Macaco-bugio participa de missa no Bairro Tiguera em Juiz de Fora
Bugio tem nome, Cornélio, e já é conhecido pelos moradores da região; equipe viabiliza resgate e reintrodução em área preservada.

Um fiel inusitado tem chamado atenção nas missas da Comunidade Nossa Senhora da Visitação, da Paróquia Mãe de Deus, no Bairro Tiguera, em Juiz de Fora. Um vídeo que circula nas redes sociais mostra um macaco-bugio participando da celebração e, inclusive, “cantando” com os moradores.
O primata é figura conhecida na região e tem até nome, Cornélio. A espécie, um bugio-ruivo, é ameaçada de extinção e pode chegar a um metro de comprimento e pesar até oito quilos.
De acordo com José Mauro Bulla, coordenador da capela, o bugio participa da missa todos os domingos. “Ele é muito dócil, parece até que entende o que a gente fala”, conta. “Eu converso muito com ele. Outro dia, ele chegou na capela às 6h, enquanto eu arrumava as coisas para missa. Aí eu disse assim pra ele ‘tão cedo assim, Cornélio?’”
José Mauro diz que o bugio chega cedo, senta no banco da capela, e fica em silêncio, como se estivesse prestando atenção na missa. “Às vezes ele sai e chega só no finalzinho, mas enquanto a missa está acontecendo, fica por perto.” Cornélio só faz barulho na hora da música, como se estivesse cantando com os fiés. “Ele não atrapalha ninguém, até canta acompanhando o pessoal. Só por conta do tamanho dele que tem algumas pessoas que ficam um pouco com medo.”
O “canto” relatado pelos moradores, na verdade é uma vocalização muito específica, e muito alta, típica da espécie. Estes “gritos” podem ser ouvidos a grandes distâncias, sendo usados para demarcação territorial e união do grupo.
Desde a construção da capela, o bugio já rondava a região, mas ficava na árvore, de longe, observando. Foi em meados de julho de 2025 que ele começou a se aproximar e foi chegando, até entrar na capela e participar da missa. “E lá na igreja ninguém dá comida para ele não”, garante José Mauro.
Resgate está sendo viabilizado

Essa aproximação recente tem alertado profissionais da conservação ambiental. Embora o bugio conviva de forma tranquila com a população do entorno, sua presença representa riscos tanto para os moradores e, principalmente, para o próprio animal.
Uma equipe do Ibiti Projeto está mobilizada para realizar o resgate do bugio e reintroduzi-lo em uma área de mata preservada. A bióloga e mestre em biodiversidade e conservação da natureza Maria Eduarda Branco, que trabalha no Ibiti Projeto, explica que o reforço da espécie bugio-ruivo na região de Ibitipoca já era um desejo antigo, já que o animal é nativo da área. “O bugio-ruivo foi uma espécie que sofreu muito durante o período da Febre Amarela, antes era bem comum de encontrar bugio aqui na região de Ibitipoca e hoje ele não é mais visto.”
Desde as primeiras notícias sobre Cornélio na mídia juiz-forana, a equipe do Ibiti Projeto passou a articular, junto aos órgãos ambientais responsáveis, a captura do animal. A intenção é que o bugio seja reintroduzido em uma área preservada e própria para a soltura de animais silvestres, o Projeto Asas, cadastrado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), dentro do Ibiti Projeto.
Segundo Maria Eduarda, a equipe aguarda a autorização dos órgãos ambientais para a captura. “Já estamos em contato com o Ibama, IEF e até o Corpo de Bombeiros, que já se prontificaram para ajudar na captura, caso a autorização seja dada. Temos também um comitê de especialistas da espécie que pode nos ajudar com a documentação, caso qualquer alteração precise ser feita.”
O local onde Cornélio deverá ser solto é um fragmento de Mata Atlântica com 39 anos de preservação, que conta com estrutura adequada para o recebimento de primatas. A intenção é que outros indivíduos da mesma espécie também possam ser reintroduzidos no local, possibilitando o retorno da espécie à região.
“O bugio é uma espécie gregária, ou seja, que vive em grupos de cinco a dez indivíduos, e o Cornélio, muito provavelmente se desgarrou do grupo ou foi deixado por ele. Então nós podemos tratar essa aproximação que ele tem das áreas urbanas como uma necessidade biológica, de ter contato com outros indivíduos. Mas é importante falar que não é uma carência, mas sim a necessidade de estar próximo a um grupo”, explica Maria Eduarda.
Fonte: Tribuna de Minas – Por Mariana Floriano



