ENTREVISTA EXCLUSIVA – DR. RAFAEL BOUBEE GRACIOLI DA SILVA

Passados cerca de três anos e meio de um dos atos mais covardes à uma instituição que foi criada com a finalidade de salvar vidas e aliviar as dores de quem sofre, o que vemos com grande tristeza é o nosso Hospital São Salvador se definhando ainda mais, perdendo paulatinamente, a cada dia que passa, a sua credibilidade junto ao povo que dele necessita de seus serviços.
Tudo foi fruto de uma medida desastrosa de uma gestão municipal que, pelo visto e todos acreditam ser verdadeira, quis transformar a centenária instituição em seu curral político-eleitoral, não bastasse ainda tentado destruir a carreira de um profissional médico que muito fez não só em favor da instituição, mas que, colocando em primeiro plano o Juramento de Hipócrates, montou uma equipe de trabalho e salvou incontáveis vidas durante o maior flagelo visto nos últimos séculos desde a Peste Negra que dizimou milhões de vidas na Idade Média, que foi a Pandemia da Covid-19 que matou dezenas de alemparaibanos, e tirou a vida de milhões neste século XXI.
Estamos falando do médico alemparaibano-petropolitano Dr. Rafael Boubee Gracioli da Silva, casado com Andréa, pai de Luca, Gabriel e Júlia, os dois primeiros estudantes de Medicina, ela uma jovem estudante em Além Paraíba.
Dr. Rafael teve sua vida revirada nestes últimos três anos e meio, graças a uma intervenção municipal que o tirou da Provedoria do Hospital São Salvador, e ainda resultou numa ação judicial promovida pelo Ministério Público de Minas Gerais, sendo recentemente, por absoluta falta de provas, inocentado pelo Poder Judiciário de todas as acusações que tentaram lhe imputar.
Durante todo esse período, num gesto não só de solidariedade mas também de confiança, o Jornal Além Parahyba sempre combateu de frente a esdrúxula Intervenção Municipal imposta pelo ex-prefeito Miguel Belmiro de Souza Júnior, bem como defendeu a inocência do médico Dr. Rafael Gracioli, pois sempre lhe viu como um profissional decente e ilibado. Daí, enquanto a maioria, para não dizer toda imprensa alemparaibana, lhe negou espaço, inclusive agora que sua inocência foi tornada pública, nada mais justo que, abaixo, transcrevermos uma entrevista que nos foi concedida pelo profissional médico em questão com exclusividade.
À todos os nossos leitores tenham uma boa leitura, e à você, caro Dr. Rafael Gracioli, o nosso muito obrigado pela confiança depositada…
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Passados três anos e pouco mais de cinco meses da Intervenção Municipal que o afastou da Provedoria do Hospital São Salvador, qual o relato que o senhor poderia nos fazer sobre aquele ato promovido pelo ex-prefeito Miguel Belmiro de Souza Júnior?
DR. RAFAEL GRACIOLI
As pessoas comentam que esse ato de intervenção se deu por uma briga familiar, mas isso não tem nenhum fundamento porque, em primeiro lugar, eu não sou da família do prefeito. E em segundo lugar, o que houve foi uma tentativa clara do prefeito de usar a instituição politicamente.
O Hospital estava muito fortalecido após o período da Covid. Nosso tratamento durante a pandemia, nossa atuação como um todo foi muito bem-sucedida, e isso fez com que o nome da instituição se fortalecesse bastante. A partir daí, o prefeito decidiu usar o hospital para fins políticos.
Assim que começou o segundo mandato e a pandemia foi se dissipando, ele decidiu usar a instituição. Primeiro, tentou colocar o irmão dele lá dentro, mas o Conselho não permitiu. Como não conseguiu inserir o irmão pelas vias normais ele montou um decreto de intervenção.
Isso, inclusive, foi dito por assessores e por pessoas de dentro da própria Prefeitura. A esposa do ex-secretário de Obras do município chegou a falar claramente o que iria acontecer — e aconteceu exatamente como ela havia dito. Disseram que alegariam irregularidades nas contas e fariam um decreto de intervenção. Foi exatamente o que aconteceu.
Tudo isso foi montado em várias reuniões políticas. Vale lembrar que o próprio ex-prefeito afirmava que usava o hospital para política. Eu sempre fui contra isso, porque já sabia que aconteceria o que de fato aconteceu. E o tempo mostrou que eu estava certo.
Então, esse decreto de intervenção não foi nada além do desejo político de tomar controle da instituição, e eu lutei veementemente contra isso. Para a política entrar lá dentro, tiveram que me tirar. E hoje, todo mundo está vendo o resultado disso.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Por qual motivo, no seu entendimento, ele tomou aquela atitude contra uma instituição que sequer pertencia à municipalidade?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Como já mencionei anteriormente, tudo isso foi uma tentativa de uso político da instituição. Porém, o hospital é uma instituição muito complexa, uma instituição deficitária que não gera lucro. Popularmente falando, é como se você tivesse que vender o almoço para pagar o jantar.
