Angustura, terra de gente boa que sempre me trazem boas lembranças
Por Flávio Senra (*)
Sebastião Evaristo e João Batista Viera Vidal. (Fotos: Arquivo Jornal Além Parahyba)
Por volta dos meados dos anos 90, por razões pessoais fui passar uns dias na vila de Angustura onde acabei residindo por pouco mais de 8 anos e meio.
Poucas vezes até aquela ocasião havia visitado aquela localidade que, mesmo que alguns poucos não gostam que eu admita, passei a ter grande carinho e até mesmo tenho como referência familiar. Não que lá tenha nascido, mas também pelo fato de que meu bisavô materno, Antônio Pereira de Jesus, o Coronel Tonico Pereira, lá foi um próspero e honrado produtor rural, dono de um caráter ilibado e grande generosidade. Uma de suas filhas, minha avó materna Olga Pereira Senra, casada com Raul Ferreira Senra, lá nasceu, estudou e foi criada, daí me considero tão angusturense como os tantos que foram abençoados com o nascimento em terra tão distinta e, porque não dizer, maravilhosa – e que vá plantar batatas aqueles poucos que não aceitem o que reservo no direito de assim pensar…
A Angustura que conheci e conheço sempre me reservou bons momentos no período em que lá residi e ainda visito com frequência. Conquistei inúmeros amigos com quem sempre trocava e troco até hoje longos e preciosos bate-papos sobre política em geral, futebol, o dia-a-dia de nossa cidade, etc., em especial os problemas que sempre afligiram e ainda afligem sua gente, na maioria das vezes negligenciada pelo poder público. Mas isso é conversa para outra hora…
Dois nomes apenas citarei entre os tantos que conheci e conheço que lá residem ou residiram, e espero que quem aqui não terá o seu nome citado que me desculpe, mas esse dois angusturenses com certeza merecem não somente o meu aplauso mas também de todos aqueles que amam aquela terra abençoada de Madre de Deus do Angu, depois Angustura. São eles: Sebastião Evaristo, o Tião Evaristo, e João Batista Vieira Vidal, este um dos mais aclamados historiadores alemparaibanos, conhecedor profundo da história e de casos e causos da boa terra angusturense.
Tião foi e sempre será um grande amigo – um verdadeiro cão de guarda que ao longo de vários anos cuidou do quintal onde residi e fez uma belíssima horta. Posso até assegurar que me foi um irmão mais velho que mesmo pouco letrado sempre me repassou sábios conselhos que somente os mais vividos e atingidos pelas dificuldades de sobrevivência possuem o dom de repassar aos seus semelhantes.
Foi um pai postiço que mostrou grande preocupação quando passei semanas de agonia no leito de um hospital. Um amigo que sempre me brindou com a garapa e melado que fabricava com espero em sua residência. Um fiel parceiro e escudeiro das horas boas e ruins, sempre gargalhando e arrancados gostosas gargalhadas com suas caretas e também dividindo o choro quando em certas horas este viesse me atingir.
Tião tinha um jeito diferente de pronunciar algumas palavras que não conseguia falar corretamente. Certa vez, numa audiência no Fórum “Nelson Hungria” onde serviu como testemunha de um assassinato registrado em Angustura, a Promotoria de Justiça lhe perguntou se conhecia os acusados pelo crime. Com sua verve peculiar, respondeu bem alto na Sala do Tribunal: “Celência, eles são pessoas insívis”. Um ar de interrogação tomou conta do local fazendo com que todos os presentes ficassem com os olhos arregalados. Sem entender o dito por Tião, o juiz repetiu a indagação da Promotoria: “Senhor Sebastião, o senhor conhece os acusados?”. Na lata ele respondeu encarando o magistrado: “Celência, eles são pessoas insívis”.
Sem entender direito o significado daquela palavra, o juiz indagou-lhe o que seriam “insívis”. Sem pestanejar ele respondeu: “Dotô, insívis é aquela pessoa que é igual a gente mas é fraca da mente”. Sem conter o riso o juiz acabou interpretando que a palavra dita seria insensível e imediatamente dispensou Tião Evaristo do banco de testemunhas que acabou tomando seu rumo todo saltitante e feliz por ter participado de um evento onde grandes personalidades, como um Juiz de Direito, um Promotor de Justiça, advogados e jurados das mais diversas profissões, como professores, comerciantes, servidores públicos e profissionais liberais, com ele dividiram o espaço e a importância num mesmo local.
