sábado, agosto 1, 2026
DESTAQUEREGISTRO HISTÓRICO

História do Rio de Janeiro / Temporal de 1953: a ventania que assustou o Rio há 73 anos

Jornais da época registraram um dos fortes temporais mais fortes que atingiram a cidade, com rajadas de vento, estragos e transtornos para os cariocas.

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Desabamento no Jardim Botânico ocorrido no vendaval de janeiro de 1953. (Foto: Reprodução)

No dia 7 janeiro de 1953, um forte temporal surpreendeu o Rio e ganhou destaque nas páginas dos jornais daquele período. Muito antes das sirenes de alerta, dos aplicativos de previsão do tempo e dos sistemas de monitoramento, os cariocas acompanhavam pelos jornais e pelo rádio os estragos provocados pelas grandes tempestades que atingiam a cidade. Apesar de a televisão já ter sido lançada em 1951, poucas famílias possuíam um aparelho, considerado um luxo na época. A imprensa carioca registrou os impactos da tempestade, com relatos de ventos intensos, danos materiais e transtornos enfrentados pela população.

Na tarde do dia 8 de janeiro daquele ano, uma violenta mudança no tempo trouxe chuva intensa e ventania para diferentes regiões da cidade. Os jornais destacavam os impactos causados pelo fenômeno, com relatos de árvores derrubadas, danos materiais e muitos transtornos para a população.

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Chamada da capa do jornal A Manhã de janeiro de 1953. (Foto: Reprodução)

A edição da Última Hora registrou o temporal como um acontecimento de grandes proporções, destacando a força dos ventos e os prejuízos provocados pela tempestade que, segundo o jornal, durou apenas 40 minutos. O jornal A Manhã também destacou o episódio, com o título: “A cidade açoitada por terrível vendaval” mostrando como a região reagiu diante de uma das fortes instabilidades climáticas daquele verão:

Tremendo aguaceiro desabou sobre o Rio, causando mortes e provocando desabamentos, grande número de pessoas vitimadas, árvores arrancadas, vidraças espatifadas pela violência do vento, o hospital Miguel Couto, por mais de duas horas ficou às escuras, em estado desesperador no H.P.S. uma das vítimas do temporal”, informou o jornal.

Alguns bairros atingidos sofrem até hoje com chuvas e ventanias, conforme relatou o jornal da época:

 “Após o calor abrasador que se fez sentir durante todo os dia de ontem, violento temporal desabou sobre a cidade, causando mortes, vítimas e danos materiais. Ao aguaceiro que caiu precedeu tremenda tempestade de vento que açoitava com inaudita violência abalando estruturas, arrancanco árvores, espatifanado vidraças e fazendo ruir moradias. Registraram-se por diversos pontos da metrópole, como sejam: Gávea, Penha, Copacabana e Andaraí, desabamentos e, consequentemente, acidentes pessoais entre os quais um só fatal, a despeito da inclemência dos elementos em fúria“.

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Trecho da matéria do jornal A Manhã. (Foto: Reprodução)

Na época, o Rio ainda tinha uma estrutura urbana muito diferente da atual. Muitos bairros possuíam ruas arborizadas, postes e construções mais vulneráveis às rajadas de vento. Um temporal de grandes proporções rapidamente se transformava em problema para moradores e para os serviços públicos.

“Ainda não havia cessado o tremendo temporal e a nossa reportagem pôs-se em campo, alcaçando com natural dificuldade os pontos atingidos pela ação da tempestade. Foi na rua Pacheco Leão, n. 1235, fundos do Jardim Botânico, que um barracão ficou espatifado por um pé de eucalipto, que, açoitado pelo vento, lhe caiu por cima”.

“Em consequência seus moradores foram vitimados, sofrendo contusões e escoriações. São éles: Virgilio Candido de Figueiredo, com 79 anos, casado, lavrador; Abigail Batista de Souza, de 30 anos, casada; Agdo Martins de Souza e seu filho, Zicelen; e Joaquim Monteiro Pereira, casado, com 68 anos, operário. Todos foram medicados no Hospital Miguel Couto, retirando-se a seguir“.

O episódio de janeiro de 1953 também mostra que os eventos extremos não são uma novidade na história climática do Rio. Décadas antes dos atuais sistemas de alerta, o carioca já convivia com temporais capazes de mudar a rotina da cidade em poucas horas.

Desabamento em Copacabana

Um dos casos mais graves do dia 8 de janeiro foi um desabamento em Copacabana, conforme o jornal A Manhã relatou:

“Há na rua Toneleros nº 119, um prédio em obras. No 10º andar desabou uma das paredes, indo os escombros atingir vários operários que ali trabalhavam. As vitimas foram as seguintes: Eli Nobrega Rodrigues, de 24 anos, solteiro, João Serafim Dias de 21 anos, solteiro, ambos residentes no local do acidente; e João Emilio Bezerra, com 21 anos, solteiro, de residencia desconhecida. Os dois primeiros sofreram contusões e escoriações. Este último teve fratura do cranio sendo internado no HMC onde aqueles também foram medicados, retirando-se depois“.

Desmoronamento e morte no Andaraí

“Também no bairro do Andaraí, na rua Leopoldo, a chuva causou danos e ceifou vidas. No número 62 da citada rua existe uma vila de duas casas e no fundo destas, dos barracões em que residem parentes dos moradores da casa dois. Ontem, quando o grosso do temporal começou a cair, a casa 2 deu sinal de insegurança. Relampagos, chuva em quantidade e de repente a parede dos fundos da casa ruiu, indo colher os dois barracões dos fundos. O primeiro ficou completamnte destroçado e o segundo parcialmente destruido”.

Hospital a luz de velas

O jornal relata também que o hospital Miguel Couto ficou às escuras e os serviços médicos foram realizados a luz de velas.

“O Hospital Miguel Couto teve seus serviços grandemente prejudicados. Desmantelada a rede elétrica pelos efeitos do temporal aquele Hospital, durante mais de duas horas, ficou às escuras. Para que não houvesse interrupção nos serviços médicos, os trabalhos ali foram executados à custa de iluminação a vela”.

Os relatos publicados pelos jornais naquele janeiro de 1953 revelam a dimensão dos estragos provocados pelo temporal e ajudam a reconstruir um dia de tensão vivido pelos cariocas. Entre árvores derrubadas, desabamentos, moradores feridos e serviços essenciais prejudicados, as páginas da imprensa preservaram um retrato de uma cidade que enfrentava os impactos da natureza e que ainda sofre com muitos dos mesmos problemas diante de temporais, como alagamentos, quedas de árvores e danos à infraestrutura urbana.

Fonte: Portal-Site Diário do Rio – Por Daniela Calcia