Administrar o hospital não é como administrar uma empresa saudável. Lá você administra causas, você administra dívidas. O hospital tem suas particularidades. E nós conseguíamos lidar com isso de forma muito eficiente. Por isso, criou-se a falsa impressão de que nadávamos em dinheiro – o que não era verdade. Simplesmente havia uma gestão eficaz, porque conhecíamos profundamente a estrutura da instituição.
Eu já conhecia o hospital há muitos anos. Antes mesmo de assumir a provedoria, fui médico nele por 10 anos. Eu vivia o dia a dia do hospital, conhecia a fundo suas necessidades e seu funcionamento. Sabíamos o que fazer, como fazer. E é isso que eles não sabiam.
Eles imaginaram que aquela estrutura se sustentaria sozinha – mas não é bem assim. Sem uma gestão eficaz acontece o que está acontecendo até hoje: milhões sendo injetados no hospital e nada anda como deveria andar.
Então, o motivo da intervenção foi sim o desejo de usar o hospital politicamente. Só que, com isso, deram um tiro no pé.
Hoje, a instituição precisa é de gestão eficiente. O Hospital São Salvador não precisa de dinheiro. Essa história de bingo, rifa, é balela. O hospital tem muito dinheiro, basta olhar o Portal da Transparência. O que o hospital não tem, até hoje, é gestão.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Quando o senhor assumiu a Provedoria do Hospital São Salvador? Poderia detalhar como encontrou a instituição hospitalar à ocasião (estrutura física e funcional, dívidas, etc.)?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Eu entrei no Hospital São Salvador como médico em 2003, e assumi a provedoria em 2012. Quando cheguei a estrutura física era precária – desde a pintura das paredes até os equipamentos. Não havia um fluxo adequado de entrada e saída de pacientes, e o hospital acumulava dívidas impagáveis.
Antes mesmo de assumir oficialmente, fui até o computador, estudei, entendi o que estava acontecendo. Compreendi a dinâmica financeira do hospital. O faturamento com convênios era pífio, porque ninguém queria permanecer no hospital. Por isso, montamos um plano de ação que começava pela recuperação da credibilidade do Hospital São Salvador.
Para isso, era necessário melhorar a estrutura física. Quando entramos, deparamo-nos com quase R$ 2 milhões em dívidas, com valores bloqueados, se não me engano pela White Martins e pela General Eletric, devido uma ampola de tomógrafo que o ex-provedor comprou e não pagou. Isso foi se acumulando e resultou em um bloqueio de todo o dinheiro de convênios.
Essa dívida se tornou um montante absurdo, que conseguimos negociar e liberar. A liberação desses recursos nos deu um impulso muito grande no início da gestão.
Com esse dinheiro, conseguimos enxugar a folha de pagamentos que era extremamente alta. Existiam funcionários exercendo a mesma função, mas com salários discrepantes – um ganhava R$ 1 mil e outro R$ 5 mil. Fizemos os ajustes, cortamos gastos, o que é princípio básico de gestão.
Em seguida, realizamos a obra do Pronto Socorro, depois partimos para a reforma da ala Santa Maria. Pouco a pouco fomos adquirindo equipamentos para que cirurgias pudessem ser realizadas ali mesmo, permitindo que os pacientes de convênios permanecessem no hospital.
A estrutura foi sendo aprimorada a tal ponto que os pacientes de convênio passaram a preferir ficar no Hospital São Salvador. Só saiam aqueles pacientes que não tinham condições clínicas de tratamento na instituição.
Criamos uma estrutura hospitalar com credibilidade, onde o paciente se sentia acolhido e bem atendido. Vale ressaltar, o que muitos não entendem até hoje é que o convênio é o que cobre o buraco que o SUS deixa.
Conseguimos recuperar o movimento de convênios que antes era praticamente zero, e o fizemos crescer para uma média mensal de R$ 400 mil a R$ 500 mil reais. Isso passou a cobrir o déficit deixado pelo SUS.
Foi assim que começamos a erguer o Hospital São Salvador.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Um dos grandes desafios que o senhor enfrentou durante sua gestão como Provedor do Hospital São Salvador, acreditamos que também em toda sua vida como profissional da Medicina, foi, sem dúvida alguma, a Pandemia da Covid-19. O senhor poderia fazer um relato sobre esse desafio?
DR. RAFAEL GRACIOLI
A pandemia de Covid-19 foi um desafio muito grande para todo mundo. E nós lidamos com isso, modéstia a parte, muito bem.
Na época, o governo federal enviava recursos para as instituições, sim, mas, por exemplo, um medicamento que antes custava R$ 5 passou a custar R$ 250 ou até R$ 300. Então, além de enfrentarmos a escassez de medicamentos, lidávamos com uma doença desconhecida.
Apesar disso, nós já tínhamos uma estrutura hospitalar muito firme, muito consolidada, e isso, aliado à credibilidade do Hospital São Salvador, ajudou muito.
Os pacientes chegavam ao hospital acreditando na instituição, confiando na estrutura que foi montada especificamente para recebê-los. Isso foi o que fez dar certo.
Montamos uma estratégia de intervenção precoce, com apoio direto à rede básica de saúde. O objetivo era identificar, com antecedência, os casos que poderiam agravar, para que esses pacientes fossem encaminhados à rede de suporte, no caso o próprio Hospital São Salvador. E lá fazíamos um acompanhamento mais próximo desses pacientes.
