Dr. Ladário de Faria: o médico dos pobres
Ao findar do mês de outubro de 2004, o Jornal Além Parahyba, verificando ser comum, o que é lamentável, a literal ausência nas escolas alemparaibanas, até mesmo dentro de poderes constituídos (Legislativo e Executivo Municipal), de informações sobre pessoas que se destacaram na história do município, alguns até nominando logradouros públicos, iniciou um trabalho em parceria com o historiador e professor Mauro Senra onde, regularmente, foram publicadas pequenas biografias destas personalidades.
De certo tempo para cá, neste site-portal do mesmo Jornal Além Parahyba, republicamos 29 nomes dos quase cem publicados na sua edição impressa, o que voltaremos a fazer a partir da data de hoje, 17 de abril, a cada semana, reiniciando este trabalho que deveria ser obrigatoriamente apresentado dentro de todas as escolas alemparaibanas, públicas ou privadas.
Nosso nome de hoje é de um dos grandes médicos que a boa terra alemparaibana acolheu e relevantes serviços prestou ao município, chegando até mesmo a ser eleito prefeito municipal. Trata-se de Dr. Ladário de Faria, fundador do Asilo Ana Carneiro, hoje em dia tratado como Casa do Idoso Ana Carneiro.
Aproveitem a leitura e verifiquem na Coluna História, subtítulo Grandes Vultos da História de Além Paraíba, outros nomes já postados no site www.jornalalemparahyba.com.br.
Dr. Ladário de Faria: o médico dos pobres

Nascido em Areado, região sul de Minas Gerais, em 11 de abril de 1890, Dr. Ladário de Faria era filho de Fernando Antônio de Faria e de Maria Victória Pereira de Faria. Fez seus primeiros estudos em Campanha (MG), a seguir em Itú (SP), formando-se em Medicina pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro, no ano de 1913. Casou-se em 17 de janeiro de 1917, com Maria Luíza de Rezende Faria, e tiveram oito filhos.
No mesmo ano de seu casamento, o casal veio de Juiz de Fora para Além Paraíba, ele como Inspetor Geral do Serviço de Profilaxia Rural da Zona da Mata, sendo posteriormente transferido para Recreio (MG), onde ficou por apenas seis meses. A seguir, Dr. Ladário foi transferido para Cataguases, e, novamente, em 1920, para Além Paraíba, como Chefe do Distrito Sanitário da Zona da Mata. Em Além Paraíba dedicou-se à sua vida profissional, fazendo desta terra sua terra e de seus filhos. Aqui foi chamado de “o médico dos pobres”, pela sua humanidade e respeito aos mais humildes.
Uma das grandes preocupações de Dr. Ladário de Faria era com a velhice desamparada que circulava pelas ruas esmolando para sobreviver. Para ampará-la, tirando-a das ruas e das condições miseráveis em que vivia, fundou o Asilo Ana Carneiro, em 20 de junho de 1921. Tudo teve início numa reunião com amigos. Dr. Ladário tirou o chapéu, fazendo-o correr junto aos presentes ao encontro, humildemente “esmolando” um auxílio para angariar fundos que possibilitassem a construção do asilo. A primeira sede da instituição foi construída no Morro do Carneiro, defronte ao Hospital São Salvador.
Como médico sanitarista erradicou o tifo em Além Paraíba. O primeiro laboratório de análises clínicas do município foi criado por ele, em seu consultório médico. Em 1958, foi eleito pela Associação Médica, Seção Regional de Além Paraíba, presidente da Regional Minas Gerais. Foi chefe dos postos de saúde de Carmo e Sapucaia.
Com o pensamento sempre voltado para o bem coletivo e de Além Paraíba, sem visar interesses próprios, Dr. Ladário também foi um importante político no município. Sempre defendendo os pobres, os injustiçados e os perseguidos pelos poderosos, fundou o jornal “O Combate”, onde relatava suas idéias e ideiais, e sua luta pelo engrandecimento do município alemparaibano. “O Combate” se transformou numa tribuna onde os humildes eram defendidos dos opressores.
