Trump e Lula se reuniram ontem, quinta-feira (7), na Casa Branca
Trump fala em reunião “dinâmica” e Lula cita China ao pedir mais investimentos dos EUA.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apelou para o “fator China” ao pedir mais investimentos dos EUA no Brasil durante entrevista na Embaixada em Washington ontem, quinta-feira (7), após um encontro de mais de três horas com o líder americano Donald Trump, que avaliou a reunião como “muito boa” em uma publicação na Truth Social.
A grande surpresa pós-encontro foi o cancelamento da coletiva de imprensa que os dois fariam juntos.
Segundo o petista, os EUA perderam o posto de maior parceiro comercial do Brasil ainda no século XX, depois que Pequim passou a buscar mercadorias que só o país teria a capacidade de produzir na escala demandada.
“O Brasil passou a ter a China como principal parceiro comercial por volta de 2008, quando os EUA perderam sua hegemonia. Eu disse a Trump que é importante que os EUA voltem a ter interesse nas coisas do Brasil, muitas vezes fazemos licitação internacionais e os EUA não participam, enquanto os chineses participam”, disse.
Segundo o presidente brasileiro, Washington deixou de olhar para a América Latina como um campo de oportunidades, focando seus objetivos em combater o narcotráfico, assim como a União Europeia reduziu sua atenção da região e da África após a conquista do Leste Europeu. “Agora percebem a importância da América Latina nesse mundo conturbado”, declarou.
Lula voltou a classificar a relação com Trump como “muito boa”. Ele chegou a brincar com o termo “amor à primeira vista”, uma possível referência à “boa química” mencionada pelo líder americano durante um rápido encontro nos bastidores da ONU em setembro.
Mais cedo, o presidente Donald Trump disse por meio de uma publicação na Truth Social que a reunião realizada na Casa Branca com o “dinâmico” presidente Lula foi “muito boa” e teve entre seus principais temas comércio e tarifas. O encontro ocorreu em Washington, em meio a uma tentativa dos dois governos de reduzir tensões acumuladas na relação bilateral.

“Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos muitos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. A reunião foi muito boa”, escreveu Trump.
Na mesma publicação, o presidente americano afirmou que representantes dos dois países deverão se reunir no futuro para tratar de “certos pontos-chave” discutidos no encontro. O líder republicano também disse que novas reuniões serão marcadas nos próximos meses, “conforme necessário”.
A declaração pública de Trump adotou tom positivo após uma agenda cercada de expectativa. Após a longa conversa, o presidente brasileiro publicou fotos do encontro com Trump.
Lula chegou à Casa Branca com cerca de 15 minutos de atraso e conversou com Trump a portas fechadas, numa reunião que durou cerca de 3 horas. Estava previsto uma coletiva dos dois líderes com a imprensa, mas essa coletiva não ocorreu. Lula deixou a Casa Branca rumo à Embaixada do Brasil nos EUA logo após o fim da conversa.
Dentro da chamada “visita de trabalho”, os dois presidentes também estenderam as conversas durante um almoço na Casa Branca.
Este é o segundo encontro oficial entre Trump e Lula: em outubro, eles já haviam se reunido na Malásia durante a cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), após terem se “esbarrado” na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, no mês anterior.

O encontro de ontem, quinta-feira, foi precedido por renovada trocas de farpas entre os dois governos: as críticas de Lula às ações americanas no Irã e em Cuba; a expulsão dos Estados Unidos de um delegado da Polícia Federal brasileira que havia atuado na prisão temporária do ex-deputado federal Alexandre Ramagem no país norte-americano – o governo Lula reagiu retirando as credenciais de um adido da agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) no Brasil; uma investigação americana sobre práticas comerciais brasileiras; e a intenção de Washington de declarar os grupos criminosos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, algo a que Brasília se opõe.
O petista foi acompanhado para a reunião de cinco ministros: Mauro Vieira, das Relações Exteriores; Dario Durigan, da Fazenda; Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia; Márcio Rosa, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; e Wellington César Lima e Silva, ministro da Justiça e Segurança Pública.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também faz parte da comitiva, mas não esteve no encontro dos dois líderes de Estado.
Sem acordos firmados, EUA e Brasil manterão contato pelas próximas semanas para discutir interesses
A abertura da coletiva na Embaixada do Brasil em Washington foi marcada por falas dos cinco ministros que acompanharam o presidente nos EUA. Eles detalharam o teor das conversas desta quinta-feira, que terminaram sem acordos em temas de interesse bilateral.
Os principais focos de debate no encontro foram o comércio bilateral, afetado pelas tarifas impostas pelos EUA, a cooperação no combate a crimes transnacionais e a exploração de minerais críticos.
Apesar do impasse nas negociações, Lula e sua equipe demonstraram otimismo após o encontro.
O ministro Márcio Rosa disse na coletiva que os países devem retomar o diálogo nas próximas semanas para discutir temas que carecem de resultado. Ele cita a investigação da seção 301, usada para apurar possível relação desleal de comércio por parte do Brasil, e as sobretaxas cobradas pela Casa Branca, que classificou como “não cabíveis”.
Lula fala sobre embargo em Cuba e “invasão” dos EUA no Irã
O presidente Lula disse ainda que Trump teria aberto a ele durante a reunião que tiveram na Casa Branca que não planeja invadir Cuba. “Se o que disse a tradução está correto, ele me disse que não pensa em invadir Cuba. Isso eu escutei da intérprete”, declarou o presidente durante a entrevista coletiva na embaixada brasileira em Washington.
O petista acrescentou que se colocou “plenamente à disposição” se o líder republicano “precisar de ajuda” para abordar a situação de Havana, cujo regime é um aliado do governo brasileiro.
Lula voltou a criticar a guerra no Irã, outro países aliado, dizendo que os países deveriam solucionar as diferenças no diálogo e não por meio da guerra.
“Eu acredito muito mais no diálogo do que na guerra. Eu acho que a invasão do Irã, ela vai causar mais prejuízo do que ele [Trump] está imaginando”, afirmou.
Fonte: Gazeta do Povo – Por Fábio Galão, Isabella de Paula e John Lucas



