SYLVIO GERALDO FRANÇA: o empreendedor de visão futurista que conquistou Além Paraíba

No ano de 1915, quando a Europa vivia o pesadelo da Primeira Grande Guerra, o Brasil era governado pelo mineiro Venceslau Braz, Minas Gerais tinha como governador o cristinense Delfim Moreira, Rio de Janeiro, o campista Nilo Peçanha, e o Distrito Federal, o gaúcho Rivadávia da Cunha Correa. Foi um ano marcado por grandes tragédias, como o torpedeamento, por um submarino alemão, do transatlântico RMS Luzitania, provocando a morte de 1.198 pessoas; bem como registrada a maior seca já documentada no Nordeste brasileiro, relatada com maestria pela escritora Rachel de Queiroz no seu romance “O Quinze”.
Grandes personalidades da arte-cultura-política do Brasil e do mundo nasceram naquele ano. E entre tantos podem ser citados: os brasileiros – George Savalla Gomes (palhaço Carequinha), Esther de Figueiredo Ferraz (primeira mulher ministra de Estado no Brasil), Augusto Ruschi (naturalista), Guilherme Figueiredo (dramaturgo), Grande Otelo (ator), Orlando Silva (cantor); e os estrangeiros – Lorne Greene (ator), Anthony Quim (ator), Edith Piaf (cantora), Orson Welles (ator e diretor), Yul Brynner (ator), Frank Sinatra (cantor e ator), Bienvenido Granda (cantor), dentre outros.
Ainda naquele ano, em 1º de outubro, na Fazenda das Flores, município fluminense de Sumidouro, nascia o caçula dos cinco filhos do casal Francisco Ribeiro França e Hercília Malta França – ele, fazendeiro e comerciante, ela, dona-de-casa repleta de predicados morais e religiosos. Chegava ao mundo Sylvio Geraldo, irmão de Boanerges, José, Maria Cecília e Maria de Lourdes.
Sylvio cresceu cercado de todo amor e proteção de seus pais e irmãos, correndo e brincando pelas matas, nadando e pescando nos rios e córregos sumidourenses. Aos sete anos, foi residir na cidade vizinha de Carmo, iniciando os estudos numa escola da rede pública. Chegando ao limiar da adolescência, com 13/14 anos, foi morar em Nova Friburgo, como aluno-interno no Colégio Modelo. Neste período, ocasião em que o Brasil e o mundo passaram a viver uma grande crise financeira, as dificuldades também atingiram a família liderada por Francisco Ribeiro França, obrigando o jovem Sylvio retornar ao Carmo e começar a trabalhar para auxiliar nas despesas familiares. Por dois anos foi caixeiro no armazém de um dileto primo, de nome César, na cidade de Itaperuna.
Prestes a completar a maioridade, em 1933, foi convocado para servir o Exército Brasileiro, sendo enviado para o longínquo Estado de Santa Catarina, onde ficou por dois anos. A vida na caserna lhe trouxe grandes amizades e, principalmente, dois predicados que carregou por toda sua vida: a previdência e a organização.
Concluído o prazo obrigatório de serviços nas Forças Armadas, Sylvio França retornou para a cidade de Carmo, onde começou a trabalhar na prefeitura. À ocasião, conheceu uma jovem de nome Carmélia, ficando perdidamente apaixonado. Carmélia era filha de um dinâmico empreendedor carmense, Celso Carrilho de Faria, e da dona de casa Adelina de Amaral de Faria. O empreendedorismo de Celso Carrilho era reconhecido por toda região, e entre as inúmeras benesses que conquistou para o crescimento do município carmense foi a instalação de uma agência do Banco Industrial, sendo o seu primeiro gerente.
De início, o namoro entre Sylvio e Carmélia não foi bem aceito por Celso Carrilho, que talvez preferisse que a filha se casasse com um médico, um advogado ou um grande produtor rural. Para se encontrarem, uma estratégia foi montada por Carmélia, de conluio com sua mãe – na ausência do pai, a jovem, exímia pianista, tocaria uma determinada canção ao piano e Sylvio poderia aparecer para trocar palavras e juras. Com o passar do tempo a visão de Celso Carrilho sobre o jovem funcionário público foi mudando, e, em 28 de setembro de 1943, o funcionário público Sylvio Geraldo casou-se, na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, com a jovem Carmélia. Em 11 de fevereiro do ano seguinte, nascia a primeira filha do casal que ganhou o nome de Sônia Maria.