Tivemos um pico de mortes em um período de três meses, causado por surtos localizados, como, por exemplo, em asilos e até na Câmara Municipal. Nesses três meses, o número de óbitos disparou.
Mas, se considerarmos toda a pandemia, excluindo esse período de três meses, a nossa média de mortalidade foi uma das mais baixas do país.
Durante esse pico, tivemos dificuldades porque não existia uma estrutura suficiente para lidar com tantos pacientes graves. Faltavam leitos. Os pacientes chegavam em estado muito crítico, o que comprometia bastante a capacidade de atendimento.
Ainda assim, acredito que tivemos uma atuação brilhante com o apoio de toda uma equipe. E deu certo. Deu tão certo que, depois disso, passamos a entrar no radar dos políticos que passaram a querer usar a instituição para outros fins.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Sabemos que muitas realizações na estrutura física-funcional do Hospital São Salvador foram conquistadas sua gestão como Provedor da instituição. O senhor poderia enumerar essas, pelo menos parte, realizações?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Na nossa gestão reformamos todo o Pronto Socorro. Criamos uma sala de estabilização que o pessoal costuma chamar de unidade intermediária, com dois leitos bem equipados, com respirador e monitor.
Montamos um Pronto Socorro com cadeiras de hidratação, camas novas e uma estrutura digna para o atendimento emergencial. Criamos um fluxo organizado de entrada e saída de pacientes, e também reformamos a portaria implantando uma recepção estruturada que proporcionasse conforto ao paciente no momento da sua chegada.
Além disso, começamos com um CTI com cinco leitos e um único respirador. Conseguimos ampliar essa estrutura para dez leitos de CTI com cerca de 15 respiradores. Também adquirimos uma máquina de hemodiálise para que casos de urgência pudessem ser atendidos dentro da instituição, mesmo que depois o paciente necessitasse de transferência.
Instalamos um arco cirúrgico, permitindo assim a realização de cirurgias urológicas e ortopédicas que antes não eram feitas no Hospital São Salvador. Equipamos todo o centro cirúrgico que, apesar de ter passado por uma reforma anterior (na gestão anterior à minha), não possuía nenhum equipamento funcional.
Compramos carrinho de anestesia, trocamos as camas, conseguimos duas camas hospitalares especiais da McKay que custam, cada uma, cerca de R$ 500 mil. Recebemos a doação, e pagamos apenas pela montagem – se não me engano R$ 7 mil por cama. Ou seja, conseguimos um investimento de quase R$ 1 milhão pagando apenas R$ 15 mil pela montagem.
Conseguimos foco cirúrgico e todos os equipamentos mostrados nos vídeos que a Prefeitura divulgou sobre o Hospital São Salvador, foram adquiridos na minha gestão. Não há nenhum equipamento ali comprado pela atual gestão ou pela gestão anterior do ex-prefeito. Tudo foi feito por mim, na minha gestão, junto com minha equipe.
O hospital que existe hoje fui eu quem construiu. Fui eu quem transformou a realidade da instituição.
Reformamos o telhado, a capela e as enfermarias; colocamos camas novas em todas as enfermarias, compramos todo o material para a reforma da pediatria – inclusive iniciamos essa obra. Não conseguimos finalizá-la, porque a pandemia chegou e nos tiraram de lá antes.
Foram inúmeras conquistas. O que conseguimos transformar no Hospital São Salvador em 10 anos foi algo significativo, fruto de muito trabalho e dedicação. Mas hoje, infelizmente, as pessoas se esquecem de como o HSS era antes. Ele não nasceu pronto. O que o Hospital São Salvador é hoje não foi construído sozinho, nem pela nova gestão. Foi resultado direto de tudo o que fizemos na nossa gestão.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Temos conhecimento de que existem dezenas e dezenas de ações trabalhistas contra o Hospital São Salvador devido uma série de demissões promovidas pelos interventores nomeados pelo ex-prefeito Miguel Belmiro de Souza Júnior que passaram pela instituição nesses pouco mais de três anos e cinco meses. O que o senhor pode comentar sobre essas demissões e quanto elas custaram e ainda custam para a centenária instituição hospitalar criada no ano de 1907?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Quando assumimos o Hospital São Salvador encontramos uma folha de pagamento muito inchada. Tivemos que fazer alguns cortes, enxugar sua folha de pagamentos de salários para que o hospital pudesse caminhar de forma sustentável.
Todas as demissões que realizamos foram pagas. No início, lembro que, quando fui afastado havia uma ou duas ações trabalhistas no máximo, o que era um número muito pequeno considerando o porte da instituição. Isso porque sempre buscamos honrar os compromissos trabalhistas com muito esforço.
Mesmo com dificuldade, parcelávamos, buscávamos meios, mas pagávamos as indenizações de quem fosse desligado. E vale ressaltar que somente era demitido quem pedia para sair ou por motivo disciplinar. Qualquer pessoa que saiu durante a nossa gestão teve um motivo justificado para tal.
