Violência escolar: a brutalidade chancelada pelo Estado
OPINIÃO
Por Arthur V. F. Furtado (*)

O Estado promoveu um desmonte gradual da profissão docente, impondo obstáculos a todas as atividades típicas do cotidiano do professor, como preparar as aulas com liberdade, lecionar explicitamente, transmitir conhecimentos, avaliar o desempenho dos alunos, disciplinar a turma e até mesmo reprovar os discentes que nada fazem além de prejudicar aqueles que realmente desejam ensinar e aprender. Não satisfeitos, contudo, em promover o desmantelamento do ofício, políticos e burocratas vêm chancelando, por atos e omissões, a violência praticada contra o professorado brasileiro.
Os dados sobre indisciplina e violência escolar demonstram que a situação está fora de controle em muitos estados. Nesse sentido, a edição de 2024 da TALIS (Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem) – maior levantamento mundial sobre professores e líderes escolares -, promovida pela OCDE, aponta que, nos anos finais do Ensino Fundamental, manter a disciplina em sala de aula é fonte de estresse para 63,8% dos docentes brasileiros (média da OCDE: 44,8%).
Além disso, mais de 50% relataram enfrentar “barulho perturbador e desordem” durante as aulas (média da OCDE: 20%) e 44% afirmaram perder tempo significativo com as interrupções dos alunos (média da OCDE: 18%). Como resultado, 21% do tempo de aula é perdido apenas para tentar manter a ordem (média da OCDE: 15%).
Quanto à violência, o percentual de professores dos anos finais que assinalaram como fonte de estresse “ser intimidados ou ofendidos verbalmente pelos alunos” atinge 46,6%, um valor quase três vezes superior à média da OCDE (17,6%) e o mais alto entre os países latino-americanos analisados (TALIS, 2024).
Pesquisa do Centro de Estatística Aplicada do Instituto de Matemática da USP, em parceria com o Sindicato dos Professores e Funcionários Municipais de São Paulo, revelou o tamanho desse impacto: 62,5% dos docentes entrevistados relataram ter sido vítimas de algum tipo de violência em seu ambiente de trabalho.
De acordo com a FAPESP, os casos de violência escolar triplicaram no país em uma década. Ademais, o 4º boletim técnico “Escola que Protege” (MEC/MDHC), indica que, entre 2001 e 2025, foram identificados 47 ataques de violência extrema em estabelecimentos de ensino, resultando em 177 vítimas (56 fatais e 121 feridas).
Diante desse quadro, cabe perguntar: o que fazem as autoridades para proteger as escolas, os professores e os estudantes? De efetivo, absolutamente nada. Não há investimento em pessoal – 50% dos professores atuam sob contratos temporários e apenas 15,7% das escolas públicas contam com psicólogos (Censo Escolar 2025) – e a infraestrutura permanece precária: nos anos finais do Ensino Fundamental, 41,4% das escolas públicas não possuem quadras esportivas, 30,8% não têm biblioteca, 53,2% não contam com laboratório de informática e 79,7% não abrigam laboratórios de ciências (Censo Escolar 2025). Soma-se a isso a escassez de materiais básicos de trabalho, como papel, computador, internet e artigos esportivos para as aulas de Educação Física.
Seria injusto, porém, afirmar que os gestores e políticos não fazem absolutamente nada, pois, além de minar o trabalho das escolas, como esclarecido acima, muitos promovem ataques diretos aos docentes, rotulando-os de “doutrinadores”, “opressores”, “preguiçosos” e “incompetentes”, incitando a sociedade contra a própria classe magistral.
Diante dessa realidade, marcada pela violência e pela precariedade, discursos sobre ludicidade, manejo de sala de aula, metodologias ativas e uso de tecnologia em sala de aula soam, na melhor das hipóteses, como o cinismo dos vendedores de sonhos; na pior, representam uma forma velada de culpabilização da vítima. Afinal, se o aluno agride o professor com xingamentos e desrespeito insistente, fica subentendido que a culpa é daquele que não soube tornar a aula “divertida”, “dinâmica” e ajustada às preferências da nova geração.
Enfrentar a indisciplina e a violência dentro das escolas exige soluções concretas. Isso passa, inevitavelmente, por ampliar investimentos em infraestrutura, valorização da carreira e respaldo jurídico e psicológico aos docentes, além de programas de recuperação de lacunas de aprendizagem no contraturno. Passa, sobretudo, por devolver a autoridade pedagógica e o comando das salas de aula ao professor, o qual precisa ter liberdade para preparar as suas próprias aulas, disciplinar a sua turma e avaliar os seus alunos sem a interferência de burocratas focados em maquiar indicadores oficiais.
Por fim, já passou da hora de implementar marcos legais rigorosos para proteger os profissionais da educação, responsabilizar as famílias pelo comportamento dos seus filhos e punir com severidade familiares que agridem professores. Se o país agir depressa, talvez ainda seja possível resgatar a dignidade da carreira docente e evitar o apagão que se vislumbra em um horizonte cada vez mais próximo.
(*) Arthur V. F. Furtado é professor, coordenador pedagógico, doutor em Educação Escolar e autor do livro “Queimem todos os professores”
Fonte: LC Comunicação – Maria Clara Menezes / Foto: Portal-Site proesc – Reprodução



