quarta-feira, abril 22, 2026
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As Eleições Municipais e o Admirável Gado Novo

Por Flávio Senra (*)

Nunca, em toda história de Além Paraíba, nossa gente foi tão maltratada e sofreu tamanho descaso dos poderes Executivo e Legislativo Municipal. Não bastassem as soluções desastrosas que nossas autoridades propuseram no sentido de (des)resolver os problemas diários da população como num todo, o que testemunhamos nos últimos anos, em especial os oito últimos, foi um gasto absurdo com o dinheiro público, um tanto quanto suspeitos, com algumas licitações e contratações contestadas, como a compra de materiais de construção civil por parte da Secretaria Municipal de Educação de pelo menos de 20 a 30 novas unidades escolares no município.

Tal aquisição, onde uma empresa suspeita da Baixada Fluminense foi a fornecedora, acabou resultando numa denúncia ao Ministério Público Federal que acionou as autoridades policiais a uma investida na Pasta que obrigou sua titular e funcionários (as) a prestar depoimento na DP alemparaibana – o caso ainda está sendo investigado. Vale ressaltar, a lista de fatos e situações sobre este tema, licitações e contratações, já foram explorados e levados ao conhecimento de nosso público-leitor por inúmeras vezes que certamente encheriam páginas e páginas desse bate-papo rápido entre nós.

A maior e mais grotesca situação promovida pelo governo do garotinho-mimado, o de Além Paraíba e não o do ex-governador do Rio de Janeiro que foi julgado e condenado por algumas centenas de anos de prisão por corrupção ativa e passiva, que contou com o apoio do olhar míope do Legislativo Municipal alemparaibano, foi a intervenção da única instituição de atendimento público na área de saúde que, aliás, era tratado de excelência, e não pertencia à municipalidade já que era de cunho público-privado, sem fins lucrativos, no caso específico o Hospital São Salvador – HSS.

Vale lembrar, quando da intervenção municipal, o HSS havia sofrido inúmeras mudanças promovidas por uma provedoria que recebera a instituição repleta de problemas nunca vistos desde que aquela Casa de caridade, criada no ano de 1908 pelo médico baiano Dr. Paulo Joaquim da Fonseca. Esses problemas haviam impactado num péssimo atendimento ao seu público-alvo, no caso específico o povo de Além Paraíba e de sua microrregião, bem como boa parte de sua estrutura física-funcional, literalmente recuperada, num período de cerca de 10 anos, pelo gestor Dr. Rafael Boubèe Gracioli da Silva, mais conhecido por Dr. Rafael Gracioli, com o aval de todo o corpo do Egrégio Conselho-Diretor formado por cidadãos e cidadãs alemparaibanos escolhidos sem o dedo da municipalidade.

Ressaltamos novamente que a instituição HSS é de cunho particular, sem fins lucrativos, daí não pertencer à municipalidade, que apenas dela participa através de somente um voto.

Durante os cerca de dez anos em que teve seu destino pautado pelas decisões da então provedoria e assessores diretos, como já citado anteriormente o HSS teve sua estrutura funcional literalmente reestruturadas. Obras foram realizada em sua estrutura física, equipamentos foram recuperados e adquiridos para suprimento das demandas que surgiram para um melhor atendimento ao seu público–alvo; seu corpo funcional recebeu treinamento específico para todas as áreas existentes; as dívidas, que não eram poucas, passaram por uma avaliação e posterior equacionamento; enfim, como resultado o HSS se transformou, como num passe de mágica, da água para o vinho.

As mudanças implementadas acabaram chegaram em boa hora, isto porque todo o planeta acabou sendo atingido por um desastre na área da Saúde somente visto na Idade Média, a Peste Negra, e no início do século XX com a Gripe Espanhola. A Covid-19, fruto causado, para grande maioria da população mundial, por pesquisas desastrosas provocadas por cientistas da China Comunista, que ceifou a vida de dezenas de milhões de vidas em todos os países do mundo, inclusive em Além Paraíba que somou 174 mortes.  

À ocasião, a famigerada corona vírus encontrou em Além Paraíba uma estrutura já bem montada pela então provedoria que contava com o total apoio de seu Egrégio Conselho-Diretor. A instituição, como muitas, mas não todas as existentes no planeta, mostrou-se competente mesmo com os parcos recursos então existentes, como uma vacina para combater a doença. Mesmo assim, o HSS acabou se transformando num porto seguro para todos aqueles que necessitavam de socorro.

A então provedoria, com o apoio dos membros do Egrégio Conselho, montou uma equipe formada por alguns poucos profissionais médicos que compunham o quadro de seu corpo clínico, entre estes o seu provedor Dr. Rafael Gracioli e seu colega Dr. Haroldo Marinho, que juntamente com outros três médicos recém-formados contratados que foram escolhidos a dedo, além de todos os funcionários daquela instituição que com coragem abraçaram a causa maior que era de salvar vidas a todo custo. A equipe, em 1º de agosto daquele primeiro ano da pandemia, acabou tendo uma baixa, a enfermeira Ieda Gomes, que corajosamente trabalhou diuturnamente trabalhou salvando vidas, mas não sobreviveu à força da famigerada corona vírus.