Enxergando um grande potencial no genro que lhe presenteava com uma neta, Celso Carrilho indicou-lhe para gerenciar, em Além Paraíba, uma agência do Banco Industrial que seria inaugurada em maio de 1944. No município mineiro, o jovem casal foi residir inicialmente no bairro de Vila Laroca, mudando-se meses depois para o bairro de Porto Novo, mais precisamente na Rua XV de Novembro. Liderando uma equipe que contava com Jairo Junqueira e Luizinho Porto, Sylvio mostrou para a direção do Banco Industrial que o potencial e a confiança que o sogro lhe depositava não era um mero protecionismo.
Passado algum tempo, nova mudança de residência, desta vez para o bairro Porto Velho, e, em 12 de junho de 1945, a família de Sylvio e Carmélia ganhava mais um integrante com a chegada de Marco Antônio, que nasceu na cidade de Carmo, onde residiam seus avós. Enquanto isso, a agência do Banco Industrial prosperava ganhando clientes e promovendo negócios com o comércio e a indústria local.
Sua atuação junto a agência do Banco Industrial chamou a atenção de um novo banco que se instalava em Além Paraíba – o Nacional do Estado de Minas Gerais S/A, fundado por Francisco Moreira da Costa (irmão do ex-ministro da Fazenda Delfim Moreira) e pelo ex-governador de Minas Gerais José de Magalhães Pinto. Isto fez com que fosse convidado para assumir a gerência da nova agência, convite aceito prontamente.
A visão futurista e o tino para negócios, o empreendedorismo e a facilidade com que conquistava amizades, sempre foi uma marca de Sylvio que, paralelamente aos seus deveres junto ao Banco Nacional, começou a negociar automóveis e terras. Foi aí que, enxergando que o bairro de Vila Caxias – ainda desestruturado, sem calçamento, iluminação precária, dentre outros problemas – tinha um futuro promissor, tomou uma decisão que inicialmente foi um choque para Carmélia, já acostumada a residir em um lugar melhor estruturado: adquiriu uma casa naquele bairro, mudando-se em seguida.
Na Vila Caxias, em 13 de julho de 1948, mais uma filha do casal chegava ao mundo recebendo o nome de Hercília, uma homenagem à avó. E em 1952, no dia 30 de agosto, a família novamente era ampliada com a chegada de Márcio Geraldo.
Ainda em 1952, Sylvio adquiriu, em parceria com Waldir Filgueiras e Joaquim Lopes, a Fazenda da Cachoeira, ficando com a sede da propriedade para residir já que incluíra a casa que possuía na Vila Caxias em negociação. Sylvio convenceu seus sócios de que aquele local tinha plenas condições de se tornar um grande bairro, o que pode ser constatado nos dias de hoje através do populoso Jardim Paraíso, que integra, em conjunto com a Vila Caxias, a Vila Santa Rita e a Esplanada Santo Antônio, certamente o maior núcleo populacional de Além Paraíba.
Em 02 de agosto de 1953, Carmélia presenteou Sylvio com mais um filho – nascia Francisco Celso, o Chiquinho. E, em 18 de setembro de 1961, nasceu o caçula José Marcelo.
Sylvio França vivia intensamente o crescimento de Além Paraíba e sua microrregião. À frente da agência do Banco Nacional, que se tornava uma das mais importantes molas propulsoras da economia alemparaibana, era um dos homens mais procurados e admirados da região, e isso sem perder aquela marca que sempre lhe foi peculiar – o respeito a todos sem distinção de riqueza, credo ou raça.