Agora, hoje em dia, a realidade é outra. O que se vê é um descaso muito grande com o Hospital São Salvador. Pegaram uma das instituições mais importantes da cidade e passaram a usá-la de forma indiscriminada. É triste o que está acontecendo. A dívida hoje é astronômica.
Quando saímos da gestão, o Hospital São Salvador tinha, se não me engano, cerca de R$ 9 milhões em dívidas, valor esse amplamente divulgado pelo próprio ex-prefeito. Hoje, o Hospital São Salvador tabela com cerca de R$ 30 milhões em dívidas. Ou seja, em apenas três anos e meio, conseguiram triplicar o endividamento da instituição.
Isso mostra, claramente, a capacidade de destruição e a incompetência da gestão passada.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Além do senhor, também o Egrégio Conselho do Hospital São Salvador sofreu Intervenção Municipal. O senhor poderia relatar quais eram e são as atribuições do Conselho?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Na verdade o Conselho do Hospital não sofreu uma intervenção – ele foi afastado. O decreto de Intervenção, como foi feito, é um decreto totalmente equivocado e incorreto, pois requisitou apenas o prédio. A Prefeitura não tem autonomia sobre o Conselho do Hospital.
O egrégio Conselho do Hospital continua existindo. Vejo o atual prefeito dizendo que “montou um novo conselho”, mas ele está desinformado. O Conselho do Hospital é formado por representantes da sociedade civil organizada, e existe a muito mais tempo do que a minha própria gestão.
Vi também o secretário de Saúde alegando que havia “irregularidades” no Conselho. Também está desinformado.
O Conselho é composto por pessoas respeitadas na sociedade: o presidente do Rotary, o presidente do Lions, o prefeito tem uma cadeira, o presidente da Câmara tem outra cadeira, o pessoal da 18 de Julho, da Unimed, todos têm assento. Ou seja, são instituições tradicionais da cidade, com representação legítima e ativa no Conselho.
Esse Conselho é, inclusive, o responsável, todo ano, por apresentar as contas do Hospital São Salvador à comunidade.
Atualmente, o Hospital São Salvador está há quase quatro anos sem prestação de contas. Fala-se muito em transparência, mas durante a nossa gestão, anualmente, prestávamos contas à sociedade sobre tudo o que era feito dentro do hospital.
Já se passaram quase quatro anos sem que nenhuma gestão – nem a anterior, nem a atual – tenha prestado contas da situação do Hospital São Salvador. Se alguém quiser comprovar, basta acessar o Portal da Transparência: só este ano já foram destinados quase R$ 5 milhões ao Hospital São Salvador. Para comparação, na minha época, o repasse era de R$ 2,8 milhões por ano. Hoje, em menos de meio ano, já se investiu quase o dobro.
Ou seja, o Hospital São Salvador virou uma incógnita. Um serviço do qual todos falam muito, mas que não apresenta nenhuma transparência – nem por parte da gestão passada, nem pela gestão atual.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
A maioria da população alemparaibana e da microrregião por incontáveis vezes já demonstrou ser contrária à Intervenção Municipal imposta ao Hospital São Salvador. Como o senhor enxerga essa insatisfação?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Essa insatisfação se dá por conta da interferência política. Eu sempre defendi que o Hospital São Salvador é uma instituição filantrópica, uma instituição privada, e, como tal, deve ter autonomia plena. Ela deve ser livre, solta, independente.
O poder público deve, sim, pagar pelos serviços que utiliza, e ponto final. Mas, em vez disso, quiseram usar a instituição politicamente, e isso não dá certo. Enquanto a política estiver dentro do Hospital São Salvador ele não vai funcionar, e a população sente isso na pele.
Eu, pessoalmente, tenho convênio, eu posso ir para outros hospitais. Trabalho em outras instituições. A minha família terá assistência. Mas a população do dia-a-dia, que depende do Hospital São Salvador, é quem mais sofre com isso.
Essa covardia que fizeram com a instituição teve vários atingidos. Eu mesmo fui atingido – e muito – mas, sem dúvida, o mais prejudicado foi o povo. Com essa intervenção quem sofreu foi a população, e continua sofrendo até hoje.
A intervenção foi, e continua sendo, um erro. E a população já percebeu isso. Fala-se muito da gestão passada, mas a atual gestão poderia ter encerrado esse erro, e não quis. Por quê? Porque querem devolver o hospital aos amigos.
Na verdade, o erro começou na gestão anterior e permanece na atual. O Hospital São Salvador deveria ser devolvido a quem é de direito, que é o seu Egrégio Conselho. Não existe nenhuma acusação contra o Conselho. Todas as acusações feitas contra mim foram analisadas e eu fui absolvido na Justiça.
É como se pegassem sua casa e, na hora de devolvê-la, entregassem ao seu vizinho, porque ele é mais “legal” com quem está no poder. É isso que a atual gestão municipal está fazendo. Falar em “novo conselho” é apenas uma tentativa velada de manter o poder, fingindo que está devolvendo o controle.
O que está acontecendo hoje no Hospital São Salvador é isso: uma tentativa disfarçada de devolver a instituição para um grupo montado que permita que a municipalidade continue com influência direta, embora aparente não estar.
