Ocorrência com pipas: Mais de 42 mil clientes ficam sem energia elétrica na Zona da Mata
Estado registra mais de 850 ocorrências com pipas na rede elétrica em cinco meses; uso de cerol e linha chilena aumenta risco de acidentes graves e pode ser considerado crime.

Ocorrências entre pipas e a rede elétrica têm sido frequentes em Minas Gerais, segundo dados da Cemig. Apenas nos cinco primeiros meses de 2025, 248 mil unidades tiveram o fornecimento de energia interrompido devido a intercorrências do tipo. Segundo a empresa, foram registradas 853 ocorrências no estado, sendo 109 na Zona da Mata – quase uma por dia entre janeiro e maio, mantendo o padrão do ano anterior. Na região, mais de 42 mil clientes foram afetados.
Em 2024, o cenário também foi preocupante: 765 mil consumidores ficaram sem energia após 2.664 ocorrências. Na Zona da Mata, foram 64 mil clientes impactados e 369 incidentes – média de uma ocorrência por dia.
Segundo a Cemig, a maioria dos casos é provocada pelo uso de cerol e linha chilena, materiais proibidos por lei, que aumentam o risco de choques elétricos e acidentes graves. O problema se intensifica durante o período de ventos mais fortes, quando a prática de soltar pipas se torna mais comum entre crianças e adolescentes.
Risco de morte
As consequências vão além da interrupção do fornecimento. O risco aumenta quando linhas cortantes ou objetos metálicos entram em contato com a rede elétrica. “Caso a pipa fique presa em um componente da rede, a pessoa pode sofrer um choque de até 13.800 volts”, alerta o técnico de segurança da Cemig, César de Jesus Souza.
Ele ressalta que soltar pipas em áreas urbanas se tornou inviável. A recomendação é realizar a atividade apenas em locais abertos e afastados da rede elétrica. Por isso, é fundamental que pais e responsáveis orientem as crianças para evitar acidentes.
Outro perigo recorrente é tentar resgatar pipas presas nos cabos. A Cemig alerta que a prática é extremamente arriscada, especialmente quando há o uso de materiais condutores, como arames e fios metálicos, que podem se energizar ao tocar os cabos da rede.
A aproximação indevida da rede, principalmente com o uso de materiais como arames e fios metálicos pode intensificar o risco de morte, por se tratarem de materiais altamente condutores e que acabam sendo energizados ao tocar os cabos da rede de energia.
Lei estadual proíbe cerol e linha chilena
Desde 2019, Minas Gerais conta com a Lei 23.515/2019, que proíbe a comercialização e o uso de linhas cortantes. A norma prevê multas entre R$ 5.531 e R$ 276 mil em caso de reincidência. Se a infração envolver crianças ou adolescentes, os pais ou responsáveis são notificados, e o caso pode ser encaminhado ao Conselho Tutelar.
Além da legislação estadual, o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais destaca que o uso de cerol, linha chilena ou qualquer outro tipo de linha cortante pode configurar crime, com base nos artigos 129, 132 e 278 do Código Penal e no artigo 37 da Lei das Contravenções Penais. Em caso de envolvimento de menores, há possibilidade de apreensão e encaminhamento às autoridades competentes..
Perigo real
O cerol, feito com cola e vidro moído ou pó de ferro, transforma a linha em um objeto extremamente cortante. A linha chilena, produzida industrialmente com pó de quartzo e óxido de alumínio, é ainda mais agressiva. Segundo a cartilha dos bombeiros, essas linhas podem causar cortes profundos e provocar choques elétricos em contato com fios energizados.
Motociclistas e ciclistas estão entre os mais vulneráveis. Há registros frequentes de ferimentos graves no rosto e pescoço, especialmente quando circulam sem proteção. Por isso, a recomendação é usar antenas corta-pipas, capacetes com viseira abaixada e protetores de pescoço.
Bombeiros reforçam orientações
O Corpo de Bombeiros também atua na prevenção. Em cartilha educativa, a corporação alerta sobre os riscos e orienta o uso responsável das pipas.
Entre as principais recomendações estão: não empinar pipas em dias de chuva ou com relâmpagos, evitar áreas próximas à rede elétrica ou vias com tráfego intenso e jamais tentar recuperar pipas presas em postes ou fios. A preferência deve ser por locais abertos e seguros, como praças, parques e campos de futebol. Em caso de acidentes, a orientação é não remover as linhas e acionar imediatamente o 193.
Para motociclistas, além dos equipamentos de segurança, é essencial redobrar a atenção em áreas onde crianças soltam pipas. A população também pode denunciar o uso de cerol e linha chilena pelos telefones 190 (Polícia Militar) ou 181 (Disque Denúncia Unificado).
‘Conscientização deve vir antes da punição’
O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, por meio do tenente João Vitor, do 4º Batalhão de Juiz de Fora, reforça os cuidados durante a temporada de ventos. Segundo ele, apesar de ser uma atividade de lazer, soltar pipas envolve riscos sérios, que podem ser fatais.
“O mais comum é o uso de linhas cortantes, como cerol e linha chilena, que podem causar acidentes graves e até mortes”, afirma.
Além dos riscos para quem manuseia as linhas, o tenente destaca a vulnerabilidade dos motociclistas, que podem não ver a linha esticada e sofrer cortes no pescoço, com risco de morte. Ele também alerta para a condutividade elétrica das linhas adulteradas, que pode causar descargas em contato com a rede elétrica.
Outra prática perigosa é buscar locais altos e instáveis, como telhados e barrancos, para empinar pipas. “Muitos andam de costas, focados na pipa, e acabam caindo”, alerta. Correr atrás de pipas em queda também é arriscado, principalmente ao atravessar ruas ou utilizar veículos. “As pessoas acabam se acidentando ou sendo atropeladas por não prestarem atenção ao redor.”
Fonte: Tribuna de Minas – Por Pedro Moysés