Infelizmente, após uma luta férrea contra um câncer, no dia 08 de fevereiro de 2013, com 77 anos, meu confrade Tião Evaristo partiu após ter trilhado um longo caminho em que deixou alegria para todos aqueles que o conheceram de perto. Num gesto que guardarei para sempre na memória, seus familiares, reconhecendo uma amizade que até os dias de hoje guardo na lembrança, me presentearam com o seu maior tesouro: o pandeiro que tocava acompanhando calangos e outras cantorias.
O outro nome que muito me dignificou nas boas terras angusturense foi do historiador e professor João Batista Vieira Vidal, com quem quase que diariamente visitava ao entardecer para ouvir casos e causos relacionados àquela vila onde constituiu família e deixou um legado de real importância para a posteridade de Angustura.
Tão logo fui residir na boa terra natal de minha avó, me senti na obrigação de fazer uma visita àquele que somente conhecia pelo nome – João Batista Vieira Vidal. Logo nesta primeira visita, onde fui recebido com um certo olhar inquisidor, vi que aquela encontro não ficaria apenas numa única vez. Quem me levou até ele foi um velho conhecido, leal parceiro da ocasião da gestão do ex-prefeito Elias Fadel Sahione, parceiro na primeira campanha à prefeito de Serginho Ribeiro, de nome Sérgio Denis Pitassi, o Serginho Carne Seca. A visita foi demorada e agradável, valendo ressaltar que sempre gostei de bater papo com pessoas de mais idade já que estas sempre nos trazem grande aprendizado.
Desta primeira visita outras foram surgiram como fossem um vício, me trazendo uma satisfação peculiar já que o “Velho” Vidal, como assim o tratava às vezes, me foi apresentando seus escritos sobre a boa terra banhada pelo Rio Angu. Através de seus textos passei a conhecer boa parte da história angusturense, seus moradores ilustres e até mesmo os não tão ilustres a quem sempre tratou com igualdade e respeito.
Um de seus filhos, César Luiz, recentemente falecido, já conhecia através de sua esposa Martha, uma velha amiga de adolescência com quem este namorava em Além Paraíba por ocasião em que trabalhava no extinto Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais, depois Bemge. E aos poucos, através de suas narrativas tomei conhecimento da grande e respeitosa família que constituíra através de sua união com Maria do Carmo Lima Vidal, a dona Carmita, professora e ex-diretora da Escola Estadual Barão de São Geraldo.
A história de vida do “Velho” Vidal, devo ressaltar, em certos momentos se confunde até mesmo com a com a história do Brasil, isto porque, quando tinha apenas 18 anos, participara diretamente de uma das mais importantes páginas de nossa história, a Revolução de 1930, sob o comando do general Mena Barreto.
Nascido em 22 de abril de 1912, na Fazenda do Bom Destino, localizada no distrito de Providência, no município de Leopoldina (MG), era o nono dos doze filhos de Sebastião Lutterbach Vidal e Virgínia Vieira Vidal. Sua história se resumia na simplicidade, no carinho e amor dedicado aos familiares e amigos, no caráter ilibado, na inteligência e na sua devoção a Deus.
Após participar da revolução de 1930 como já relatado anteriormente, no ano de 1936, após sofrer um grave acidente na Capital Federal que marcou para sempre uma de suas pernas, foi residir em Angustura, onde foi trabalhar como administrador na fazenda de Avelino Soares Vieira, no plantio de algodão e manejo de gado leiteiro. Naquela fazenda, conheceu e enamorou-se de Maria do Carmo Lima, coincidentemente irmã de seu patrão, casando-se em 04 de abril de 1940. Maria do Carmo, filha de Antônio Gonçalves Lima e Júlia Gonçalves Lima, nasceu em 26 de maio de 1914, era professora e foi diretora da Escola Estadual Barão de São Geraldo, tendo exercido por longos anos, também, o cargo de Inspetora Estadual de Ensino.
Em outubro de 1941, recebeu um convite do coronel Alencastro Guimarães, diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, para comandar uma legião de homens na extração de madeira para a fabricação de madeira para o uso em dormentes e carvão vegetal. Mudou-se, então, para Bananal (SP), e em 1945, logo após o término da Segunda Grande Guerra Mundial, foi administrar, em Arapeí, pequeno distrito de Bananal, a Fazenda São Luiz, e, a seguir, as Fazendas Três Barras e Esperança, pertencentes ao Dr. César Pires de Melo, diretor da Cooperativa de Leite do Rio de Janeiro. Em Bananal, nasceram seus três filhos – Vera Maria, César Luiz de Humberto José, o Quinha, todos já falecidos. Naquele município paulista exerceu os cargos de Juiz de Paz e vereador.