O erro que começou com o ex-prefeito continua com o atual. Ele tem a faca e o queijo na mão para resolver esse problema, para sanar essa ferida, mas opta por mantê-la aberta porque lhe interessa manter esse domínio.
Falar em um “novo conselho” é uma clara tentativa de manter a política lá dentro, de forma velada.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Quanto de recursos financeiros a municipalidade alemparaibana repassava para o Hospital São Salvador quando o senhor estava à frente da Provedoria da instituição? Onde esse dinheiro era aplicado e quanto a municipalidade passou a repassar aos interventores que o substituíram?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Na nossa época, eram repassados ao hospital R$ 228 mil mensais, o que dava uma média de aproximadamente R$ 2.700.000 por ano. Hoje em dia, estão sendo investidos no hospital cerca de R$ 10 milhões por ano. Ou seja, mais do que triplicaram o valor que era gasto durante a nossa gestão – e isso com um serviço que é o mesmo do ponto de vista estrutural.
Na nossa gestão utilizávamos esse recurso para manter o Pronto Socorro funcionando, e conseguíamos fazer isso mesmo que o valor fosse abaixo do ideal. Ainda assim, conseguíamos lidar com o orçamento e oferecíamos um bom serviço à população.
Por isso, eu insisto: o Hospital São Salvador hoje não precisa de dinheiro. Ele, hoje, tem recursos de sobra, especialmente em comparação com a nossa gestão.
Na nossa época, não fazíamos bingo, nem rifa, não íamos pedir dinheiro ao povo. A gente conseguia manter uma gestão eficiente, porque conhecíamos a realidade financeira do hospital, sabíamos como utilizar os recursos com responsabilidade.
Hoje, mesmo com muito mais dinheiro, eles não conseguem entregar um serviço com a mesma eficiência.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Em sua opinião, os interventores nomeados pelo ex-prefeito Miguel Belmiro de Souza Júnior souberam administrar a instituição? Por que?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Vou ser curto e grosso: NÃO! Foi uma coisa ridícula, marcada por total incompetência. Os gestores que foram colocados lá não entendiam absolutamente de nada. Aquilo foi, claramente, mais uma questão de orgulho e ego.
Não havia preparo, conhecimento, e os resultados estão aí para todos verem – basta observar o estado atual da instituição. E isso, mesmo com três vezes mais dinheiro do que tínhamos na nossa gestão.
Colocaram interventores com dinheiro, com apoio do poder público, e mesmo assim não conseguiram dar conta do recado. Isso só mostra uma coisa: incompetência total.
O problema maior é que eu realmente acreditava que a política iria mudar, que as coisas voltariam ao normal, mas não foi o que aconteceu. O que estamos vendo hoje é a prova de que o problema nunca foi só o ex-prefeito, mas sim a política como um todo.
É a presença da política dentro do Hospital São Salvador que destrói a instituição. Basta observar: a atual gestão também não quer sair de lá. E, se quiser sair, quer devolver o Hospital São Salvador à um conselho, sei lá o quê, montado por eles mesmos, cuja finalidade é para manter o controle indireto.
Ou seja, está claro: a política quer continuar dentro do Hospital São Salvador. A política não quer devolver a autonomia da instituição. A política não quer reconhecer o que funcionou na gestão anterior.
Chega a ser revoltante ouvir, por exemplo, o presidente da Câmara Municipal bradando que o ex-provedor destruiu a instituição. Ele está profundamente equivocado, desinformado, mal orientado.
É só olhar como o Hospital São Salvador era antes, e ver no que ele se transformou durante a minha gestão. E tudo isso foi feito sem desvio de dinheiro, sem busca por vantagem pessoal – muito pelo contrário. Eu me doei profundamente àquela instituição, e consegui transformá-la.
Tanto que todas as acusações feitas contra mim, pelo ex-prefeito, pela Câmara Municipal e por outros atores políticos, foram arquivadas por total falta de provas. Fui absolvido de tudo.
Quem foi ineficiente não fomos nós. Quem continua sendo ineficaz é a gestão atual da municipalidade, e isso está cada vez mais claro para a população.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Me lembro bem, o senhor sempre dizia que não se envolveria com a política partidária municipal de Além Paraíba. Entretanto, após a Intervenção Municipal o senhor acabou participando, tanto que se candidatou ao cargo de Prefeito de Além Paraíba. Por que essa mudança de pensamento? Como foi essa experiência? Pensa em fazer novamente?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Eu nunca pensei em me envolver com política, pois não é a minha praia. No entanto, acredito que a política municipal precisa de gestores competentes, e eu já provei minha capacidade de gestão à frente do Hospital São Salvador.
A política municipal necessita de pessoas que tenham serviços prestados com eficiência, em qualquer área que seja – Educação, Saúde, Empresarial, da Segurança Pública, etc. Não basta ser uma pessoa bacana, boa samaritana. Entretanto, nem sempre o povo pensa dessa forma.
