quarta-feira, maio 27, 2026
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O Pivete da MPB: quando a reclusão tocou as cordas

Pouca gente lembra, mas Chico Buarque, aos 17 anos, já tinha seu lado pivete. Em 1961, decidiu dar uma “volta” em um Peugeot que não era seu. Pego em flagrante com um amigo, foi obrigado a cumprir seis meses de reclusão domiciliar; nada que lembrasse prisão de verdade, afinal, ele vinha de uma família rica, influente e bem conectada. O mesmo erro, cometido por um garoto pobre negro da periferia, dificilmente terminaria apenas com uma advertência ou reclusão em casa: a lei da época, regida pelo Código de Menores de 1927, punia menores infratores de forma muito mais severa, frequentemente com internação em reformatórios, instituições conhecidas por condições precárias e disciplina rígida.

E foi nesse confinamento que Chico descobriu a música. Até então, o violão era apenas móvel decorativo em sua casa. Miúcha, a irmã pedagoga, passou-lhe acordes e harmonias aprendidas com Vinícius de Moraes, amigo íntimo da família. Cada dia preso em casa, cada nota aprendida, aproximava-o da música como um náufrago se aproxima de terra firme: de súbito, um talento latente encontrou seu caminho.

O episódio é uma ironia histórica: um erro juvenil, protegido pelo privilégio, transformou-se no motor criativo de um dos maiores artistas do país, uma das vozes que apontou as desigualdades sociais desse país para mundo. Mais não podemos negar o fato que milhares de jovens pobres eram criminalizados e enviados a instituições duras apenas por deslizes muito menores. E a parte mais triste… nada mudou, a desigualdade jurídica daquela época, e a tendência de criminalizar os mais vulneráveis, ainda existe nos dias de hoje.

Chico Buarque tornou-se mito, mas a história nos lembra que, por trás de cada obra-prima, há também a mão do contexto social, das conexões familiares e, às vezes, da sorte de nascer no lado afortunado da vida.

Fonte e imagem: Portal Universo Extremo / Texto: Paulo Henrique Lacerda