Cinema feito em Cataguases ganha força ao levar personagens da região para as telas
Filmes sobre Ronaldo Werneck, Maria Alcina e Ary Barroso contam com equipe formada pelo polo audiovisual e são exemplos de histórias que ultrapassam o fator local.

Nas últimas semanas, está sendo filmado em Cataguases o longa “O mundo é macio e perigoso, uma cinebiografia sobre Ronaldo Werneck”, de Murillo Azevedo. Outra produção recente a ser rodada na cidade ao longo do ano foi inspirada na cantora nascida no mesmo local, Maria Alcina, feita pela diretora e jornalista Elizabete Martins Campos. O documentário “Ary”, de André Weller, foi inspirado no ubaense Ary Barroso e também teve gravações na cidade em 2024. Essas produções não são apenas sobre figuras importantes da Zona da Mata, mas também contaram com equipes da região por trás das câmeras de cinema — e, para isso, foram necessários anos de capacitação e de um olhar que valoriza identidades locais. “Com quinze anos de experiência do nosso polo audiovisual, toda uma geração foi formada para trabalhar, e estamos vendo os frutos disso”, explica Cesar Piva, atual coordenador do Anima Park. Para ele, que também é assessor especial do polo de audiovisual de Juiz de Fora, é um momento de expansão e de constante aprendizado.
Desde que o polo audiovisual da Zona da Mata começou, em 2010, foram investidos cerca de R$ 30 milhões em 73 produções audiovisuais, sendo 38 longas, 2 séries e 43 curtas-metragens, tendo como cenário 15 cidades da região. Segundo o SEBRAE-MG, no período foram gerados mais três mil postos diretos de trabalho em diversas áreas artísticas técnicas, 20 novas empresas do setor, que resultaram no impacto de mais R$65 milhões na economia da região. Todo esse investimento resultou em uma mão de obra cada vez mais qualificada e preparada para reconhecer as histórias locais como importantes e querer contá-las à sua maneira. “Além de fazermos produções audiovisuais brasileiras, temos feito, nos últimos anos, um esforço para registrar histórias de figuras representativas da região”, destaca. No filme sobre Ronaldo Werneck, por exemplo, foi estabelecido o mínimo de 75% de participação de pessoas de Cataguases na equipe.
Para ele, isso tem o poder de transformar a identidade e o senso de pertencimento dos moradores, que também passam a se enxergar nas telas. “O audiovisual tem a capacidade não só de envolver os profissionais técnicos e artísticos, mas de revelar as características da região, sejam suas riquezas naturais, sejam seus patrimônios artísticos ou seus centros urbanos. Essas características que são próprias da nossa região são reveladas no audiovisual”, explica. À medida em que os filmes vão contando histórias de pessoas da região, passa-se a ter um sentimento de autoestima elevado, com cada vez mais pessoas se enxergando nas telas. É o que também percebe sobre a herança que deixa Humberto Mauro no audiovisual da cidade. “Ele é a nossa inspiração para acreditarmos que é possível fazer audiovisual no interior do Brasil e que é necessário revelar a diversidade cultural brasileira plural fora dos grandes centros”, destaca Cesar sobre o diretor que completa 100 anos do curta “Valadião, o Cratera” em 2025.

Do mundo ao poema e ao cinema
O reencontro entre Ronaldo Werneck e Murillo Azevedo aconteceu em Cataguases, quando o poeta e jornalista tinha acabado de completar 80 anos. “Fazia 25 ou 30 anos que não nos víamos”, comenta o diretor responsável por produções como “Hoje é dia de Maria”, “Capitu”, “A pedra do reino” e “Lavoura arcaica”, que na época estava na cidade por conta de um evento. Enquanto eles conversavam, surgiu a ideia: “Propus da gente fazer alguma coisa para marcar o aniversário e surgiu a ideia de fazer uma cinebiografia”. Ronaldo confessa que, pela paixão que sempre teve pelos filmes e pela amizade que manteve nos últimos dez anos de vida de Humberto Mauro, já tinha imaginado ele mesmo se arriscar no cinema, mas nunca que sua vida pudesse ser contada dessa maneira. “Ele construiu o roteiro com minha ajuda, mas lendo muito sobre mim. Hoje, talvez o Murillo saiba mais sobre mim que eu mesmo.”

Ainda mais porque, como Murillo já adianta, a ideia é que o longa que tem título inspirado no poema chamado “O mundo é perigoso e macio” tenha quatro partes e mais de 2h30, com gravações programadas ainda para o Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Ouro Preto. A produção audiovisual tem o patrocínio da Energisa por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e conta com o apoio cultural do Instituto Energisa e do Polo Audiovisual da Zona da Mata.
A equipe conta ainda com Patrícia Barbosa, que é de Cataguases e está fazendo a produção do filme, liderando a equipe também composta majoritariamente por pessoas da cidade. “São pessoas realmente capacitadas, com ótimo currículo e que trazem um bom custo-benefício pra gente, porque estamos dentro da cidade”, explica ela, destacando que os equipamentos também foram usados dentro da cidade. Para ela, essa escolha não foi uma obrigação, mas algo que vem acrescentando até então à estética que desejavam para o filme. “Todos já conhecem o Ronaldo e conheciam a história dele. Tinham um entendimento maior sobre o que queríamos fazer”, conclui.
Fonte: Tribuna de Minas – Por Elisabetta Mazocoli



