto Rex também ficasse famoso. Bailes de formatura, de debutantes e de eleição de misses eram o palco maior do grupo musical alemparaibano. Em pouco tempo já haviam tocado em dezenas de cidades mineiras e fluminenses, até mesmo na capital da República, na época a cidade do Rio de Janeiro.

Existia na cidade de Petrópolis uma gravadora chamada Rádio Fonográfica Brasileira. Ao tomarem conhecimento do valor dos músicos do Sexteto Rex, isto num baile realizado num dos mais famosos clubes da época em todo o Brasil, o Petropolitano, um convite surgiu para a gravação de um Long-Play de Alta Fidelidade. Aceito o convite, um triste acidente tirou Darcy Monteiro, o contrabaixista, do grupo musical. Darcy quebrara um perna. Impossibilitado de gravar o disco, Darcy foi substituído por outro grande músico alemparaibano, Hélio Couto Gomes, que soube honrar o nome do músico ausente. Saiu o primeiro disco do Sexteto Rex, um sucesso absoluto de vendas, tocado em todas as grandes emissoras de rádio do país. Desse primeiro disco outros dois vieram pela mesma gravadora, todos com grande sucesso.

O nome Sexteto Rex passou a ser sinônimo de música para dançar. Disputando palmo a palmo com as grandes orquestras da época, chegou a dividir os salões do Hotel Glória, do Rio de Janeiro, com Waldir Calmon e Biriba Boys, este um dos grande nomes da música paulistana, numa mesma noite. Dizem que este baile, onde os três salões do Hotel Glória estavam lotados, o mais disputado era aquele que o Sexteto Rex tocava, tendo até mesmo sido visto, ouvido e aplaudido pelo Presidente da República.

Hotel Glória, Grajaú Tênis Clube, Casa das Beiras, na Tijuca, e Boate Arpége eram os palcos onde os guapos rapazes alemparaibanos faziam sucesso no Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte, dois dos mais tradicionais e fechados clubes da alta sociedade mineira lhes abriram as portas e aplaudiram de pé – o Minas Tênis Clube e o Automóvel Clube.

Com o passar dos anos o Sexteto acabou perdendo um de seus fundadores. Gerardo Gomes, um monstro sagrado do piano e do solovox, decidiu buscar outras fronteiras para mostrar sua arte. Cedeu lugar para Ayres Pereira Muniz, outro grande fenômeno da música.

Em 1958, quando o grupo já havia tocado em mais de 150 cidades mineiras e em quase todas as cidades fluminenses, à exceção de Campos dos Goytacazes, o grupo musical alemparaibano ganhou mais um componente, o acordeonista Airton Pereira de Araújo, o Pereirinha. Mesmo com sete músicos o grupo manteve o mesmo nome – Sexteto Rex.

Contratado pela gravadora Odeon, o grupo gravou mais dois Long Plays e dois compactos. Sucesso absoluto de vendas em todo o Brasil.

Quis o destino, no ano de 1963, no auge da fama, o Sexteto Rex fosse extinto. Além Paraíba chorou a grande perda. Os bailes de debutantes, de formatura, de coroação de misses e domingueiras ficaram tristes.

Hoje, 61 anos do fim do Sexteto Rex, aqueles que já passaram dos 80 anos, e não são tantos assim, ainda se recordam emocionados dos acordes musicais de Gerardo, Adilson Agrícola, Darcy, Juju, Dircílio, Moacir, César Mattos, Hélio, Ayres e Pereirinha, todos eles residindo no Patamar Superior. Sentem saudades de quem acompanhou com maestria Jamelão, Nelson Gonçalves, Caubi Peixoto, Helen de Lima, Ângela Maria, Miltinho, Emilinha, Marlene, Adelaide Chioso e muitos outros. Saudades de um tempo que não volta mais, mas para sempre serão lembrados através dos discos que ainda estão guardados em alguma prateleira.

O mundo deu voltas e voltas. Deu também o Sexteto Rex, um nome que será sempre reverenciado na história musical de Além Paraíba.

Fonte: Jornal Além Parahyba, edição 138, 03/06/1999 – Texto de Flávio Senra