quinta-feira, julho 30, 2026
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Vinícola de Teresópolis quer produzir o primeiro espumante 100% feito no Rio de Janeiro

Projeto da Maturano reúne cultivo próprio das uvas, viticultura de inverno e produção integral na Serra Fluminense, da videira ao amadurecimento em garrafa.

Vinicola Maturano em Teresopolis 2 Credito Robson Oliveira 696x464

Durante décadas, produzir vinho fino no Brasil era uma realidade praticamente restrita à Serra Gaúcha. Mais recentemente, a Serra da Mantiqueira passou a dividir esse protagonismo revelando o potencial de novas áreas produtoras no país. Agora, em Teresópolis, na Região Serrana, a Vinícola Maturano busca colocar o Rio de Janeiro nesse mercado com um projeto que pode resultar no primeiro espumante integralmente produzido no estado, desde o cultivo da uva até o amadurecimento em garrafa.

A vinícola aposta na viticultura de inverno, tecnologia de precisão e no cultivo próprio de todas as uvas utilizadas nos rótulos. O projeto, iniciado oficialmente em 2020, reúne produção de vinhos, gastronomia e enoturismo e tem como uma das principais apostas a elaboração de um espumante pelo método tradicional, a partir de uma Chardonnay cultivada em Teresópolis.

Na propriedade, são produzidas variedades como Cabernet Franc, Syrah, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Malbec e Gewurztraminer, todas utilizadas na elaboração dos vinhos da casa.

Uma das principais escolhas da vinícola foi trabalhar apenas com uvas próprias. Em um setor onde é comum complementar a produção comprando matéria-prima de outros produtores, Marcelo Maturano, sócio-fundador da Maturano, afirmou que prefere reduzir o número de garrafas disponíveis a comprometer a identidade dos rótulos.

“Nós somos uma das poucas vinícolas brasileiras que trabalham com 100% de uvas próprias. Se uma variedade produzir menos em determinado ano, aquele vinho pode até deixar de existir naquela safra. O que não faz sentido para nós é comprar uva de outro lugar. O vinho precisa representar exatamente o que nasceu aqui”, disse.

Embora tenha aberto as portas ao público recentemente, o projeto começou a ser estruturado em 2020, com estudos agronômicos, correção do solo e preparação das áreas de cultivo. As primeiras videiras foram plantadas em 2022, sob acompanhamento da enóloga Mônica Rossetti, responsável pelos protocolos de manejo e vinificação desde o início da produção.

A primeira safra foi colhida em 2024. Naquele momento, as uvas ainda eram enviadas para São Paulo para serem vinificadas. Hoje, todo o processo acontece em Teresópolis, da chegada da fruta aos tanques de fermentação, passando pelo laboratório, sala de barricas e engarrafamento.

Foi justamente a busca por qualidade que levou a vinícola a adotar a viticultura de inverno, técnica que transformou a produção de vinhos no Sudeste. Em vez de colher as uvas no verão, período marcado por chuvas intensas, a Maturano realiza duas podas ao longo do ano e descarta a primeira safra para concentrar a colheita nos meses mais secos e frios do inverno.

“A planta não entende por que não conseguiu produzir fruto. Então ela tenta de novo. É isso que fazemos. Ela produz duas vezes, mas nós descartamos toda a safra do verão e ficamos apenas com a do inverno”, explicou Marcelo.

Desenvolvida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e difundida em estados como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, a técnica sustenta toda a produção da vinícola. Para Marcelo, a diferença está principalmente na concentração e na qualidade das uvas.

“Os vinhos de inverno têm outra concentração. No verão, a chuva interfere muito. Para vinhos tranquilos, não compensa. A única possibilidade que enxergamos para a safra de verão é produzir bases para espumantes, porque nesse caso buscamos uma acidez maior”, afirmou.

Chardonnay e o primeiro espumante 100% fluminense

Se Marcelo acompanha a vinícola com a experiência de quem viu o projeto nascer, Manuela Maturano, filha dele e sócia da empresa, representa a próxima etapa do negócio. Ela participa das decisões técnicas ao lado da enóloga Mônica Rossetti e acompanha de perto o desenvolvimento dos espumantes.

A principal aposta é a Chardonnay, cultivada em Teresópolis e colhida durante o inverno. A variedade apresentou resultados considerados acima do esperado.

“A Chardonnay foi um presente. Ela chegou com um açúcar excelente, mas principalmente com uma acidez muito alta. O pH ficou em torno de 3,02 e 3,03. Para quem trabalha com espumantes, isso é excepcional”, disse Manuela.

Quanto menor o pH, maior a acidez natural da uva, característica importante para garantir frescor, equilíbrio e capacidade de envelhecimento após a segunda fermentação em garrafa. Antes da formação das borbulhas, a base do espumante ainda apresenta uma acidez intensa.

Após a segunda fermentação, as garrafas permanecem armazenadas horizontalmente em contato com as próprias leveduras. Nesse período, surgem aromas de pão tostado, brioche, frutas secas e notas amanteigadas, características dos espumantes produzidos pelo método clássico.

Na Maturano, a intenção é trabalhar diferentes tempos de maturação. Parte das garrafas ficará cerca de um ano em autólise, enquanto outras poderão permanecer por dois ou até três anos antes de chegar ao mercado.

Os resultados obtidos nos vinhedos também já influenciam os próximos plantios. Algumas áreas inicialmente destinadas a variedades tintas deverão receber mais uvas brancas após o desempenho observado nas últimas safras.

“Percebemos que algumas variedades brancas responderam ainda melhor do que imaginávamos. Cientificamente, algumas apresentaram desempenho superior ao da própria Sauvignon Blanc nesta safra. Isso fez a gente repensar parte do vinhedo”, explicou Manuela.

Cada inverno fornece novos dados sobre o comportamento das videiras na Serra Fluminense. É um projeto que ainda está em construção, mas se os resultados esperados se confirmarem, Teresópolis poderá se tornar uma referência fluminense na produção de vinhos finos.

Fonte e foto: Diário do Rio – Por Mariana Motta