Num processo eleitoral, na maioria das vezes, em especial em eleições municipais, as pessoas olham para o candidato sem considerar se ele realmente pode mudar a vida delas. Elas têm aquela esperança momentânea de que o período da campanha irá transformar suas vidas, quando, na verdade, essa transformação depende de outras situações, isto porque na maioria das vezes os candidatos já chegam atolados nos vícios comuns à classe política existente no país há várias gerações.
O voto é um poder enorme nas mãos da população, mas muitos pensam que apenas depositar o voto na urna já mudará sua condição de vida, o que não é verdade. Quem muda a vida do cidadão é o cidadão. Por isso, o voto deve ser dado a quem tem a capacidade real de promover mudanças significativas na vida da população.
De certa forma eu fiquei muito decepcionado. Entrei na política com a intenção de colocar em prática o conhecimento que obtive como gestor em favor da população, especialmente após o serviço que prestei durante a pandemia da Covid-19 e ao longo dos anos em que trabalhei e trabalho na cidade.
Minha campanha foi limpa, quase sem gastos, e acho que até tivemos uma votação expressiva. Contudo, o povo pensa diferente: troca o voto por migalhas e, durante quatro anos, acaba vendo exemplos como o que está acontecendo recentemente no que diz respeito as funerárias.
Posso garantir que, comigo, isso jamais aconteceria. Enfim, bola para frente.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Com um novo gestor à frente da municipalidade, no caso específico o agora prefeito Paulo Henrique Marinho Goldstein, é fato ou fake de que ele o teria convidado para ocupar um cargo na sua gestão?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Não. Nunca fui convidado pelo prefeito, nem por ninguém, nem para entender como funciona a instituição.
Eu acredito que Além Paraíba despreza as pessoas boas da cidade, e por isso a cidade não retém profissionais competentes. Nenhum bom médico ou empresário quer permanecer aqui, porque Além Paraíba não valoriza as pessoas boas que possui.
Nem mesmo fui procurado para ser consultado sobre o funcionamento do Hospital São Salvador, como: “Olha, na sua época funcionava bem, deixe que a gente entenda o que você fazia para que isso acontecesse”. Se tivessem me procurado, poderia até contribuir mostrando o caminho, explicando os procedimentos de bloqueio judicial, que já existiam na nossa época, existem agora e existirão sempre.
Mesmo se tivesse sido procurado, eu não entraria no Hospital São Salvador enquanto a política continuar dentro da instituição, pois não concordo com isso. É algo contra o qual sempre lutei e não seria hipócrita em aceitar hoje.
Portanto, enquanto a política estiver dentro da instituição Hospital São Salvador, nem como médico eu entro lá. Tenho muita consideração pelos pacientes, e sim, tenho meu consultório e todos têm acesso a mim. Infelizmente, o São Salvador está dominado pela política, e enquanto isso ocorrer, eu não participo, nem como médico.
Tenho princípios e os sigo firmemente. Saí do Hospital São Salvador “arrancado” pela política, mas de cabeça erguida. Mesmo tendo sofrido ataques e críticas, tenho certeza do bom trabalho que lá fiz.
Até hoje, todas as acusações contra mim, inclusive as relacionadas a contratos ou desvios, não prosperaram, pois não existem e nunca existirão provas contra o trabalho que lá fiz. Saí de lá com a cabeça erguida e hoje, ainda mais firme mantenho minha cabeça de pé.
Jamais! Jamais voltarei ao Hospital São Salvador enquanto a política que me expulsou estiver presente. Isso é algo impossível de acontecer.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Como o senhor vê a atual administração municipal que não revogou o Decreto de Intervenção Municipal imposta ao Hospital São Salvador, não devolvendo a instituição hospitalar a quem de direito, no caso específico ao seu Egrégio Conselho?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Essa falta de devolução do Hospital São Salvador ao seu Egrégio Conselho demonstra que o político quer continuar lá dentro. Dizem que não, mas isso é uma mentira deslavada. Eles querem mesmo é estar no controle.
Ficam com esse discurso de que como vamos devolver o hospital do jeito que está? Mas devolver é muito simples: basta fazer as contas de quanto a municipalidade fez de dívida lá dentro, uma dívida que, se dividida, daria para pagar aos poucos, parceladamente.
Essa dívida é da municipalidade, não do Conselho, que é quem realmente gere o Hospital São Salvador. A instituição não pertence a Prefeitura Municipal de Além Paraíba.
Porém, o político quer continuar lá dentro. Hoje se fala em montar um novo Conselho, ou Associação como queiram apelidar, porque a prefeitura em verdade quer é manter sua influência de forma velada.
Quando falam em um novo conselho, na verdade a prefeitura está dizendo: “Vou fingir que saio, mas continuarei mandando de dentro”. Essa estratégia, porém, não vai funcionar.
O hospital precisa ter autonomia! Autonomia real!
Os empresários sempre ajudaram muito o Hospital São Salvador, e essa ajuda é importante, sim. Eles dão uma contribuição aqui, outra ali, o que é muito bacana.
Os empresários podem ser parceiros do Hospital São Salvador, mas a gestão da instituição hospitalar precisa ser autônoma. Os empresários devem cuidar é de suas empresas.
A instituição precisa ter autonomia para tomar suas decisões, para brigar com a municipalidade quando for necessário, para exigir seus direitos.
