Morre Zuenir Ventura, autor referência do jornalismo brasileiro, aos 95 anos
Jornalista e escritor mineiro, natural de Além Paraíba, transformou grandes reportagens em livros fundamentais para compreender a história recente do Brasil e partiu em casa, no Rio, de pneumonia.

Morreu na manhã desta terça-feira, 22 de setembro, aos 95 anos, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, autor de livros que se tornaram referências do jornalismo brasileiro, como “1968: O ano que não terminou”, “Cidade partida” e “Chico Mendes: crime e castigo”. Zuenir morreu em casa, no Rio de Janeiro, em decorrência de uma pneumonia. Mineiro de Além Paraíba, onde nasceu em 1º de junho de 1931, atravessou mais de seis décadas de imprensa, passou por algumas das principais redações do país e, em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), na qual ocupava a cadeira 32, sucedendo Ariano Suassuna.
O velório será realizado amanhã, quarta-feira, dia 23, na sede da ABL, Centro do Rio. O escritor será enterrado no Mausoléu da instituição, no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
A trajetória de Zuenir Ventura

Filho de um pintor de paredes, profissão em que também trabalhou ainda menino, Zuenir foi contínuo, arquivista e professor antes de construir sua trajetória no jornalismo. Formou-se em Letras Neolatinas pela antiga Faculdade Nacional de Filosofia, hoje integrada à UFRJ, onde foi aluno de nomes como Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. Começou a trabalhar na Tribuna da Imprensa e, ao longo da carreira, passou por veículos como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo.
Preso após a edição do AI-5, em dezembro de 1968, Zuenir transformaria aquele período, duas décadas mais tarde, em seu livro mais conhecido. Publicado em 1988, “1968: O ano que não terminou” reconstrói os acontecimentos políticos e culturais daquele ano a partir de depoimentos, memória e investigação jornalística. O livro se tornou um clássico da reportagem brasileira e serviu de inspiração para a minissérie “Anos rebeldes”, escrita por Gilberto Braga.
A combinação entre reportagem e livro marcaria outros momentos de sua obra. Em 1989, Zuenir foi ao Acre investigar o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes. A cobertura para o Jornal do Brasil recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog e, anos depois, seria retomada em “Chico Mendes: crime e castigo”.
No Rio de Janeiro, outra longa investigação daria origem a “Cidade partida”. Depois da chacina de Vigário Geral, em 1993, Zuenir passou meses frequentando a comunidade e acompanhando de perto as relações entre violência, desigualdade, tráfico e moradores. Publicado em 1994 pela Companhia das Letras, o livro recebeu no ano seguinte o Prêmio Jabuti na categoria Reportagem e se tornou outra obra central de sua bibliografia.
Zuenir publicou ainda títulos como “Inveja: mal secreto”, “Crônicas de um fim de século”, “Minhas histórias dos outros”, “1968: O que fizemos de nós”, “Sagrada família” e “Sobre o tempo”, este último construído a partir de conversas com o amigo Luis Fernando Verissimo. Em 2026, sua vida e sua obra foram tema de “Mestre Zu”, documentário dirigido por Zelito Viana e exibido pela própria ABL durante a Festa Literária Internacional de Niterói (Flin), em agosto.
Além Paraíba e Zuenir Ventura

A vida de Zuenir Ventura se entrelaça com Além Paraíba desde o dia de seu nascimento. Na cidade mineira ela nasceu e viveu até os seis anos de idade, quando seu pai levou toda a família para morar em Nova Friburgo.
Na cidade serrana fluminense viveu grande parte de sua infância e adolescência, até quando mudar-se para o Rio de Janeiro, então capital federal, então para fazer faculdade. Ao longo das décadas, ele testemunhou e relatou episódios da história do Rio, além de ter escolhido a cidade como cenário para várias de suas obras.

No Rio de Janeiro, onde viveu até hoje no bairro de Ipanema com Mary, sua companheira, o escritor só saia de casa para ir ao médico ou ao dentista. Os telefonemas não dão conta de matar a saudade que sentia dos amigos. Zuenir via os dois filhos e os dois netos sempre, e os beijos e abraços que sempre adorou dar. Em Além Paraíba foram realizadas três homenagens ao filho ilustre. A primeira, quando, por sugestão do saudoso professor José Alves Fortes, foi paraninfo de uma turma de formandos em Letras da Fundação Educacional de Além Paraíba (FEAP). A segunda, através do gabinete da vereadora Guaraciaba Germelo de Marca, que lhe concedeu a Comenda do Mérito Mercadante, sendo representado pelo amigo Flávio Senra, editor do ALÉM PARAHYBA, que também representou a municipalidade alemparaibana, à época titularizada pelo ex-prefeito Fernando Lúcio Donzeles, quando de sua posse na Academia Brasileira de Letras.
Numa terceira vez, o ilustre alemparaibano, que nunca negou ser natural de Além Paraíba, a um grupo de alunos da Escola Municipal “Lafayete Côrtes” concedeu uma entrevista com exclusividade. Ao editor do ALÉM PARAHYBA, que intercedeu para que a conversa fosse realizada, o “professor”, é assim que sempre foi tratado carinhosamente por Flávio, disse que foi uma das mais emocionantes entrevistas que já concedeu em sua vida. “Foi gratificante, repleta de emoções, que pude ter uma conversa tão amiga e tão próxima com a minha terra natal. Deixo aqui registrado o meu abraço de avô para todos os alunos do Lafayete Côrtes”, relatou à ocasião.
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Fontes: Portal-Site Publish News e Arquivo Jornal Além Parahyba



