sábado, março 7, 2026
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Casos de racismo contra Vini Jr. chegam a 20 em oito anos no Real Madrid; veja todos

Denúncia no jogo entre Benfica e Real Madrid, em Portugal, amplia histórico que já atravessava a Espanha inteira.

Contra o Benfica, Vini Jr. foi vítima de racismo pela 20ª vez desde que chegou ao Real Madrid Foto: Pedro Rocha/AP

A hostilidade enfrentada por Vinicius Júnior no futebol europeu deixou de ser episódica há muito tempo. Ela tem datas, locais, protagonistas e, em alguns casos, decisões judiciais. O episódio mais recente, ocorrido no Estádio da Luz, em Lisboa, durante o duelo entre Benfica e Real Madrid pela Champions League, marcou o 20º caso de racismo sofrido pelo brasileiro desde que chegou ao clube espanhol, em 2018.

O confronto em Portugal ampliou uma lista que já atravessava a Espanha inteira. Vini Jr. foi insultado em arquibancadas, alvo de cantos racistas, gestos imitando macacos, ameaças de morte e até representado por um boneco negro pendurado em uma ponte, vestindo sua camisa. Em alguns casos, nada aconteceu. Em outros, a pressão pública e institucional resultou em condenações inéditas no país.

A perseguição levou o jogador a depor em tribunais e transformou sua trajetória esportiva também em uma batalha política e social. Em meio a um cenário historicamente permissivo com os chamados “futebol raiz” e “provocações do futebol”, La Liga e a Justiça espanhola passaram a agir com mais rigor apenas nos últimos anos – muitas vezes impulsionadas pela insistência do próprio atleta em não se calar.

Agora, com a abertura de um procedimento disciplinar pela Uefa após a acusação contra Gianluca Prestianni, o problema ultrapassa novamente as fronteiras da Espanha e chega oficialmente a Portugal.

Os 20 casos de racismo contra Vini Jr.

Um levantamento da BBC trouxe todas as vezes em que Vini Jr. foi alvo de episódios racistas no futebol europeu. Confira:

·         1º – Outubro de 2021 – Camp Nou (Barcelona): ofensas racistas durante substituição em um clássico. Caso arquivado por falta de identificação do autor;

·         2º – Março de 2022 – Mallorca: torcedores imitaram sons de macaco e gritaram para o jogador “pegar bananas”. Autoridades consideraram o ato “lamentável”, mas não criminoso;

·         3º – Março de 2022 – Programa El Chiringuito: Pedro Bravo sugeriu que Vinícius deveria “parar de agir como um macaco”. Pediu desculpas depois. Nenhuma punição aplicada;

·         4º – Setembro de 2022 – Atlético de Madrid (arredores do estádio): cantos racistas antes da partida. O Ministério Público não apresentou denúncia;

·         5º – Janeiro de 2023 – Madri: boneco negro com a camisa de Vinícius foi pendurado em uma ponte. Quatro envolvidos foram condenados a penas de prisão, depois convertidas em multas e restrições;

·         6º – Fevereiro de 2023 – Mallorca: novos insultos racistas durante partida. Sem punições esportivas relevantes;

·         7º – Março de 2023 – Barcelona (Camp Nou): ofensas reiteradas durante clássico. Caso encerrado sem sanções;

·         8º – Abril de 2023 – Valladolid: Vinícius foi novamente alvo de cânticos racistas. Investigações não avançaram;

·         9º – Maio de 2023 – Valencia (Mestalla): marco histórico: insultos levaram à paralisação do jogo. Três torcedores foram condenados a prisão – primeira sentença desse tipo na Espanha;

·         10º – Maio de 2023 – Valencia (campo): após reagir às arquibancadas, Vinícius foi expulso, gerando debate sobre a inversão de responsabilidades;

·         11º – Junho de 2023 – Redes sociais: campanhas racistas online após o episódio de Valencia. Investigações abertas, sem condenações imediatas;

·         12º – Março de 2024 – Retorno ao Mestalla: recebido com vaias em massa. Respondeu marcando dois gols e comemorando com o punho erguido;

·         13º – Março de 2024 – Atlético de Madrid x Inter (Champions League): cantos racistas contra Vinícius mesmo sem o jogador em campo. Real Madrid denunciou o caso;

·         14º – Abril de 2024 – Osasuna: gritos de “Vinícius morre” foram ouvidos no estádio. Investigação aberta;

·         15º – Junho de 2024 – Valencia (sentença): três torcedores condenados a oito meses de prisão e banimento de estádios por dois anos;

·         16º – Setembro de 2024 – Derby de Madri (internet): quatro pessoas presas por incitação ao ódio em redes sociais contra o jogador;

·         17º – Fevereiro de 2025 – Real Sociedad (Copa do Rei): árbitro acionou protocolo antirracismo; câmeras flagraram gestos racistas direcionados a Vinícius;

·         18º – Janeiro de 2026 – Copa do Rei (contra Albacete): torcedores do adversário proferiram insultos racistas. La Liga condenou publicamente;

·         19º – Fevereiro de 2026 – Benfica x Real Madrid: acusação direta contra Gianluca Prestianni. Jogo paralisado por nove minutos. Investigação da Uefa em andamento;

·         20º – Fevereiro de 2026 – Estádio da Luz (ambiente geral): hostilidade coletiva e xingamentos registrados em súmula e imagens, ampliando o caso para análise disciplinar.

“Não sou vítima. Sou algoz do racismo”

Após a condenação dos torcedores em Valencia, Vinícius explicou por que segue reagindo publicamente. O jogador disse que muitos pediram silêncio e outros afirmaram que sua luta era inútil.

“Como sempre falei, eu não sou vítima de racismo. Sou algoz de racistas. Essa condenação não é por mim, é por todas as pessoas negras”, escreveu o jogador em seu perfil no X – veja a postagem na íntegra abaixo:

@vinijr

Muitos pediram para que eu ignorasse, outros tantos disseram que minha luta era em vão e que eu deveria apenas “jogar futebol”.

Mas, como sempre disse, não sou vítima de racismo. Eu sou algoz de racistas. Essa primeira condenação penal da história da Espanha não é por mim. É por todos os pretos. 

Que os outros racistas tenham medo, vergonha e se escondam nas sombras. Caso contrário, estarei aqui para cobrar. Obrigado a La Liga e ao Real Madrid por ajudarem nessa condenação histórica. Vem mais por aí… 

Dentro de campo, o brasileiro segue decidindo jogos pelo Real Madrid. Fora dele, tornou-se o principal rosto de uma mudança lenta – e ainda insuficiente – no combate ao racismo no futebol europeu.

Fonte: Tribuna de Minas – Por Marina Borges, do Estadão Conteúdo