É muito melhor ganhar um quinto do que você ganha hoje, mas ter autonomia para gerir a instituição da forma correta.
O que é certo para o político nem sempre é o certo para a população. Muitas vezes, o que é certo para o político é exatamente o contrário do que é o melhor para o povo. Um exemplo claro disso são os recentes casos envolvendo as funerárias.
Por isso, hoje em dia, eu achava que as coisas iriam mudar, mas pelo que vejo na cidade como um todo, continua tudo igual, pior até do que antes.
No Hospital São Salvador, infelizmente, a mesma situação se repete.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
O senhor tem conhecimento de quanto é a dívida atual do Hospital São Salvador? Quanto era a dívida quando assumiste a Provedoria e em quanto ela estava quando sofreste a intervenção municipal?
DR. RAFAEL GRACIOLI
Nós pegamos o Hospital São Salvador com uma dívida em torno de 17 a 18 milhões de reais – na verdade, um pouco mais.
Saímos da instituição pela Intervenção imposta e a dívida estava reduzida para 9 milhões de reais. Esse dado foi amplamente divulgado pela imprensa, e houve um levantamento feito pela Prefeitura Municipal quando promoveu o Decreto de Intervenção Municipal.
Durante essa intervenção, foi realizada uma Auditoria Interna, que não encontrou nenhuma inconsistência. A prefeitura gastou quase R$ 50 mil nessa auditoria, porém nunca divulgou o resultado.
Solicitamos o acesso a essa Auditoria à atual gestão municipal, mas nos negaram o direito de ver o resultado, o que comprova que não havia irregularidades em nossa gestão junto ao Hospital São Salvador.
Em resumo, conseguimos reduzir uma dívida pela metade em 10 anos, enquanto a gestão interventora conseguiu triplicar essa dívida, que hoje já passa de R$ 30 milhões.
Isso demonstra uma ineficiência absurda na gestão atual, causada pela interferência política. Nós conseguimos realizar uma gestão eficiente e profissional, diminuindo significativamente o endividamento, enquanto a atual administração tem se mostrado totalmente amadora e incompetente, resultando no aumento expressivo da dívida.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Inúmeras ações judiciais contra o vosso nome e de outras pessoas que colaboravam com a sua gestão junto a Provedoria do Hospital São Salvador foram impostas pelo Ministério Público de Minas Gerais, tendo por aval a gestão municipal que impôs a intervenção municipal naquela Instituição Hospitalar que nunca foi municipal. O senhor poderia fazer um relato sobre essas ações e qual foi o resultado final das mesmas?
DR. RAFAEL GRACIOLI
A meu ver, essas ações foram totalmente equivocadas e covardes por parte do Ministério Público. Acredito que não foi levado em consideração o meu profissionalismo, minha história na cidade e os resultados que obtive à frente do Hospital São Salvador.
As acusações feitas contra mim eram de que eu não teria trabalhado e que deveria devolver valores de plantão que eles alegavam que eu não cumprira, mesmo com a população sabendo que eu estava presente no dia-a-dia da instituição. Portanto, fiquei muito tranquilo em relação a isso.
O problema foi a maneira como o Ministério Público conduziu o caso. Na minha opinião, foi algo muito equivocado e que exige um cuidado muito grande. Mesmo sendo absolvido de todas as ações, tanto em primeira quanto em segunda instância, o Ministério Público insistiu na perseguição.
Eles agiram de forma injusta com um pai de família, com um médico, não com um criminoso ou traficante. Tenho uma história na cidade e acredito que a forma como o Ministério Público lidou com o caso foi inadequada.
O resultado está aí: fui absolvido de tudo. O Ministério Público gastou recursos públicos, prejudicou uma família, mesmo sem nenhuma condenação.
Além disso, passamos por humilhações, gastos com advogados e até apreensão de bens. Mas sempre mantive a cabeça erguida e poderia ter saído da cidade, mas não o fiz, pois tenho certeza da minha honestidade. Que tipo de pai eu seria se abandonasse meus filhos? Meu maior orgulho é minha honestidade.
Portanto, hoje está aí a prova para quem duvidou de mim.
Acredito que essas ações foram totalmente politizadas, um absurdo que atingiu não só a mim, mas toda a população de Além Paraíba. Essas ações prejudicaram muito a instituição, que ainda sofre as consequências dessas acusações injustas, que não resultaram em nada, graças a Deus.
Sempre disse e tenho certeza da minha honestidade. A vida segue, e essas experiências são aprendizados.
Cheguei a essa cidade há 22 anos, a mais tempo do que muitos dos promotores e juízes envolvidos nesses casos. Tive a sorte de ter um juiz sério e imparcial, cuja decisão foi confirmada em segunda instância, o que me traz muita tranquilidade e alívio.
No entanto, a maior prejudicada foi a população, que sofreu com todo esse processo.
JORNAL ALÉM PARAHYBA
Finalizando, fica em aberto todas as considerações que o senhor gostaria qaue fossem levadas até a comunidade alemparaibana e da microrregião que sempre confiou na instituição Hospital São Salvador, hoje em dia sob um olha de grande desconfiança de boa parcela desta mesma comunidade.