Em 24 de setembro de 1966, junto com um grupo de amigos, ajudou a fundar um clube de serviços nos mesmos moldes do já existente Rotary Club, do qual inclusive havia sido membro. Foi criado o Lions Club de Além Paraíba, que teve como primeiro presidente Aloísio Guimarães. O Lions Club foi, digamos assim, um novo filho para Sylvio. Através dele, inúmeras ações de cunho social e assistencial aos menos favorecidos foram realizadas, isto sem contar que, em 1968, quando era o seu presidente, foi promovida pela primeira vez a Feira da Comunidade. A força de vontade dos componentes do clube de serviços foi de suma importância para a realização daquele primeiro evento. Entretanto, o dinamismo e a ousadia atávicos em Sylvio Geraldo França foram decisivos para que a ideia lançada se concretizasse. Ele abraçou com garra o ideário e comandou a sua organização com brilhantismo, até hoje lembrado pelos mais antigos participantes do Lions alemparaibano. Vale ressaltar que a Feira da Comunidade acabou resultando na Exposição Agropecuária de Além Paraíba, hoje um dos mais importantes eventos do gênero de toda região.
Em 1969, Sylvio França aposentou-se do Banco Nacional, onde conquistou o respeito e admiração de todos, não somente os alemparaibanos que daquela instituição bancária eram clientes, mas também de todos os funcionários e da alta direção daquela empresa.
Mesmo aposentado, sua visão continuou empreendedora. Mudou-se para o Rio de Janeiro onde alguns filhos estudavam, onde montou uma loja de revenda de automóveis, e, a seguir, com o filho Marco Antônio, criou a empresa Mafra Distribuidora de Títulos e Valores.
Mesmo residindo na Cidade Maravilhosa, Sylvio França tinha os olhos voltados para Além Paraíba. Em terras alemparaibanas adquiriu outras propriedades rurais, e, no bairro que criara com Waldir Filgueiras e Joaquim Lopes, o Jardim Paraíso, doou terrenos para a construção da Escola Professor Edelberto Figueira, de um posto de saúde que recebeu a denominação Mini-Hospital e da Igreja de São Judas Tadeu. Sua tenacidade o fizeram participar da construção de vários empreendimentos imobiliários, como os edifícios Nossa Senhora da Conceição, São Geraldo. Sylvio França (este em Jamapará), Louize e João Bouhid. No início dos anos de 1970, com os filhos e genros, adquiriu a empresa revendedora de veículos Volkswagen, então denominada Safil S/A, alterando sua razão social para Jamauto – Jamapará Automóveis, uma referência em toda a região.
Os diversos afazeres de Sylvio Geraldo não o afastaram de seu convívio familiar. Tudo que realizava era de conhecimento da amada Carmélia, que o apoiava e oferecia conselhos quando necessário. Em casa, sempre foi um homem presente, dedicado e amado pela esposa, filhos, genros, noras e netos.
Entretanto, certo dia quis o destino que Sylvio Geraldo França fosse convidado a integrar o plano superior. Em 28 de junho de 1984, Além Paraíba e região recebiam a notícia de que Sylvio Geraldo havia falecido no Rio de Janeiro, próximo de completar 70 anos de idade. Um amigo assim descreveu a cidade que vestira o negro do luto:
“Além Paraíba estava triste. Ninguém sorria nas ruas. Todos calados, em respeitoso sinal de amor, pelo corte do convívio com o seu pioneiro, benfeitor da terra, homem desses que feito heróis anônimos ajudam a construir civilizações.
O Rio Paraíba do Sul, lá no fundo, que refletia nas suas águas serenas os contornos das ruas laderosas apinhadas de gente humilde, foi vencido para a sua margem direita, pelo cortejo rumando para Carmo, cidade fluminense, onde Sylvio França foi sepultado, ao lado do pai e da mãe, bem ao gosto da tradição mineira…”.
Sylvio Geraldo França, que neste próximo dia 1° de outubro completaria 111 anos, era um homem amigo da terra, um cidadão honrado que deu bons exemplos aos filhos e a todos os seus concidadãos. Era um amigo da pobreza, benfeitor que nada pedia em troca, um homem que convivia com a alma das ruas, falando pelo coração do pobre, que aliava ideais de liberdade, prezava pela simplicidade, pelo espírito cooperativista, solidariedade e calor humano, sempre preocupado com as coisas da terra alemparaibana que o acolhera como filho.










