Municipalidade alemparaibana presta homenagem a José Heitor incorporando a escultura “A Dama do Centenário” ao acervo municipal
Adelaide Carijó, personagem popular alemparaibana, foi esculpida e apresentada publicamente no ano de 1983, ocasião em que Além Paraíba comemorou o seu centenário.

Na última segunda-feira, dia 28 de setembro, ocasião em que o município de Além Paraíba comemorou o seu 143º aniversário de emancipação político-administrativa, a municipalidade alemparaibana prestou justa homenagem ao escultor José Heitor da Silva, apelidada pelo editor do Jornal Além Parahyba como “O Poeta da Madeira” pelos idos da década de 1990.
A homenagem se deu por iniciativa do prefeito Dr. Paulo Henrique Marinho Goldstein que incorporou a escultura “Adelaide Carijó – A Dama do Centenário” ao acervo público municipal. Criada e apresentada ao povo alemparaibano no ano de 1983, ocasião em que o município comemorou o seu centenário, a icônica obra é das mais relevantes da história do escultor já que retrata com perfeição a personagem popular que viveu seus últimos dias no Asilo Ana Carneiro.
Por ocasião da homenagem, o secretário municipal da Cultura, Cassiano Teixeira, em postagem na Rede Social ressaltou a importância da incorporação da obra ao acervo do município. Disse Cassiano:
“A aquisição da escultura “Adelaide Carijó”, obra do renomado escultor alemparaibano José Heitor, pela Prefeitura Municipal de Além Paraíba, representa um marco fundamental para o fortalecimento e a preservação da identidade cultural da nossa cidade.
Efetivada neste 28 de setembro, data em que celebramos o aniversário de Além Paraíba, esta ação concretiza um duplo propósito: realiza o desejo expressado pelo próprio artista de ver sua criação integrada ao acervo público e consolida a política de valorização e manutenção do nosso patrimônio vivo.
Como artista e, hoje, Secretário de Cultura de Além Paraíba, viver este momento tem um significado profundo e incomparável. Não se trata apenas do cumprimento de um dever institucional ou da formalização de um ato administrativo; trata-se do encontro entre a paixão pela arte, o respeito pelo mestre e o compromisso ético e afetivo com a memória da nossa terra.
A obra de José Heitor expressa a alma, a memória e a sensibilidade de Além Paraíba. Incorporar a escultura “Adelaide Carijó” ao patrimônio municipal garante que as presentes e futuras gerações tenham acesso direto ao talento de um dos nossos maiores expoentes artísticos. Reconhecer a importância dos artistas locais em vida e salvaguardar suas obras no acervo do município é um compromisso direto com a memória coletiva e com a sustentabilidade da cultura municipal.
A entrega e oficialização da compra no dia do aniversário da cidade transformam o ato em um presente duradouro para toda a população alemparaibana, eternizando a ligação do artista com a sua terra natal. Ao passar para a gestão municipal, como nas palavras do próprio artista, “a obra deixa de pertencer ao José Heitor e passa a ser de toda Além Paraíba”, se tornando um bem comum, acessível a todos os cidadãos, estudantes e visitantes que buscam conhecer a história e a arte local. A incorporação de “Adelaide Carijó” ao patrimônio público reafirma o respeito de Além Paraíba por sua trajetória cultural e celebra o legado inestimável de José Heitor para a história das artes plásticas em nosso município”.
Durante a cerimônia, realizada após o Desfile Cívico que tomou conta da Ilha do Lazareto e contou com familiares de José Heitor, o prefeito Dr. Paulo Goldstein relatou a importância de tornar a escultura pertencente não somente ao renomado artista, mas também a toda Além Paraíba.
Parabéns à atual Administração Pública Municipal pela iniciativa, o que vem demonstrar o seu interesse e preocupação em levar além fronteiras a arte e a cultura de Além Paraíba.
Ao final da matéria mais 04 imagens do evento clicadas por Flávio Senra/ Jornal Além Parahyba…
“Adelaide Carijó – A Dama do Centenário”

