domingo, setembro 20, 2026
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Gilmar Mendes e a ética que não pode virar proteção entre colegas

OPINIÃO

Por Alexandre Garcia (*)

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“Não se pode expor um colega, mesmo que ele esteja eventualmente envolvido. Até a máfia tem ética.”

A frase de Gilmar Mendes durante a sessão do Supremo Tribunal Federal chama atenção não apenas pela comparação escolhida, mas pelo princípio que ela parece colocar em discussão: até onde vai a lealdade entre colegas quando existem suspeitas que precisam ser esclarecidas?

Um ministro do Supremo não é apenas um colega de tribunal. É uma autoridade pública submetida a regras, responsabilidades e ao dever de prestar contas à sociedade. Se existem informações relevantes envolvendo integrantes da própria Corte, o caminho institucional deveria ser justamente o esclarecimento dos fatos, com o mesmo critério para todos.

A preocupação com exposição indevida é legítima. Ninguém deve ser condenado por mensagens, suspeitas ou informações ainda não comprovadas. Mas existe uma diferença fundamental entre preservar a honra de alguém e preservar alguém de uma apuração.

E é justamente aí que a declaração de Gilmar provoca desconforto.

Quando a defesa da “ética entre colegas” passa a significar que um magistrado eventualmente envolvido não deveria ser exposto, surge uma pergunta inevitável: quem deve prevalecer — a solidariedade interna da Corte ou o interesse público em saber o que realmente aconteceu?

O Supremo não pode funcionar como um clube fechado em que a lealdade entre integrantes esteja acima da transparência. A Justiça exige imparcialidade, mas também exige que suspeitas sejam esclarecidas, inclusive quando atingem os próprios julgadores.

Gilmar diz que é preciso ter decência. É justamente por isso que a pergunta precisa ser feita: a verdadeira decência institucional não seria aplicar aos colegas o mesmo rigor que se espera de qualquer cidadão?

Porque, no fim, a ética de uma instituição pública não pode depender de proteger os seus integrantes. Deve depender da disposição de esclarecer os fatos — sejam eles quais forem e atinjam quem atingirem.

 (*) Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional.

Bethania 2026 08