A Covid-19 acabou aos poucos sendo debelada, e num ato despudorado a instituição acabou sendo tomada de surpresa no ano de 2022, quando da Intervenção Municipal promovida pelo prefeito Miguel Belmiro de Souza Júnior sob a arguição de que o então comando aquela instituição, à ocasião liderada pelo médico Dr. Rafael Gracioli, então provedor, e da enfermeira Bethânia Reis de Souza, estaria cometendo atos desonestos (peculato) na mesma.

Como resultado dessa grotesca intervenção, e graças indiretamente a Ação Criminal promovida pelo Ministério Público da Comarca de Além Paraíba, o então provedor do HSS e seus liderados foram afastados da direção da instituição que passou a ser comandada por vários interventores, todos indicados pelo Chefe do Poder Executivo e assessores diretos, tendo inclusive o respaldo da maioria quase que absoluta dos membros do Poder Legislativo Municipal.

Vale ressaltar, durante todo esse período intervencionista que ainda persiste naquela Casa que foi criada em 1908 pelo médico Dr. Paulo Joaquim da Fonseca, com contribuições financeiras do povo alemparaibano e não da municipalidade, o serviço do HSS foi literalmente sucateado; com pagamentos de salários, férias e 13º salário de seus funcionários geralmente quitados com atraso; dezenas de ações junto a Justiça do Trabalho que chegam, segundo informações oficiosas, a mais de R$ 5 milhões; dívidas se acumulando diariamente; falta de medicamentos; péssimo serviço ambulatorial de urgência (Pronto Socorro) prestado  à população, etc.

Registra-se ainda que, por ocasião em que o médico afastado e sua equipe atuavam, inúmeras melhorias foram conquistadas na estrutura do prédio do HSS; praticamente inexistia atraso no pagamento de salários, férias e 13º salários dos funcionários; o Pronto Socorro funcionava com eficiência; isto sem contar que durante a Pandemia da Covid-19 o Hospital São Salvador foi uma das referências entre todas as unidades hospitalares existentes na região.

Agora, praticamente às vésperas de um processo eleitoral onde o poder do dinheiro é visto claramente nas ruas da cidade e todos os recantos do município na ânsia de conquistar votos dos eleitores indecisos, outra situação onde pode ser atribuído à grotesca Intervenção Municipal ao HSS, aconteceu. No último domingo, dia 29 de setembro, um dia após as comemorações de mais um aniversário do município, um incêndio na instituição, causado por um curto-circuito em um ventilador na Ala da Enfermaria acabou resultando na morte de uma paciente que teve cerca de 70% do corpo tomado por queimaduras.

Não bastasse tamanha tragédia, menos de uma semana depois, no caso ontem, sexta-feira, dia 04 de outubro, dois dias antes do processo eleitoral que escolherá quem será o sucessor do prefeito e os membros da próxima Legislatura Municipal, a mesma interventoria que ora cuida das necessidades do HSS, que aliás nada de útil faz pela sua melhoria, em parceria com a municipalidade, leia-se Secretaria Municipal de Saúde, promove com festa um mutirão de cirurgias de cataratas no Centro Cirúrgico da instituição, com direito a café da manhã com contratação de empresa especializada em buffet, somente faltando pipocar de fogos de artifícios e banda de música. Um absurdo, certamente diria Boris Casoy, um dos mais renomados profissionais da imprensa brasileira.

Finalizando nosso bate papo, desejando ao povo alemparaibano, assim como dos municípios que nos cercam uma boa e responsável escolha em seus candidatos,  somos obrigados a apresentar a seguir a letra de uma das mais representativas músicas que levaram ao ápice a carreira de seu autor, o violeiro e cantor nordestino José Ramalho Neto, o Zé Ramalho, de título Admirável Gado Novo. Eis a letra:

“Essa é a canção do povo marcado

Do povo feliz

É o admirável gado novo

É o nosso Brasil

Yeah

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa dos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer

Êh, oô, vida de gado
Povo marcado eh
Povo feliz

Êh, oô, vida de gado
Povo marcado eh
Povo feliz

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou!

Eh, oô, vida de gado
Povo marcado eh
Povo feliz

Eh, oô, vida de gado
Povo marcado eh
Povo feliz

Oh oh oh

O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam esta vida numa cela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível
Não voam, nem se pode flutuar
Não voam, nem se pode flutuar
Não voam, nem se pode flutuar

Eh, oô, vida de gado
Povo marcado eh
Povo feliz (eu quero ouvir vocês, vai)

Eh, oô, vida de gado
Povo marcado eh
Povo feliz
Feliz
Feliz
Feliz
Oôi
Oh uoh uoh uoh uoh eh eh eh boi
Eh boi, yeah yeah boi”

(*) Flávio Senra é o Editor do Jornal Além Parahyba desde junho de 1993.