Considerada como uma das mais importantes obras do escultor alemparaibano José Heitor da Silva, apelidado carinhosamente pelo editor do Jornal Além Parahyba, Flávio Senra, como “O Poeta da Madeira”, a escultura em madeira denominada “Carijó”, com cerca de 1,30 metro de altura, representa uma das mais icônicas personagens que circulou pelas ruas alemparaibanas pelos idos dos anos das décadas de 1940/1960.
Utilizando uma peça inteiriça de vinhático, madeira que apresenta um prático torneamento e um bom acabamento, sendo muito utilizada em embarcações, na construção civil, no setor mobiliário e em molduras decorativas, “Carijó” foi esculpida em cerca de seis meses durante o ano de 1983. Concluída, José Heitor expôs sua obra no dia 28 de setembro, na Ilha do Lazareto, local onde milhares de alemparaibanos e visitantes se faziam presentes para comemorar os 100 anos de emancipação político-administrativa de Além Paraíba.
Tratando-a como a “Dama do Centenário”, aquele, que para muitos é o mais importante nome do cenário artístico alemparaibano, não apenas prestava uma homenagem a uma mulher humilde, mas também para uma sobrevivente como tantas outras que até os dias de hoje podem ser encontradas no nosso dia-a-dia, vagando sem destino sem encontrar um ombro amigo que lhes dê o apoio que tanto necessitam.
Inúmeras são as obras de José Heitor espalhadas mundo afora, até mesmo nos Estados Unidos da América e na Europa, todas de grande valor artístico-cultural que mostra a capacidade e a técnica somente encontrada em grandes mestres. Mas “Carijó”, antes de tudo representa parte da história do município, tanto que o atual Chefe do Poder Executivo Municipal da boa terra banhada pelo Paraíba do Sul, prefeito Dr. Paulo Henrique Marinho Goldstein, num lampejo que tantos outros prefeitos tiveram a oportunidade e nada fizeram, decidiu adquirir, com recursos dos cofres públicos, a obra para mantê-la para sempre junto do povo alemparaibano antes que, plagiando a frase dita por D. João VI a seu filho Pedro ao voltar para Portugal, “algum aventureiro lance mão” e a leve para longe.
Segundo o prefeito em 22 de setembro do ano passado, quando de uma entrevista concedida ao Jornal Além Parahyba, a obra não pertence apenas ao seu criador, mas também a todo povo alemparaibano, daí utilizando todos os procedimentos jurídicos legais para adquiri-la e, num local de destaque dentro das dependências do Paço Municipal, mantê-la em exposição permanente.
Na última segunda-feira (28), tão logo o histórico e centenário prédio-sede da municipalidade, localizado na Praça Coronel Breves, em São José, em fase final de restauração, abrigará a obra do grande artista José Heitor da Silva.
Quem foi Adelaide “Carijó”

Segundo o historiador alemparaibano Mauro Luiz Senra Fernandes, publicado no Informativo “Nos Tempos de Dantes”, em 24 de abril de 2007, Adelaide nasceu pelos idos do início do século XX, na Fazenda da Serra Bonita. Pela sua aparência, demonstrava ser descendente dos Puris, um povo indígena nômade que habitou o sudeste do Brasil, especialmente o Vale do Paraíba, que foi disperso pela colonização a partir do século XVIII e desapareceu de nossa região no período de nosso povoamento.
Ela seria a segunda esposa do lavrador Sebastião Maria que faleceu acidentalmente ao cair de uma mangueira, em uma chácara que existia pelos arredores do Bairro da Saúde.
Segundo o historiador, não existem informações precisas de quando ela passou a circular pelas ruas de Além Paraíba em busca de esmolas ou de um prato de comida. Vale ressaltar, ainda foca Mauro Senra, sua miséria era acrescentada pela falta de respeito à sua história, pois comumente era abordada por garotos, até mesmo adultos, com insultos, deboches e apelidos, como o sonoro “Sacode Carijó!”, “matou o marido derrubando ele da mangueira”. Como resposta, ela bradava um grande praguejar repleto de sofrimento.
Adelaide teve alguns filhos, entre eles Adão e José, que durante certo tempo de suas infâncias a acompanhavam pelas ruas da cidade. Mais tarde, eles teriam sido enviados para alguma instituição de crianças abandonadas.
Adelaide acabou ficando só, resistindo aos insultos proferidos em suas caminhadas pela cidade, até ser internada no Asilo Ana Carneiro, na Vila Caxias, onde viveu seus últimos dias de vida.




Texto de Mauro Senra



