Iniciadas as obras de reforma/restauração da antiga sede da Prefeitura Municipal de Além Paraíba
“Carijó: a Dama do Centenário”, obra do escultor alemparaibano José Heitor da Silva, terá lugar de destaque no centenário prédio que voltará a abrigar a municipalidade.

Em conversa informal realizada na semana passada, quarta-feira (12), com Flávio Senra, editor do Jornal Além Parahyda, o prefeito Dr. Paulo Henrique Marinho Goldstein revelou que as obras de reforma/restauração da antiga sede da municipalidade de Além Paraíba já foram iniciadas e que, ainda no próximo ano de 2026, lá estará despachando oficialmente.
Sem revelar a data da reabertura oficial da antiga sede do município, o prefeito salientou que é lá que passará a atender, ainda no próximo ano, as demandas da população, procurando fazer de tudo para melhorar as condições em que encontrou o município.
Na conversa, Dr. Paulo ainda relatou que o centenário prédio também abrigará uma das mais importantes e emblemáticas obras do escultor alemparaibano José Heitor da Silva, a “Carijó: a Dama do Centenário”, cuja aquisição através dos cofres públicos municipais está sendo finalizada através dos trâmites jurídicos da municipalidade. Segundo o prefeito, o entendimento sobre essa transação financeira se deve a manter em definitivo a histórica obra junto ao município, e custará R$ 30 mil. “Em verdade, o valor até acreditamos ser simbólico, isto porque no mercado de artes nacional ela certamente vale muito mais, sem contar que o que ela representa na história de Além Paraíba é incalculável”, relatou o prefeito.
Outras obras de artistas alemparaibanos, muitas já fazendo parte do acervo no município, também serão abrigadas no centenário prédio existente no bairro de São José.
Vale ressaltar, na semana passada, sexta-feira (14), José Heitor comemorou o seu 88º aniversário de nascimento…
Carijó: A Dama do Centenário

Apresentada ao povo alemparaibano e visitantes quando das comemorações dos 100 anos de emancipação político-administrativa de Além Paraíba no dia 28 de setembro de 1983, a escultura “Carijó”, batizada por José Heitor como “A Dama do Centenário”, foi esculpida numa peça de vinhático onde as mãos mágicas do artista alemparaibano mostraram uma personagem das ruas da cidade cuja sorte nunca lhe foi favorável.
De origem modesta, Adelaide, como era o seu nome, “Carijó”, como relatou o alemparaibano-cataguasense Carlos Torres Moura, “resume os tipos universais das cidades do interior do Brasil”. Perambulava pelas ruas da cidade, acompanhada de dois filhos menores, clamando pela generosidade do povo, quase sempre admoestada pela criançada através do apelido que mostrava não ser de seu agrado.
Nessa homenagem, o maior artista alemparaibano parece pedir desculpas em nome do povo pelo mal que muitos lhe fizeram, relatou Moura no livro “José Heitor – Esculturas em Madeira”.
Adelaide terminou seus dias abrigada no Asilo Ana Carneiro, local onde o artista a encontrou esquecida, para depois retratá-la minuciosamente, com os detalhes inseparáveis que sempre a acompanharam: a bolsa, a sombrinha e o cajado.
Para muitos, “Carijó: A Dama do Centenário”, ou simplesmente “Carijó”, é a obra maior do “Poeta da Madeira”, como foi e é sempre tratado José Heitor por Flávio Senra, editor do Jornal Além Parahyba, onde é destacada a importância do artista no cenário da arte e cultura do município alemparaibano.

Sobre José Heitor, nada melhor do que reescrever o texto de autoria de Carlos Torres Moura, documentarista e produtor cultural alemparaibano-cataguasense, que serviu como abertura de seu livro, em parceria com Rodrigo Salgado, “José Heitor: Esculturas em Madeira”. Diz o texto:
“José Heitor: o imaginário em madeira
JOSÉ HEITOR DA SILVA (Além Paraíba/MG, 1937) descobriu que sabia esculpir quando, ainda menino, pegou o barro e fez suas primeiras figuras.
Ferroviário do interior, percebeu depois, quando começou a trabalhar com madeira, que sua obra talvez não viesse a ter o alcance que ele desejava. Botou então suas esculturas debaixo do braço e, montado numa bicicleta, passou a fazer ponto num restaurante de estrada, no estado do Rio de Janeiro, divisa com sua Além Paraíba.
Ali foi descoberto pelo escritor Rosário Fusco, do movimento modernista da revista Verde, de Cataguases/MG, que apresentou seus trabalhos a amigos do Rio de Janeiro. Um deles viria a se tornar referência na vida do escultor: Abdias Nascimento, escritor, militante da consciência negra e mais tarde senador da República.
Em 1965, suas peças foram mostradas ao público carioca, no Museu de Arte Moderna. Em 1968, Abdias cria o Museu de Arte Negra, reunindo nomes importantes para uma mostra no Museu da Imagem e do Som. José Heitor vem aí se destacar com sua monumental obra-prima “Simpatia carrancuda”. Tornou-se referência em um determinado círculo intelectual do Rio. O poeta e psicanalista Carlos Fernando Fortes, que o conheceu naquela época, tornando-se o maior colecionador de suas obras, o considerava o maior escultor em madeira do Brasil.
Heitor calcula ter esculpido cerca de setecentas peças, entre elas alguma de grande tamanho, como “Os músicos”, “Sodoma e Gomorra”, “A serpente”, “Drama dos mendigos negros”, “O enterro”, “Chamego” e “Simpatia carrancuda”.
Sua arte tem, em vários momentos, uma profunda identificação com a inventividade de diversos movimentos artísticos do século XX. O rótulo de criador primitivo, ligado à cultura africana, não lhe cabe de todo. José Heitor foi muito mais do que nisso.
A partir do final dos anos setenta passa a se dedicar mais à arte sacra. São dele diversas imagens de Cristo existentes em igrejas e espaços públicos de Além Paraíba e de cidades vizinhas.
Sua vida foi marcada, também, pela restauração artesanal de prédios religiosos e, na maturidade, pela escrita, como poeta e memorialista, com livretos de cordel contando sua cidade natal e um livro de memórias publicado em 2015, “Jornada de um homem simples”.
A obra de José Heitor é de uma universalidade impressionante, misturando mitos e artes populares, bestiário, tipos do povo, crítica social, meio ambiente, visões de sonhos, reflexões pessoais. Repletas de ousadias e de invenções, com soluções inesperadas de difícil consecução em, madeira, suas peças revelam um criador que – sem nenhuma formação artística, autodidata sem ascendências, com ralo conhecimento sobre os trabalhos de gênios como Picasso ou Francis Bacon, com os quais tem paralelos surpreendentes – conseguiu moldar uma instigante coleção de imagens sobre o mundo e sobre a alma humana”.