Em 1947, o Diretório do PSD apresentou o nome do ilustre médico como candidato a prefeito de Além Paraíba nas eleições que seriam realizadas em novembro daquele ano. Aceitou a proposta e foi à luta. Seu primeiro ato como candidato foi lançar um manifesto ao povo e nele constava seu programa de governo, todo desenvolvido na busca de melhores dias para a coletividade, desagradando em cheio as lideranças políticas adversárias. Enfrentou uma luta ferrenha, sórdida e desleal. Seus adversários, poderosos e maquiavélicos, usaram de toda a deslealdade para destruí-lo. Entretanto, os correligionários do médico, na maioria os menos favorecidos pela sorte, os operários da Estrada de Ferro Leopoldina e das outras indústrias alemparaibanas, lutaram com garra contra os ”coronéis”, elegendo aquele que era considerado um homem justo, honesto, amigo dos pobres e de Além Paraíba. Dr. Ladário de Faria ganhou as eleições e foi empossado em 1º de janeiro de 1948.
A ganância dos adversários era terrível. Agindo pela escuridão, usando de métodos sujos, com má fé e corrupção, conseguiram impugnar uma urna no Tribunal Eleitoral, cassando um prefeito eleito pelo voto direto do povo. Dr. Ladário de Faria ficou somente quatro meses à frente da Prefeitura Municipal.
A decepção não desanimou os ideais do ilustre médico e político. Continuou a sua luta em defesa dos miseráveis, principalmente da classe operária. Seu nome virou uma lenda junto aos que o conheciam. Certa vez, os ferroviários da Estrada de Ferro Leopoldina entraram em greve por melhores salários. Os poderosos, que eram contra o movimento grevista, tentaram promover a derrocada da mobilização. Em defesa dos ferroviários, Dr. Ladário pôs-se diante de uma locomotiva dizendo que para furar a greve teriam que passar com a composição sobre o seu corpo. O maquinista não seguiu viagem com o trem e aderiu à greve que continuou, e os ferroviários conseguiram o aumento salarial desejado.
Fumante inveterado acendia um cigarro atrás do outro, sempre usando uma piteira de prata que era presa ao dedo. Um dia, um garoto lhe perguntou: “Doutor! Por que o senhor acende um cigarro atrás do outro”? Respondeu com bom humor: “É porque não posso fumar todos de uma vez só”.
Quando Dr. Ladário de Faria faleceu, seus corpo foi levado de trem, de sua residência, no bairro Porto Velho, até a Estação de São José para o sepultamento no Cemitério do Santíssimo. Toda a classe ferroviária e operária de Além Paraíba se fez presente ao féretro, homenageando assim o seu grande defensor.
Segundo sua saudosa filha Maria Luísa de Faria, o reino de seu pai não era este. “Seu reino era o do amor ao próximo”, disse certa vez a filha dileta. Esta afirmativa diz bem quem foi Dr. Ladário de Faria, podendo ser acrescentado de que seu reino também era o da Justiça e da Coletividade.
O Asilo e Dr. Ladário
Certo dia, ao passar diante do Asilo São Luiz Rei, no Rio de Janeiro, um estudante de Medicina, alto, magro e simpático, através das grades enxergou uma quantidade enorme de mulheres e homens idosos, e viu-se tomado da sensação de imensa dó, de enorme piedade por aqueles e outros pobres infelizes em condições iguais, a tantos outros espalhados pelos quatro cantos da terra. Naquele momento, jurou para si mesmo: “Que Deus não me deixe morrer antes de ter construído um asilo, uma casa, onde possam se abrigar esses mal aventurados que chegam ao fim da existência sem conforto, agasalho ou uma palavra amiga. Juro que esta há de ser minha cruz. Embora pesada, não descansarei enquanto não levá-la ao Horto”.
Quis o destino que esse estudante, de nome Ladário de Faria, após concluir o curso de medicina, viesse residir em Além Paraíba, aqui instalando seu consultório, fazendo sua clientela, despertando as atenções gerais para suas virtudes de profissional, conhecedor da “arte de curar”, sendo sua carreira enveredada, também, pela carreira política, ocupando o cargo de Prefeito Municipal por mais de uma vez.
Dr. Antônio Augusto Junqueira, quando à frente do Executivo, convidou-o para ser o Chefe do Posto de Profilaxia, oportunidade em que pôde demonstrar sua disposição de extinguir com focos de sujeiras por todos os cantos da cidade, em profissão de fé digna de um sanitarista de renome.
Muita gente zangou-se quando desencadeou terrível campanha contra porcos criados até dentro de casa e nas zonas residenciais de Além Paraíba, conseguindo levar a cabo sua tarefa, melhorando em muito o estado higiênico de nossa “urbs”.
Porém, não esqueceu da promessa a si mesmo feita. E, ao chegar aqui, encontrou já os princípios da instituição com que sonhara quando estudante. O número de mendigos era grande, causando o mais justo constrangimento a quantos circulavam e viviam por essas plagas. Por isso, falava-se na construção desse asilo, sem que os objetivos entrassem no terreno prático.