Em fevereiro de 1953, com sua família retornou para Angustura, onde foi eleito Juiz de Paz (de 1954 a 1958) e vereador do município de Além Paraíba (de 1958 a 1962 e de 1963 a 1966). Também foi administrador e professor do Patronato de Menores “Oscar Teixeira Marinho” (de 1957 a 1969); fundou, com sua filha Vera Maria e os amigos José Loyola e Pedro de Freitas, o jornal “A Voz de Angustura”; exerceu o cargo de arquivista do patrimônio da Paróquia de Madre de Deus de Angustura; foi Ministro da Eucaristia e um dos responsáveis pelas obras de restauração da Igreja Matriz da localidade à ocasião das comemorações de seu centenário.
Em 1977, já aposentado, o “Velho” Vidal começou a se dedicar à anotação de dados sobre a história de Angustura. O trabalho resultou na edição de um livro, largamente aplaudido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, instituição de que era membro. Seu livro e suas anotações são o mais completo relato da história do centenário distrito alemparaibano.
Em 1985, a tristeza invadiu o coração generoso do historiador e de sua família com o falecimento da neta Valéria, filha de Vera Maria e Mauro Toledo Fernandes. Quatro anos depois, em 02 de dezembro de 1989, a dor aumentou ainda mais com a morte de Maria do Carmo Lima Vidal, companheira amiga e leal dos bons e dos amargos momentos. Em 1993, perdeu, também, a querida e amada filha Vera Maria. Enquanto viveu, o historiador sempre se lembrou com imensa saudade das três, sempre afirmando que aquelas perdas arrancaram-lhe parte do coração.
O orgulho pelos filhos César Luiz e Humberto José, era imenso. Dos filhos, do genro Mauro, das noras Martha e Itacira, e dos netos Mauro, Daniela, Denise, Thaís e Cezinha, sempre se referia com amor e admiração. E sobre Angustura, terra que adotou como natal, sua sinceridade jamais permitiu esconder o carinho aos amigos que conquistou na localidade, destes adquirindo respeito e amizade.
Através dele, com quem sempre fiz questão de visitar e ouvir suas histórias, casos e causos, viajei no tempo e no espaço por incontáveis vezes. Certa ocasião, num evento que promovi e organizei sem qualquer auxílio dos poderes públicos alemparaibanos, fiz questão de homenageá-lo juntamente com outro angusturense ilustre, o músico Ed Bernard, reconhecido internacionalmente – à eles dediquei troféus num encontro das duas centenárias bandas de música alemparaibanas, a Sete de Setembro e a Carlos Gomes.
Na madrugada do dia 27 de outubro de 2003, infelizmente, recebi a triste notícia de que meu caro “Velho” Vidal, o nosso João Batista Vieira Vidal, aos 92 anos de idade, havia falecido em Niterói (RJ), vítima de infecção hospitalar adquirida aos se submeter a uma intervenção cirúrgica para a colocação de um marca-passo. Por volta das 09 horas da manhã daquele mesmo dia, que estava iluminada com o clarão de um belíssimo sol dourado, seu corpo inerte e frio chegou às terras angusturenses, e como estivessem fazendo reverência ao generoso coração que deixara de bater, a chácara onde residia e foi velado encheu-se com o som de cigarras e pássaros, o que foi definido por alguns amigos que foram lhe dar um último adeus como uma dádiva de Deus.
Às 16 horas, seu corpo deixou aquela aprazível chácara e seguiu em direção à Igreja Matriz de Madre de Deus de Angustura, onde foi celebrada uma missa. Literalmente lotada por familiares, amigos e admiradores que foram dedicar um último adeus, o templo foi tomado pela emoção e lágrimas. Terminada a cerimônia religiosa, seguido de um imenso cortejo, João Batista Vieira Vidal, o meu sempre grande amigo “Velho” Vidal, foi levado até o Campo Santo angusturense, onde repousa em definitivo.
Esta é a Angustura que conheço e admiro, terra de gente boa, como meus caros e inestimáveis amigos Tião Evaristo e o “Velho” Vidal, que sempre me trazem boas lembranças.
Obrigado a todos pelo tempo que dedicaram a este relato sobre esses dois grandes cidadãos que a boa terra angusturense me presenteou…
(*) Flávio Senra é o editor, desde 1993, do Jornal Além Parahyba