DR. RAFAEL GRACIOLI
O Hospital São Salvador, quando eu assumi, enfrentava o maior problema de todos: a falta de credibilidade. Esse era o grande desafio. A instituição havia passado por uma gestão de dez anos que conseguiu gerar credibilidade junto à população. O povo sabia que havia alguém ali que olhava por eles, que zelava pela instituição.
Era uma gestão presente, que andava pelos corredores, observava se havia teias de aranha no teto. Nunca dependemos de doações, embora sempre tenham sido bem-vindas. No entanto, nunca foi necessário pedir dinheiro ao povo para comprar lençol, porque sabíamos gerir os recursos. Da mesma forma, nunca pedimos ajuda para comprar carne moída. Sabíamos administrar os valores disponíveis.
Hoje em dia, fala-se muito em doação. O hospital agora é gerido pela municipalidade, que é a responsável pela sua administração. Acho que, atualmente, qualquer cidadão acharia absurdo a Prefeitura fazer uma campanha para arrecadar dinheiro para comprar remédios para o posto de saúde da esquina, mas é exatamente isso que está fazendo em relação ao Hospital São Salvador.
A Prefeitura tem obrigação de manter os processos e a estrutura do São Salvador. Não é a população que tem que fazer isso. A população doa, ajuda, colabora, porque é um povo solidário. Mas, na prática, o hospital não precisa de dinheiro – ele precisa de gestão, e quem deve fazer isso é a Prefeitura.
Por que a Prefeitura não devolve o hospital? Porque quer estar lá dentro. A política quer estar lá dentro. Dizem que não, mas é mentira. Querem estar lá e, quando saírem, querem entregar a gestão a alguém de confiança, para continuar mantendo o poder sobre a instituição.
O povo de Além Paraíba é muito simples. Eu acredito que precisamos mudar essa mentalidade. O povo precisa entender que tem voz, que pode e deve cobrar, mas ainda existe muito medo. Esse medo está diminuindo aos poucos, mas ainda existe. O povo teme se manifestar, cobrar seus direitos.
É preciso entender que o hospital não é mais o que era antes. Não é mais aquela instituição filantrópica, apesar de ainda ser no papel. Quem é obrigado hoje a manter o hospital é a Prefeitura. Então, quando a Prefeitura pede a você, cidadão, para comprar uma rifa, ela está, mais uma vez, assinando sua própria incompetência. É ela quem deveria estar fazendo isso. É dela a obrigação.
Seria como a Prefeitura pedir dinheiro para você pagar um exame no posto de saúde. É isso o que está fazendo com o São Salvador: pedindo para você comprar uma cartela de bingo para custear um tratamento que é de responsabilidade dela. O hospital é gerido por ela. É um absurdo gigantesco, algo que não entra na minha cabeça.
Mas o povo é bom, é generoso, quer ajudar. O brasileiro é assim, pensa dessa forma. Mas, se você parar para raciocinar, o responsável pelo hospital hoje é a Prefeitura. Você daria dinheiro à Prefeitura para comprar o Captopril que você retira no posto? Jamais. Mas hoje você doa ao hospital, porque eles ainda conseguem usar o nome do “coitadinho” do São Salvador.
Só que o São Salvador não é mais coitadinho. É uma instituição que deve ser bem gerida, e não está sendo. Infelizmente, a credibilidade do hospital só piora, e com razão.
Eu, particularmente, se precisar internar um familiar e tiver convênio, não levo ao São Salvador. Porque eu não confio no que acontece lá dentro. Como médico, não entro lá, pois não tenho segurança e não concordo com a política que se instalou.
A grande mudança do hospital só acontecerá quando a política sair de lá. Mas acho muito difícil isso acontecer, porque a política se entranhou na instituição. Eles não querem sair. Sabem que o hospital é um local onde podem colocar o dinheiro que quiserem e ninguém sabe para onde vai.
Não estou dizendo que isso está acontecendo, mas que pode acontecer. E o simples fato de poder acontecer já é gravíssimo. Infelizmente, a política conseguiu destruir a instituição.
Antes, as reclamações eram pontuais durante minha gestão. Hoje, são rotineiras. É muito triste. Fico realmente triste com tudo isso. Desejo boa sorte a todos e espero, sinceramente, que a situação se resolva em breve, embora não acredite nisso. Não acredito que haverá solução de maneira pacífica, mas torço para que tudo dê certo.
Quando a gestão mudou, achei que seria diferente. Mas, hoje, depois de seis meses, percebo que é mais do mesmo. Nada mudou. São os mesmos pensamentos políticos. Na verdade, não são dois grupos políticos, é um grupo só que se fundiu. O pensamento do grupo anterior se alinha ao atual, com algumas mudanças sutis.
Eu me sinto muito confortável em dizer isso, porque não dependo da Prefeitura, não trabalho para a Prefeitura e não dependo do hospital. Por isso, posso falar com liberdade, embora com muita tristeza.
Quem achou que haveria alguma mudança na cidade, como eu, se enganou completamente. Uma pena. Mas desejo boa sorte a todos e agradeço pela oportunidade. Vida que segue.