Certo dia, mais precisamente em 13 de junho de 1921, Dia de Santo Antônio, houve uma grande festa junina na Fazenda da Barra do Peixe, então propriedade do Cel. Antônio Martins de Lima Castello Branco, genro do Comendador Simplício Ferreira da Fonseca, grande amigo do médico Dr. Ladário. Na belíssima e imponente sede da importante propriedade rural, Formaram-se várias mesas de pôquer, em uma das quais estavam sentados o Cel. Augusto Perácio, comerciante e fazendeiro no vizinho Estado do Rio, o próprio Dr. Ladário, um engenheiro do Estado de Minas a serviço na cidade e outros.
Quis a sorte que Cel. Perácio empunhasse em uma rodada o jogo maior, conseguindo abocanhar a expressiva quantia de 3.000$000 (três mil contos de réis). Dr. Ladário, sem perder o ensejo, solicitou ao amigo a quantia ganha para criar um asilo. Este por sua vez, sabedor dos ideais do amigo, entregou-lhe a polpuda soma ganha no jogo.
Fulminante resultado, numa festa em que se reuniam tantas personalidades destacadas de Além Paraíba, ninguém negou a auxiliar Ladário de Faria que pôde, assim, arrecadar nada menos que 9.000$000 (nove mil contos de réis). E no dia seguinte, animado com as ocorrências na Fazenda da Barra do Peixe, Dr. Ladário de Faria conversou longamente com o Coletor Federal Raul Belo Pimentel Barbosa e o Promotor de Justiça Aristóteles Lobo, prometendo ambos cooperar com o facultativo.
Surge então o problema da localização do asilo. Raul Belo, porém, procura Joaquim Carneiro Júnior, seu cunhado e filho da Sra. Ana Carneiro, proprietária de uma casa situada no Morro do Carneiro, bem em frente à colina do hospital, além de mais três moradias abaixo, e o conjunto é vendido pela importância de 9.000$000. Não satisfeito, Joaquim Carneiro Júnior, tratado por todos por “Carneirinho”, doa todo mobiliário, roupas de cama, louças e bateria de cozinha, possibilitando, desse modo, o imediato funcionamento da instituição.
E em 1º de janeiro de 1923, às duas horas da tarde, no próprio edifício da entidade, foi empossada a primeira diretoria, assim composta: Dr. Ladário de Faria (presidente), Joaquim Cerqueira Porto (vice-presidente), Dr. Aristóteles Lobo (secretário), Cel. Raul Belo Pimentel Barbosa (tesoureiro). Também foi organizado o seguinte Conselho Consultivo: Capitão Alfredo Augusto do Amaral, Álvaro Antunes, Álvaro Boechat, Antônio Augusto de Azeredo Coutinho, Dr. Antônio Alves Taranto, Antônio Gonçalves Fernandes Timbira, Antônio Ribeiro Ferreira, Cesar Corrêa da Cruz, Delfino Rocha, Dr. Edelberto Figueira, Ernesto Pereira Antunes, Fausto Gonzaga, Dr. Jarbas Pires Marques, Cônego João Batista da Silva, Jorge Elias Sahione, José de Carvalho Marques, José Augusto Domingues, José Antônio Varela, José Antônio Marques, José Teixeira Bastos, Dr. Joviano Rezende, Levi Reis Rodrigues, Lineo Antunes Vieira e Nestório Valente.
Desde às duas horas da tarde, a sede do Asilo, que por sinal fora residência de Dona Ana Carneiro, se achava de repletos de convidados. Pouco antes das três horas, chegou a Sociedade Musical Sete de Setembro, toda uniformizada.
Por ocasião do ato inaugural, já estavam confortavelmente instalados vários asilados, variando de idade mas numa média de 70 anos, todos paupérrimos, mas felizes pelo abrigo que lhes garantia uma confortável velhice, protegidos por pessoas caridosas, pela segurança da construção e pelo conforto que o mesmo lhes oferecia.
Feliz da vida, o médico Dr. Ladário de Faria, ao contemplar tudo aquilo, lembrou-se de seu tempo de estudante quando imaginava ver realizado um sonho, um sonho igual ao do magnífico São Luiz Rei que, naquele momento, se concretizava.
Texto de Mauro e Flávio Senra / Publicado na edição 307 do Jornal Além Parahyba



