Receita de rocambole do inferno
OPINIÃO
Por Paulo Polzonoff Jr. (*)

Semana passada, um indignado Flávio Dino reclamou das ofensas que lhe são dirigidas pela Internet, aquela que os ministros do STF ainda chamam de World Wide Web. Tadinho. É por essas e outras que tem de regular, etc. Entre a amplas, abundantes e fartas ofensas, porém, chamou a atenção um tal de “rocambole do inferno”. Curioso que sou, fui pesquisar e descobri que:
História
O rocambole do inferno (l’enfer roule, na versão original) foi criado pela dupla de chefs franceses Castrô e Costá, logo depois da Revolução de 1789. A receita chegou ao Brasil, mais especificamente ao Maranhão, pelas mãos de jacobinos exilados, que apreciavam o alto poder revolucionário da gororoba que alimentou o Reino do Terror até Castrô e Costá serem acusados de praticar a arte pequeno-burguesa da gastronomia e acabarem guilhotinados numa fria e cinzenta tarde de inverno, já no finzinho de 1793.
Adaptado ao gosto local, ao longo do tempo o rocambole do inferno recebeu a adição de ingredientes cada vez mais autoritários – e apimentados. A tal ponto que, em 1952, ao provar a famosa e picante iguaria, o primeiro-ministro Winston Churchill, aquele, se saiu com uma de suas frases mais famosas: “What a wretched excuse for a democracy you possess. So degenerate that, in fifty years’ time, it shall be no more”. Que, em bom português, significa: “Vocês estão ferrados e vão ter que aguentar comunista no STF por um bom tempo ainda”.
Perfeito para ser servido em banquetes diplomáticos com ditadores, sessões do STF e reuniões do Partidão, o rocambole do inferno (não confundir com o rocambole dos infernos, versão à base de gordura hidrogenada) caiu no gosto de alguns brasileiros. Principalmente da casta que nos governa. Por isso, e para você que quer sentir por um instante o gostinho de agir como ditador, mas falar como democrata e até humanista, a Gazeta do Povo publica hoje esta receita exclusiva de rocambole do inferno, criada pelo renomado chef Paul Polzeau.
Ingredientes
· 1 quilo de chocolate amargo como a alma de ministro do STF
· 300 gramas de cuxá (não confundir com xacu)
· 4 ovos confiscados pelo Estado
· 2 colheres de sopa de fake news (opcional, mas provavelmente obrigatório)
· 1 pitada de liberdade de expressão artificial— só para disfarçar o gosto do autoritarismo
· Açúcar. Muito açúcar. Mais açúcar. (Quase lá. Só mais um pouquinho)
· 500 gramas de narrativa de golpe de Estado.
· a mesma quantidade da narrativa de que a democracia está em risco, oh! oh! oh! socorro!
· 1 colher de chá de fermento ideológico (preferência: gramsciano)
· creme de obesidade mórbida enriquecido com censura
· democracia relativa (para untar)
Modo de preparo
Pré-aqueça o debate político a níveis insuportáveis. Crie narrativas, minta, corrompa, aparelhe as instituições – faça o diabo para tomar o poder e se manter nele até que o Senado fique morrendo de medo de cumprir seu papel de fiscal do Judiciário.
Numa tigela grande, vá misturando tudo e mais um pouco, sem muita preocupação com o futuro. Acrescente um pensamentozinho importado da esquerda norte-americana aqui, outra teoriazinha francesa dali. E mexe, mexe, mexe. Mexa até não poder mais, ao som de Margareth Menezes.
Noutro recipiente, bata os ovos com a liberdade de expressão artificial. A mistura deve ficar homogênea como o discurso da “democracia em risco”. Mas cuidado para não passar do ponto e acabar proibindo memes com o Haddad e dizendo coisas como “criticar políticas públicas é crime”.
(Ponha um sapo numa panela com água fria e vá aumentando o fogo aos poucos. Não tem nada a ver com a receita. É só para você ver o que acontece mesmo).
Incorpore os ingredientes secos aos líquidos com cuidado, para não despertar suspeitas. A esta altura, a massa deve parecer sólida na superfície, mantendo a consistência moral gelatinosa por baixo.
Despeje a massa sobre uma forma forrada com papel de inquérito sigiloso e untada com democracia relativa. Leve ao forno e asse por décadas ou até que os Estados Unidos imponham sanções ou ainda até que o Senado desperte do coma e resolva agir.
Retire do forno e espere esfriar, se puder. Recheie com o amargor da desesperança e o creme de obesidade mórbida reforçado com censura. Salpique com cuxá, se é que com cuxá se salpica.
Enrole em silêncio. Cubra com lágrimas de conservadores, de preferência bolsonaristas. Sirva gelado como o coração de alguém capaz de condenar uma simples cabeleireira a 14 anos de prisão.
Dicas do chef
Ideal para servir com chantilly de hipocrisia, o rocambole do inferno harmoniza bem com vinho tinto — o mais vermelho possível — e discursos sobre fome feitos por quem nunca pulou uma refeição. Pelo contrário!
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(colaborou, sem saber, Paulo Cursino)
(*) Paulo Polzonoff Jr. é jornalista, tradutor e escritor
Fonte: Gazeta do Povo



